Em reunião nesta quarta-feira (11), a Executiva Nacional do PSOL aprovou uma resolução política sobre a conjuntura internacional em que avalia a luta anti-imperialista e em defesa da soberania nacional como centrais para o próximo período no Brasil. A política de Donald Trump para todo o planeta, mas especialmente voltada à América Latina, é profundamente preocupante para quem acredita e luta pela autodeterminação dos povos.
“O PSOL reforça seus compromissos históricos de solidariedade ativa entre povos oprimidos e ameaçados pela nova ofensiva do imperialismo com a certeza de que a luta contra a extrema direita e o neofascismo é a luta da nossa geração e com a convicção de que nós podemos ser vitoriosos. Somos da terra de Dandara, Zumbi e Simon Bolívar e não dobramos o joelho para fascista”, diz o trecho final da resolução aprovada.
A imposição do tarifaço em 2025, a luta para anexar a Groenlândia, as provocações contra o Irã e a presença militar no Caribe são exemplos do acirramento da disputa por hegemonia global que o governo de Donald Trump tenta impor ao resto do mundo.
O PSOL também defende que o Brasil diga não à possibilidade de participar do “Conselho de Paz” que Donald Trump se autointitulou como presidente vitalício em uma tentativa de esvaziar os organismos internacionais multilaterais. “Na contramão da ‘paz’, Trump naturaliza ocupações, desestabilizações e guerras, a partir de seus interesses econômicos”, diz trecho da resolução.
A direção do partido também debateu o avanço das contradições internas do governo Trump nos EUA, com novas revelações do caso Epstein, que envolvem diretamente o atual presidente estadunidense no esquema de exploração sexual de mulheres e meninas, assim como a resistência popular cada vez maior à violência contra imigrantes e à sua vergonhosa polícia anti-imigração, o ICE. A firme postura do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que tem reforçado serviços sociais e acesso a direitos aos imigrantes em tempos de repressão, é reconhecida como um sopro de esperança e exemplo de resistência interna a um governo de extrema-direita.
O PSOL também reforçou os posicionamentos recentes que teve em solidariedade ao povo venezuelano após o lamentável sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores pelo governo dos EUA, assim como da solidariedade do partido com Cuba, que sofre com o aprofundamento do criminoso bloqueio econômico por parte dos EUA que já dura décadas e agrava as dificuldades econômicas e energéticas do país. O partido trabalha para que o governo brasileiro se some ao governo mexicano nas ações de solidariedade e de ajuda humanitária ao povo cubano.
Leia abaixo a íntegra da resolução de conjuntura internacional da Executiva Nacional do PSOL:
Conjuntura Internacional
Uma nova ofensiva imperialista sob o comando de Donald Trump
Uma de nossas tarefas internacionalistas mais imediatas é a luta contra a nova ofensiva imperialista dos Estados Unidos. Há muitas razões que justificam essa necessidade histórica, em um contexto de confrontação com a China e de pressão sobre o Canadá e os aliados históricos da tríade, União Européia e Japão, para reconfigurar suas alianças em novas bases, ainda mais assimétricas. A retórica do “American First” [Estados Unidos em primeiro lugar] não é vazia e precisa ser enfrentada à altura, na medida em que Trump renuncia ao multilateralismo, ignora o Direito Internacional e questiona abertamente o papel dos organismos internacionais que o seu próprio país construiu e que os favoreceu no cenário geopolítico aberto desde o pós guerra. A imposição do tarifaço em 2025, a luta para anexar a Groenlândia, as provocações contra o Irã e a presença militar no Caribe são exemplos do acirramento da disputa por hegemonia global.
A criação recente do “Conselho de Paz”, no qual Trump se auto-intitula presidente vitalício, é um nítido exemplo dessa ofensiva geopolítica. Na contramão da “paz”, Trump naturaliza ocupações, desestabilizações e guerras, a partir de seus interesses econômicos, como é o que se vê na sua proposta para Gaza, com a construção de megaempreendimentos imobiliários, negando a história, a memória e o direito à reconstrução do povo palestino após o genocídio. Trump não tem mandato para ser árbitro, muito menos exercer poder de polícia, em uma nova ordem internacional. Dizer não ao Conselho da Paz de Trump é uma necessidade para o exercício de uma política externa altiva e soberana.
É importante considerar que a política externa trumpista convive com o aprofundamento interno do autoritarismo: a atuação da ICE tem sido marcada por deportações em massa, detenções arbitrárias e violência contra comunidades imigrantes, majoritariamente latino americanas, caribenhas e racializadas. A escalada de violência tem produzido medo e assassinato de civis, como as mortes de Renée Good e de Alex Pretti, gerando uma onda de mobilizações em Minneapolis, que, felizmente, cresceu e se espalhou por diversas cidades do país, como Los Angeles, Chicago e Boston, unindo-se a greves e outros protestos, exigindo o fim das operações e a retirada da ICE, em defesa da dignidade humana e da solidariedade entre os povos. Nesse contexto, destaca-se a firme postura de Zohan Mamdani, prefeito de Nova York, que tem se colocado publicamente contra a política anti-imigrantes, reforçando serviços sociais e acesso a direitos em tempos de repressão. Um sopro de esperança diretamente do coração do império já que a resistência interna ao Trump é estratégica para impor freios ao seu apetite imperialista.
Não é menos importante, nesse contexto, o desenvolvimento escandaloso do caso Epstein, uma articulação de exploração sexual de mulheres e meninas durante mais de uma década nos EUA. Os últimos documentos divulgados dão conta do envolvimento de figuras públicas importantes, como o próprio Donald Trump, Bill Gates e até mesmo ex-membros dafamília real britânica, gerando a renúncia de Morgan McSweeney, chefe de gabinete do primeiro-ministro.
As disputas do presente também se expressam no terreno simbólico. A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, um dos maiores palcos midiáticos do mundo, projetou a identidade latinoamericana e caribenha para o centro da cultura global em um momento de radicalização de discursos xenófobos. Ao afirmar nossas raízes diante de milhões de espectadores, o gesto converteu-se em símbolo de pertencimento e resistência cultural.
A defesa estratégica da soberania do Brasil e da América Latina
Após pouco mais de um ano de governo Trump, assistimos a uma recuperação da extrema direita em nossa região, com o crescimento da influência política de Donald Trump, abrindo espaço para uma nova fase da ofensiva imperialista dos Estados Unidos sobre a América Latina e o Caribe. Exercícios militares na costa venezuelana e reiteradas ameaças de invasão escalaram, nos primeiros dias de 2026, para uma criminosa e imoral operação que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, uma grave violação do Direito Internacional e do princípio de autodeterminação dos povos. Diante desse episódio, o PSOL reafirmou sua solidariedade ao povo venezuelano, posicionando-se publicamente e participando das mobilizações realizadas em todo o Brasil.
Essa escalada não é um fato isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla que reedita a Doutrina Monroe sob o manto de uma nova política de “segurança nacional”. A Venezuela tornou-se alvo prioritário dessa agenda, submetida a sanções econômicas e medidas coercitivas que buscam derrubar o seu regime político e ampliar o controle externo sobre seus vastos recursos naturais, especialmente o petróleo. Trump sequer tenta disfarçar seus verdadeiros interesses.
Agora estamos diante da intensificação da investida contra Cuba, aprofundando o bloqueio criminoso e multiplicando ameaças diplomáticas com o objetivo de isolar a ilha no Caribe. Enquanto Washington volta a classificar o país como uma ameaça à sua segurança e à estabilidade continental, em documento lançado em janeiro de 2026, Cuba reafirma a sua soberania e o legado das conquistas de seu povo, resistindo às tentativas de coerção que agravam as dificuldades econômicas e energéticas. Como já afirmamos em resolução recente, é criminosa a imposição de sanções, por parte de Trump, a quem fornecer petróleo para Cuba em um contexto de necessidade. Valorizamos a iniciativa do governo mexicano de enviar ajuda humanitária e defendemos que o Brasil tome medidas semelhantes. Não podemos permitir que se imponha a Cuba um cerco semelhante ao que hoje recai sobre a Venezuela.
Não por acaso, essa ofensiva vem acompanhada da retórica populista de “combate ao narcoterrorismo”, uma fachada para justificar as pressões contra governos como o do Brasil, do México, da Colômbia e da própria Venezuela. Sob esse pretexto, busca-se legitimar uma maior intervenção política e militar na região e ampliar mecanismos de controle sobre Estados soberanos. Também merece a nossa atenção a luta pela retomada do controle do Canal do Panamá e o acordo celebrado entre Estados Unidos e Paraguai, que estabelece uma permissão para a presença e atividades militares e civis do Departamento de Guerra dos Estados Unidos neste país, facilitando seus interesses expansionistas na América do Sul. Da mesma forma, a criação de uma prisão em El Salvador e o apoio das oposições nos países supracitados.
Nessas circunstâncias, a vitória de José Antonio Kast com vantagem no segundo turno da eleição presidencial chilena em dezembro de 2025 também representou um novo impulso para a extrema direita: agora Trump terá mais um aliado ideológico de peso, ao lado de Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador. A fórmula da campanha de Kast não foi uma novidade: restauração neoliberal, anticomunismo, autoritarismo e uma forte “bukelização” dos debates sobre segurança pública, com recrudescimento das políticas anti-imigratórias. A novidade é que, após anos de luta social, tendo como ápice o estalido de 2019, a versão contemporânea do pinochetismo tenha chegado ao poder com voto popular.
Todos esses acontecimentos recentes reforçam, ainda mais, a importância das eleições presidenciais que ocorrerão em 2026 em meio a um contexto de polarização política: Brasil, Colômbia, Peru, Costa Rica e Haiti elegerão seus presidentes. Pela importância geopolítica, demográfica e pelo papel de Gustavo Petro e Lula, Colômbia e Brasil estarão no centro dos holofotes dessa disputa. Nesse contexto, não será indiferente para o avanço neocolonial e imperialista em nossa região quem será eleito em cada um desses países. Pelo contrário, mais do que o futuro de cada nação individualmente, estão em disputa a soberania e a paz da nossa região. Trump também sabe disso e, ao longo de 2025, já atuou diretamente com ofertas e ameaças econômicas sobre as eleições legislativas da Argentina, favorecendo aliados de Milei, e nas presidenciais de Honduras, apoiando as forças da oposição de direita. Em 2026, precisamos estar politicamente preparados para enfrentar as chantagens trumpistas, mostrando, em cada oportunidade, quem são os verdadeiros e os falsos patriotas em nosso país. Não há dúvidas que sofreremos tentativas de intervenção norte-americana, por isso a bandeira da soberania deve ser uma defesa de nosso partido durante a campanha. É o povo latino-americano quem deve decidir, sem interferência externa, quem está à altura de governar as suas nações.
Nesse sentido, favorecer relações políticas e comerciais que escapem ao controle e domínio norte-americano é progressivo, promovendo um “jogo multipolar” que fortaleça o Brasil e a América Latina diante da ofensiva imperialista dos Estados Unidos. Não é à toa que a mera existência dos Brics cause tanta irritação à Donald Trump. Mas o favorecimento de novas relações não pode se dar em bases neocoloniais, já que nossas economias precisam conseguir romper com o ciclo da reprimarização, da dependência e abrir o caminho para a diversificação tecnológica. Por isso, vemos com preocupação o conteúdo do acordo UE-Mercosul.
Por fim, a dinâmica de polarização política com a extrema direita também segue viva em outras partes do globo. A eleição da ultraconservadora Sanae Takaichi como nova Primeira Ministra do Japão anuncia o reforço de uma agenda regressiva no campo dos direitos sociais, das políticas de defesa e o endurecimento das políticas migratórias. Nesse contexto, a vitória presidencial em Portugal de António Jose Seguro, do Partido Socialista e com apoio do Bloco de Esquerda, contra André Ventura do Chega é uma boa notícia. Assim como é positivo o julgamento, em andamento, de Marine Le Pen, expressão da nova extrema direita na França que pode torná-la inelegível para a disputa de 2027. São duas contratendências importantes ao encontro macabro entre o imperialismo e a extrema direita que marca a atual conjuntura.
A luta anti imperialista voltou a ser parte da gramática política dos nossos povos e a luta em defesa da nossa soberania é estratégica na defesa do futuro. O PSOL reforça seus compromissos históricos de solidariedade ativa entre povos oprimidos e ameaçados pela nova ofensiva do imperialismo com a certeza de que a luta contra a extrema direita e o neofascismo é a luta da nossa geração e com a convicção de que nós podemos ser vitoriosos. Somos da terra de Dandara, Zumbi e Simon Bolívar e não dobramos o joelho para fascista.
Executiva Nacional do PSOL
11 de fevereiro de 2026

