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Bem-vindos à “Palestina”

Jornalista e escritor britânico nascido em 1946. Atualmente é correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent. Foi diversas vezes premiado como Repórter do Ano e Jornalista Internacional do Ano. Acaba de lançar o livro “A grande guerra pela civilização: A conquista do Oriente Médio”, já publicado no Brasil. Vive em Beirute, Líbano, há 25 anos.

Que chatos são esses muçulmanos do Oriente Médio! Em primeiro lugar, pedimos aos palestinos que abracem a democracia e – o que fazem eles? – escolhem o partido errado: o Hamas. Aí, o Hamas pega e ganha uma mini-guerra civil e passa a dominar a Faixa de Gaza.

E nós, ocidentais, ainda queremos negociar com o desacreditado presidente, Mahmud Abbas! Hoje, a “Palestina” – e permitam-me que mantenha essas aspas no seu lugar – tem dois primeiros-ministros. Bem-vindos ao Oriente Médio. Com quem negociaremos? A quem devemos nos dirigir para falar? É claro que deveríamos ter falado há meses com o Hamas. Mas não gostávamos do governo eleito democraticamente pelo povo palestino. Supunha-se que iriam votar no Fatah e em seus dirigentes corruptos. Mas votaram no Hamas, que se recusa a reconhecer Israel e a acatar o totalmente desacreditado Acordo de Oslo.

Ninguém perguntou – do nosso lado – qual Israel supunha-se que o Hamas deveria reconhecer. Israel de 1948? Israel das fronteiras posteriores a 1967? Israel que constrói – e segue construindo – imensos assentamentos para judeus, e apenas para judeus, em terra árabe, engolindo mais de 22% da “Palestina”, e sobre isso ainda é preciso negociar?

E por isso, hoje, supõe-se que temos que falar com nosso fiel policial, o Sr. Abbas, o “moderado” (como é chamado na BBC, CNN e Fox News) dirigente palestino. Homem que escreveu um livro de 600 páginas sobre Oslo sem mencionar uma só vez a palavra “ocupação”, referindo-se sempre à “reorganização israelense” como “retirada”, um “dirigente” no qual podemos confiar porque manteve os laços e vai à Casa Branca e diz sempre tudo o que nos parece conveniente. Os palestinos não votaram no Hamas porque queriam uma república islâmica – que é como será apresentada a sangrenta vitória do Hamas – mas sim porque estavam cansados da corrupção do Fatah do Sr. Abbas e da natureza putrefata da “Autoridade Palestina”.

Lembro que, há anos, me chamaram à casa de um funcionário da Autoridade Palestina, cujas paredes acabavam de ser perfuradas pelo projétil de um tanque israelense. As coisas eram assim! Mas o que me deixou atônito foram as torneiras folhadas a ouro de seu banheiro. Essas torneiras – ou qualquer de suas múltiplas variantes – custaram as eleições para o Fatah. Os palestinos queriam que a corrupção – o câncer do mundo árabe – acabasse, e por isso votaram no Hamas. Em seguida, nós, os sempre tão sábios e bons ocidentais, decidimos puni-los e matá-los de fome, intimidando-os por exercer seu voto livre. Quem sabe, poderíamos oferecer à “Palestina” que fosse membro da União Européia, caso tivessem sido suficientemente amáveis para votar nas pessoas certas?

No Oriente Médio, por todo lado é a mesma coisa. Apoiamos Hamid Karzai no Afeganistão, apesar de manter em seu governo senhores da guerra e barões da droga (e, a propósito, lamentamos muito todas essas mortes de civis afegãos inocentes, vítimas de nossa “guerra contra o terror” nos planaltos da província de Helmand).

Amamos Hosni Mubarak, do Egito, cujos torturadores ainda não acabaram com os políticos pertencentes aos Irmãos Muçulmanos que foram recentemente presos fora do Cairo, cuja presidência recebeu o cálido apoio da Sra. – sim, da senhora – George W. Bush, e cuja sucessão quase certamente passará para seu filho, Gamal.

Adoramos Muammar Kaddafi, o ensandecido ditador da Líbia, cujos homens-lobo assassinaram seus oponentes no exterior e foi responsável pelo complô para assassinar o rei Abdullah, da Arábia Saudita, que precedeu a recente visita de Tony Blair a Trípoli. Ele devia se lembrar que o coronel Kaddafi foi chamado de “homem de Estado” por Jack Straw por haver abandonado suas inexistentes ambições nucleares. Sua “democracia” é perfeitamente aceitável para nós, porque está do nosso lado na “guerra contra o terror”.

Sim, e também amamos a inconstitucional monarquia do rei Abdullah da Jordânia e de todos os príncipes e emires do Golfo. Especialmente aqueles a quem nossas empresas de armamento pagam subornos tão escandalosos que até a Scotland Yard é obrigada a encerrar suas investigações por ordem de nosso primeiro ministro – e sim, posso compreender, de fato, porque ele não gosta da cobertura que “The Independent” faz sobre aquilo que ele chama “o Oriente Médio”. Se os árabes – e os iranianos – apoiassem somente os nossos reis, xás e príncipes cujos filhos e filhas fossem educados em Oxford e Harvard, que fácil seria para nós controlar o “Oriente Médio”!

A questão se resume a isso: controle. E o que existe, e é a razão pela qual temos que oferecer – e retirar -, os favores aos nossos líderes. Gaza agora pertence ao Hamas. O que farão nossos dirigentes eleitos? Nossos pontífices da União Européia, das Nações Unidas, de Washington e Moscou terão que dialogar com essa gente horrível e mal-agradecida (não tenham medo, eles não vão apertar suas mãos) ou terão que reconhecer a versão cisjordaniana da Palestina (nas boas mãos de Abbas) enquanto ignoram o eleito e militarmente vitorioso Hamas em Gaza?

É bem fácil lançar uma maldição sobre ambos. Mas isso acontece em todo o Oriente Médio. Se pelo menos Bashar al-Asad não fosse presidente da Síria (só os céus sabem qual seria a alternativa) ou se o amalucado presidente Mahmud Ahmedineyad não controlasse o Irã (mesmo que hoje ele não saiba onde começa e onde termina um míssil nuclear). Se o Líbano fosse somente uma democracia de nossa própria colheita, tal como nossos pequenos países de pátio traseiro gramado, por exemplo, Bélgica e Luxemburgo. Mas não, esses chatos meio-orientais votam sempre nas pessoas erradas, apóiam as pessoas erradas, amam as pessoas erradas, não se comportam como nós, os civilizados ocidentais.

Já que é assim, o que podemos fazer? Apoiar novamente a ocupação de Gaza, quem sabe? Em todo caso, o que faremos será criticar Israel. E continuaremos guardando nosso carinho para os reis e princesas e para os pouco atraentes presidentes do Oriente Médio, até que toda a zona venha a explodir na nossa cara e, então, diremos o mesmo que já estamos dizendo sobre os iraquianos: que não merecem nosso sacrifício e nosso amor.

Como vamos tratar um golpe de estado de um governo eleito?

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