México – RNW – Nunca antes na história moderna do México a violência e morte desencadeadas pelas lutas internas do crime organizado haviam marcado um processo eleitoral.
Os narcotraficantes sempre tinham sido muito discretos nas eleições. Operavam à sombra e apoiavam com dinheiro a tal ou qual candidato de maneira imperceptível. Mas as coisas mudaram. Nas últimas eleições nos estados de Michoacán e Hidalgo o crime organizado participou de uma maneira aberta, descarada e violenta.
Por exemplo, em Michoacán, em novembro de 2011, Horacio Morales, El Perro, operador do Cartel da Família Michoacana, chamou por telefone a suas células dando ordem de assassinar um familiar de todo aquele que votasse pelo Partido da Revolução Democrática (PRD), porque, supostamente, seu candidato, Silvano Aureoles, tinha a simpatia de Los Caballeros Templarios, a organização inimiga.
“Vão me dar uma lista muito confiável de quem votou para o PDR”, disse El Perro numa gravação, e explicou que a fita seria a prova para “seu patrão” de que o bandido cumpriu com sua missão.
No verão de 2010, Xóchitl Gálvez foi candidata ao governo de Hidalgo pelo Partido da Ação Nacional. O crime organizado fez contato com ela para oferecer 50 milhões de pesos em troca de pactos com “certos líderes”. Gálvez se negou, e então vieram as ameaças de morte e ela perdeu a eleição.
Dada a largada para as campanhas
No dia 30 de março foram iniciadas as campanhas eleitorais no México. Há quatro candidatos à presidência: Enrique Peña Nieto, pelo Partido da Revolução Institucional (PRI), em aliança com o partido Verde Ecologista; André Manuel López Obrador, numa coalizão de esquerdas formada pelo Partido do Trabalho, Partido da Revolução Democrática e Movimento de Reconstrução Nacional.
A direita tem Josefina Vázquez Mota pelo Partido Ação Nacional, e Gabriel Quadri é o candidato do Partido Nova Aliança, que nasceu após uma ruptura interna do PRI.
No dia 1 de julho de 2012 os mexicanos irão às urnas para eleger o presidente da república, uma dezena de governadores, 500 deputados, 120 senadores, prefeitos municipais e, na Cidade do México, o chefe de governo e chefes delegacionais.
Transição para a democracia
Durante as décadas em que o PRI esteve no poder, era o governo que organizava as eleições, impunha as regras e contava os votos. Em outras palavras, era jogador e juiz. As eleições eram um ritual e o presidente que saía do cargo elegia seu sucessor. Este estilo de presidencialismo acabou no ano 2000 e agora há uma forte concorrência.
No final do século 20, criou-se no México o Instituto Federal Eleitoral (IFE), um órgão independente e cidadão que realiza as eleições. O IFE não tem funcionado como deveria, mas ainda assim, já é um avanço na transição para a democracia.
A Radio Nederland entrevistou o dr. Bernardo Barranco, conselheiro eleitoral do IFE no estado do México, uma das províncias mais ricas e populosas do país, cujo território é campo de batalha de cinco organizações criminosas: os Zetas, os Pelones, a Família Michoacana, o Cartel do Pacífico Sul e os Beltrán Leyva.
– Que sentido pode ter para o crime organizado interferir nas eleições, uma vez que que seu poder econômico e poder de fogo, e o controle de grandes regiões do México, são tão grandes que é um governo paralelo?
“O poder do crime organizado tem que ser absoluto e se expande nas áreas financeiras, empresariais, nas legislativas e aspira a incidir nos processos eleitorais para favorecer os candidatos que lhes interessam. Apoiam os candidatos e partidos que sejam condescendentes com suas ações nas áreas onde elas se desenvolvem.”
– Como evitar que o narcotráfico, que o crime organizado, infiltre as campanhas?
“O IFE tem alguns instrumentos que podem detectar a presença do narcotráfico nas campanhas através da origem e destino das verbas. O IFE está fiscalizando e monitorando os gastos de campanha.”
Dr. Barranco disse à RNW que o IFE tem amplos poderes para revisar as contas dos partidos, inclusive rompendo o sigilo bancário. Os partidos estão obrigados a apresentar suas contas.
Através de monitoração, fazem-se projeções que são comparadas com as contas que os partidos e candidatos apresentam para os órgãos de fiscalização, controlando assim como, quanto e onde foram gastos os recursos.
As contribuições do narcotráfico são tão grandes que não podem ser facilmente ocultadas. Os partidos e candidatos estão obrigados a dar ao IFE comprovantes, comentou nosso entrevistado, acrescentando com severidade: “Nunca antes o México havia enfrentado um processo eleitoral tão contaminado pela presença do narcotráfico. Nunca antes um processo eleitoral havia se organizado sob a ameaça do narcotráfico.”
Vigilância
A polícia e o exército farão trabalhos de vigilância. Há regiões do país que estão dominadas pelo narcotráfico. O IFE elaborou um mapa de zonas de risco onde estão indicadas as regiões em poder do crime organizado e as forças de ordem terão que intervir para que as eleições se realizem em paz.
Um exemplo de região que estará sob atenção redobrada é o sul do estado do México, nas fronteiras com Michoacán, Guerrero e Morelos. Esta zona é terra de ninguém. Ali há postos de controle do crime organizado. As cifras oficiais são assustadoras.
A Procuradoria Geral da República (PGR) informou que mais de 1200 municípios mexicanos – dos 1440 que o país tem – são afetados pela guerra contra e entre cartéis da droga.
As perguntas dos cidadãos são:
Os policiais e soldados conseguirão vigiar as eleições?
E se os cartéis os comprarem com seu grande poder corruptor?
O advogado e economista do Instituto Tecnológico Autônomo do México, dr. Edgardo Buscaglia, afirmou categoricamente numa conferência de procuradores de justiça, em março passado:
“A estratégia do presidente Felipe Calderón contra o narcotráfico não funcionou porque continuam intactas as redes financeira, empresarial e política que o mantêm, e estas já chegaram às campanhas políticas.”
*Fonte: Diário Liberdade

