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Cid Benjamin | Violência leva à direita

Artigo publicado originalmente no jornal O Globo

O mestre de obras Antônio chegou à minha casa revoltado. Na véspera, tinha perdido o dia de trabalho porque a Avenida Brasil ficara fechada por um conflito de quadrilhas na Cidade Alta. “Se quer vender droga, vende, mas não atrapalha os outros. Tem que pegar esses caras e fuzilar”, disse ele. E Antônio é um homem bom.

Dias depois, um taxista me expressou opinião parecida: “Viu que assaltaram gente de madrugada numa fila para emprego e ainda levaram as carteiras de trabalho? Tem que matar esses bandidos. O Bolsonaro é um bobalhão, mas vou acabar votando nele.”

Os dois relatos mostram como a violência está empurrando as pessoas para a direita. E carreando apoio para esse cidadão que, há poucos dias, em Miami, bateu continência para a bandeira americana e puxou o coro “USA, USA”, com um bando de seguidores que têm vergonha de ser brasileiros.

“Soluções” como diminuição da idade penal e aumento das penas são ilusórias. Só vão encher mais as prisões. Como ninguém propõe pena de morte ou prisão perpétua para a maioria dos presos, um dia eles serão soltos. E sairão ainda piores, pois nossas cadeias não recuperam ninguém.

Duas medidas, porém, ainda que paliativas, melhorariam as coisas.

A primeira seria o fim da “guerra às drogas”. Ela causa mais problemas do que o mal que quer combater. Por isso, é um péssimo remédio. Não impede o tráfico e vitima a população das favelas e policiais. Não à toa, a polícia do Rio é a que mais mata e a que mais morre no mundo.

Outra medida seria a regulamentação das drogas, ainda que seja possível discutir restrições a algumas, como o crack. Mas a medida poria fim ao controle de territórios por grupos que atuam no varejo, enquanto os barões da droga, impunes com seus “helicópteros”, ficam com a parte do leão.

Mas é bom não se iludir. A raiz da violência está na exclusão social. É preciso oferecer opções aos jovens hoje no crime. Uma anistia e projetos que os insiram no mercado de trabalho são essenciais.

Mas, como, se não há emprego sequer para quem tem ficha limpa e alguma qualificação?

O centro da questão está, por isso mesmo, na política. O governo golpista está fazendo um ataque aos direitos sociais ainda maior do que o levado a cabo na ditadura militar. É tão profundo e generalizado que tem razão quem denuncia um retrocesso no próprio processo civilizatório.

Queiram ou não os que se encantam com a (correta) defesa das pautas identitárias, os defensores da (necessária) regulamentação das drogas, os adeptos da (urgente) desmilitarização da PM, é preciso fazer reformas estruturais que democratizem a sociedade, eliminem a exclusão social, diminuam a desigualdade, distribuam renda, criem empregos e impeçam o desmanche da CLT e da Previdência.

Sem isso, a violência não vai diminuir significativamente. Estarem os enxugando gelo. Os jovens que deixarem o tráfico acabarão indo assaltar no asfalto.

O cerne do problema está na política, na velha luta de classes. Aí deve se concentrar o esforço dos democratas.

 

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