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Congresso do Partido de Esquerda Francês: a participação do PSOL

No final de semana dos dias 4 e 5 de julho, participamos – Pedro Fuentes e Gilberto Maringoni – do Congresso do Partido de Esquerda (Parti de Gauche), em Paris, representando o PSOL.
Éramos os únicos brasileiros presentes num evento que conta com delegações da esquerda de quase 90 países.Fundado em 2008, o partido nucleou a Front de Gauche (articulação de dez legendas, entre elas o PCF e o Ensamble), nas eleições presidenciais, em 2012. Seu candidato e principal figura pública, Jean-Luc Mélenchon, atingiu 11,1% dos votos, feito notável em um continente tomado pelas políticas de austeridade. No caso particular da  França existe o preocupante avanço da direita – e da extrema direita – e a escassa resistência social para se contrapor à essa ofensiva.Cerca de 500 delegados de toda a França participaram do Congresso. Não houve divergências estratégicas significativas.ORIENTAÇÃO POLÍTICA – Uma síntese da orientação política foi exposta na manhã do sábado pelo dirigente Eric Croquerel anterior aos debates das diferentes propostas e pontos em debate. De sua intervenção, destacamos o seguinte:A.      Apoio total ao Syriza, como pólo de luta contra as políticas de austeridade sustentadas pela França e Alemanha. As nuances entre Angela Merkel e François Hollande não alteram a política da troika;B.      Uma tendência mundial em direção a um neototalitarismo. Neste contexto a questão da democracia de classe tem um conteúdo indivisível;C.      Uma crítica muito forte ao imperialismo americano, responsável por novas guerras permanentes (Não cita o imperialismo francês).
D.     Nas questões internas à França, a ênfase maior foi para a luta por uma assembleia constituinte que lance as bases para a VI República.
E.      A defesa programática do ecossocialismo.
Algumas das polemicas e votações
No sábado, foram colocados em votação os diferentes debates previamente sistematizados nas etapas regionais do Congresso. As mais destacadas foram:
A.      O comportamento partidário num eventual segundo turno nas próximas eleições presidenciais. O ponto é se o partido apoiaria ou não o Partido Socialista (PS), diante do avanço de forças xenófobas, como a Frente Nacional. As duas propostas atacavam duramente as políticas de Hollande e mantinham a independência política do PG frente à socialdemocracia. A definição não foi tomada, d
iante de um argumento imbatível: quem disse que o Parti de Gauche não estará no segundo turno, em 2017?
B.      Outra questão muito debatida foi a relação entre o Partido de Esquerda e a Frente de Esquerda. O PCF foi alvo de críticas indiretas por, após as eleições, ter aceitado compor governos com o PS. Um dos dirigentes nos falou que no fundo esse foi o principal debate de todo o congresso.
SOLIDARIEDADE – Um dos pontos essenciais do encontro foi a calorosa solidariedade ao Syriza, no decisivo dia do referendo grego. O NÃO contundente dos gregos foi uma feliz coincidência.
O Congresso fortaleceu muito a afirmação e a localização política do partido, além de mostrar um partido em ascensão, com forte entusiasmo militante para enfrentar a conjuntura francesa. Ficou patente a identificação entre o Partido de Esquerda, o Syriza e o Podemos.
Há uma novo foco de dissidência na esquerda do Partido Socialista. Um deputado de origem vietnamita, Liem Hoang Ngoc, saiu do Partido Socialista em direção ao PG. Chamou a atenção o fato de que, apesar de presente, a palavra não foi cedida à representação do PCF;
Uma constatação importante é que os militantes do PG fazem valer a combinação de luta classista com luta democrática, formulação bastante avançada no quadro europeu. Além de tudo, buscam um enraizamento social forte e a participação paritária de mulheres nas instâncias de direção.
EURO E CRISE GREGA – O partido adotou uma posição bastante sensata diante da crise grega e dos principais dilemas desses dias, a saída ou não do Euro. Correntes, como é o caso do Partido Comunista Grego – parecem apostar numa solução mágica para as crises econômicas de vários países. Têm a resposta na ponta da língua: basta sair do Euro.
O Parti de Gauche deu solução hábil à discussão.
No ponto sobre a União Europeia, os delegados aprovaram, por ampla maioria, proposição afirmando que “a conformação atual da UE nos impede de aplicar plenamente nosso programa. Mesmo assim, não existe motivação clara para a exclusão de qualquer Estado da União Europeia”. E afirma ser necessário rever tratados. “Caso não aconteça, agiremos para fazer isso soberanamente de acordo com a vontade popular”.
E adiante, afirma: “Se a obstinação neoliberal ignorar a vontade dos povos (…) a França se valerá de todas as iniciativas por reconstruir outra via de unidade e a solidariedade dos povos da Europa”.
Radical e flexível, na boa tradição.
DISCURSO FINAL
O discurso de encerramento de Jean-Luc Melanchon correspondeu a um enunciado bem acabado dos ideários partidários
Por quase uma hora, este senador de 62 anos mostrou ser uma liderança política de primeira grandeza. Não é à toa que foi o único dos candidatos presidenciais em 2012 a fazer comícios que empolgavam multidões.
Melanchon gesticula como um siciliano,ergue a voz, conta piadas e muda a tonalidade quando visa focar determinado raciocínio.
O senador usa um terço de sua fala para ressaltar a importância da luta dos gregos. “A vitória no plebiscito não é apenas a vitória do povo grego, o que já é muito. É a vitória sobre a austeridade, sobre os planos de ajuste e sobre a rapinagem do sistema financeiro”, fulmina. “É a vitória dos povos da Europa e do mundo”.
Quer que o governo de François Hollande deixe a “posição vergonhosa de fazer coro com a senhora Merkel, que oprime um país-irmão, como a Grécia”. E alerta: “Se não ganharmos não é por capitulação dos gregos, mas pela campanha sórdida da Troika amedrontando a população”.
Melanchon também fala da política interna e de um embate sério entre a esquerda e a esquerda que deixa de ser esquerda. “Este é o congresso de rompimento com a social-democracia. Não podemos mais nos iludir com esses tartufos da política, que dizem uma coisa e fazem outra”. Mirou no Partido Socialista Francês, mas poderia falar do estelionato eleitoral brasileiro.
Quer que a França saia da OTAN e afirma que a política de cada país é cada vez mais pautada pela geopolítica. E sublinha: “A geopolítica dos Estados Unidos é hoje o principal fator de desestabilização da democracia no mundo”. Melanchon detalha cada invasão e guerra provocada pela Casa Branca nos últimos anos. Ataca os interesses imperialistas e fala em conceder cidadania francesa a Edward Snowden e julien Assange.
E cita Marx: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”. Emenda dizendo que as circunstâncias atuais exigem uma luta concentrada contra os mercados que tudo impõem.
Fala do serviço publico francês, paulatinamente vítima de políticas neoliberais. Menciona Gramsci. Recomenda um filme francês, ganhador do último Festival de Cannes, chamado “Lei do mercado”.
A essa altura os delegados e o público presente aplaudem e ovacionam Melanchon. É o virtual candidato da esquerda nas eleições presidenciais de 2017.

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