Para César Benjamin, Lula manipula dados estatísticos e põe instituições do Estado a serviço de sua candidatura.
César Benjamin, o candidato a vice-presidente da República na chapa
da senadora Heloísa Helena, do PSOL, ainda não entrou na campanha
eleitoral. No momento conclui alguns trabalhos para editora que dirige
no Rio, a Contraponto, e reúne munição para os debates que deverá
enfrentar nos próximos meses. "Queremos discutir um projeto para o
Brasil", anuncia. "Se a campanha ficar entre o PT e o PSDB, vai se
resumir a definir quem foi o mais medíocre no governo ou quem roubou
mais."
Já se sabe que Benjamin será um dos mais afiados críticos do governo
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT – partido que ajudou a
dirigir durante 15 anos, da fundação até 1995, quando saiu por
discordar dos métodos que vinham sendo adotados por Delúbio Soares e
desaguariam no escândalo do mensalão. Na entrevista abaixo, ele adianta
o que deve dar o tom da campanha do PSOL.
Há setores da esquerda que esperam que a candidatura do PSOL empurre
Lula para a esquerda, se houver segundo turno. Acha isso possível?
CB – Essa não é nossa preocupação. A Heloísa Helena não deve ser tratada
como uma candidata menor. Apesar de sua candidatura ser recente e o
partido pequeno, ela já tem 7% das intenções de voto, com tendência de
crescimento. No conjunto de eleitores, isso significa 9 milhões de
votos, o que é uma massa considerável. Se excluirmos São Paulo, onde
ela tem 4% dos votos, a média nacional sobe para 9 pontos. No Rio ela
já apareceu em segundo lugar nas pesquisas, à frente de Geraldo
Alckmin, do PSDB.
Qual deve ser o tom da campanha do PSOL?
CB – No que depender de mim, será uma campanha propositiva, com debates
sobre um projeto para o Brasil. Se a campanha ficar entre o PT e o
PSDB, vai se resumir a definir quem foi o mais medíocre no governo ou
quem roubou mais.
Se o atual governo foi medíocre, como explica a liderança de Lula nas
pesquisas sobre intenção de voto, depois de todas as denúncias sobre
corrupção?
CB – Lembre-se de que há muitos meses o governo federal tem uma
propaganda a cada 20 minutos nos meios de comunicação de massa no País.
Por outro lado, a imprensa ainda é muito condescendente com o atual
governo. Vou dar alguns exemplos. Ele esteve no Rio para inaugurar um
pólo da Petrobrás cujo terreno ainda nem foi comprado e que só deve
entrar em operação em 2012. Isso não é inauguração, mas a imprensa
trata como se fosse. O mesmo aconteceu com a Transnordestina, que
também não existe, mas foi inaugurada. Na ocasião, para que o
presidente aparecesse ao lado de uma locomotiva, tiveram de buscar uma,
de carreta, a quase 300 quilômetros de distância. Deve ter sido a foto
mais cara da história, paga com dinheiro público, não do PT. Lula é um
presidente que durante todo o tempo substitui os valores republicanos
pela esperteza. Ele se apequenou de tal maneira que manipula dados
estatísticos a seu favor, colocando instituições do Estado a serviço de
uma candidatura.
Pode dar exemplos?
CB – Os jornais publicaram, a partir de um levantamento do IBGE realizado
em maio, que o rendimento do trabalho subiu 7% no ano. O que não se
esclareceu é que em maio entrou em vigor o aumento do salário mínimo,
provocando uma elevação no conjunto dos salários. Não foi só agora.
Isso acontece todo ano. A imprensa também divulgou que a concentração
de renda no Brasil diminuiu. São números obtidos a partir de
informações da PNAD. Mas é falso.
Por quê?
CB – A PNAD é uma pesquisa de amostra por domicílio e só capta a
distribuição da renda do trabalho. Ela não registra a diferença entre a
renda do trabalho e a renda do capital. Há cerca de 25 anos, a renda do
trabalho no Brasil correspondia a 56% da renda nacional. Hoje
representa muito menos, em torno de 35%. O que está acontecendo, como
se vê, é que a renda do trabalho participa cada vez menos do todo da
renda nacional. O que a PNAD mostra é apenas como essa renda se
distribui.
Segundo a pesquisa, os mais ricos teriam perdido renda.
CB – Estão falando do decil mais rico que eles pesquisam, os ricos da
PNAD, que são professores, enfermeiros, burocratas, com salários de R$
3.100. No caso de um país que cresce 2,6% ao ano, tem juros na casa de
16% e onde o desemprego chega a 17% da população em idade de trabalhar,
não dá para acreditar que esteja ocorrendo redistribuição de renda. A
única coisa evidente nisso é o alto nível de manipulação dos números.
Entrevistador: Roldão Arruda
Fonte: O Estado de São Paulo, 29 de junho de 2006

