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Guatemala, as eleições mais atípicas

*Por Edgar Rosales, Tradução de Diário Liberdade

A 60 dias, o mais certo é que não há nada certo.

Dentro de dois meses, no domingo 11 de setembro, os guatemaltecos irão às urnas eleitorais, no fechamento de um processo que se identifica, por muito, como um dos mais atípicos e incertos que se viveram desde 1985, quando se instaurou o atual sistema democrático. E eis que, quando faltam apenas 60 dias para o evento, “o mais certo é que aqui não há nada certo”, é o comentário mais geral. A terça 11 de julho é a data final para apresentar candidaturas, segundo o calendário do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE).

Na data, há somente 4 candidaturas legalmente inscritas, de 10 que se apresentaram publicamente. As opções abarcam desde a esquerda tradicional até uma moderna versão da ultradireita. Os aspirantes são a Prêmio Nobel, Rigoberta Menchú (esquerda); Sandra Torres (aliança de centro-esquerda), Harold Caballeros (aliança de centro direita), Eduardo Suger (direita econômica agressiva), Patrícia de Arzú (direita light, esposa do ex Presidente Álvaro Arzú), Manuel Baldizón (populista indecifrável), Alejandro Giammattei (direita obstinada; recém absolvido de acusações pelo assassinato de deputados salvadorenhos no Parlacen, ocorrido em 2007), Juan Gutiérrez, direita, ligado a uma das famílias oligárquicas mais fortes do país e na extrema direita do prisma, o general Otto Pérez Molina, cujo Partido Patriota é membro pleno da Internacional Liberal, de triste lembrança por seus vínculos com o anticomunismo guatemalteco.

Um elemento determinante neste pleito é a candidatura de Sandra Torres, ex esposa do presidente Álvaro Colom, postulada por uma coalizão de centro esquerda integrada pela oficialista Unidade Nacional da Esperança (UNE) e a Grande Aliança Nacional (Gana). Da aprovação ou não de sua candidatura depende muito o desenvolvimento do resto da campanha. Ainda que já tenha sido rechaçada pela autoridade eleitoral com o argumento de que incorreu em “Fraude de Lei” ao se divorciar para que não lhe fosse aplicada a proibição constitucional imposta ao conjugue do mandatário de turno. A decisão do TSE foi objeto de recursos de auxílio, um dos quais poderia ser resolvido em definitivo na tarde de segunda, mas que, ao prolongar-se, agregar-lhe-ia elementos de incerteza ao ambiente.

À margem destes debates, no ar há outras interrogantes. Por exemplo, parece que a oligarquia guatemalteca tradicional não fechou desta vez fileiras de maneira ferrenha em torno a um candidato, ainda que muitos de seus representantes estejam com Pérez Molina. Um de seus financiadores é Dionisio Gutiérrez, coproprietário do empório Pollo Campero, que tem a fama de haver exercido influência em seu favor, graças a sua relação com vários dos governantes anteriores. Desta vez, segundo parece, a oligarquia compartilhará critérios com o narcotráfico infiltrado nesta ou em outra candidatura eleitoral.

A incerteza foi também estimulada pela proliferação de sondagens publicadas em jornais escritos guatemaltecos a serviço de setores oligárquicos. Ainda que os números apresentem diferenças difíceis de explicar (mais de 20 pontos entre uma e outra) a manipulação midiática sim coincide em algo: o ponteiro é Pérez Molina, inclusive, chegou-se a prognosticar que ganharia no primeiro turno.

Ademais, as medições lhe outorgam uma suspeita e escassa aprovação à liderança indígena e Prêmio Nobel da Paz, Rigoberta Menchú. Isto é facilitado por uma metodologia de recopilação de dados que lhe outorga maior peso amostral aos centros urbanos (onde é mais acentuado o racismo), em detrimento das áreas rurais.

A presença de atos de violência vinculados à atividade eleitoral lhe outorga sua própria dose de inquietação ao panorama. Há menos de uma semana, um dos aspirantes a prefeito do município de San José Pinula (localizado a uns 22 quilômetros da capital guatemalteca) foi apreendido sob a acusação de haver perpetrado o assassinato de dois candidatos rivais.

As denúncias acerca do incremento de ações do crime organizado, concretamente, do narcotráfico, abonam o clima. A participação de máfias no financiamento de campanhas é uma denúncia mais forte do que nunca. O Partido Patriota, de Pérez Molina, foi apontado em fóruns públicos diretamente por esta causa, mas se bem não lhe tenha sido comprovado, tampouco se alcançou desmenti-lo verdadeiramente.

Com este panorama e a 60 dias das eleições, é um verdadeiro risco antecipar o que pode acontecer. Alguns fazem apostas até uma recomposição das forças participantes, em caso de que se confirme o rechaço da inscrição de Sandra Torres. Neste caso, antecipa-se, poderiam resultar favorecidas algumas candidaturas como a do ultradireitista Eduardo Suger ou a do populista Manuel Baldizón. Igualmente, a Prêmio Nobel Rigoberta Menchú poderia capitalizar uma fração importante de setores afins, entre outros, o grupo da UNE mais identificado com a social democracia.

Mas, com especulações ou sem elas, o desejável é que os guatemaltecos possam concluir tranquilamente esta nova etapa de sua vida democrática. É demasiado o que está em jogo. Por um lado, o drama da insegurança frente a continuidade dos programas sociais iniciados pelo governo de Colom formam parte da equação. Por outro, a possibilidade de uma consolidação do crime organizado a par de um retorno às políticas neoliberais representa um enorme risco. Não por acaso, nestes dias escuta-se, não sem desalento: “Que Guatemala saia bem deste atoleiro!”

Traduzido para Diário Liberdade por Gabriela Blanco

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