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Jean Wyllys | Onde o terror acontece?

A Somália, onde pelo menos mais de 300 pessoas já foram confirmadas mortas depois de um duplo atentado de um grupo islamista com carros-bombas, assim como toda região conhecida como “chifre da África”, é um território extremamente árido, com índices alarmantes de pobreza extrema e com um tipo de Estado que tem sido frequentemente classificado por estudiosos como “falido”, devido à ausência de soberania real do governo central.

O índice de desenvolvimento humano nesta região do planeta está entre os mais baixos de todos e, para piorar, dentro de cada uma das suas realidades, ainda existem estratificações internas, ligadas principalmente à origem étnica ou religiosa, que intensificam o estado de opressão (ou privilégio) de alguns segmentos populacionais.

Neste caldo social conturbado florescem organizações que praticam a violência como método político. No ambiente de ameaças constantes à segurança pessoal e familiar, milícias que prometem proteção e acenam com práticas assistencialistas se tornam populares. É o caso da Al-Shabab (“a juventude”), grupo de vertente ultraradical do Islã (wahabita), que é o principal suspeito do atentado na Somália.

Essa milícia mistura um discurso religioso rigoroso, palatável para uma população que teve parco acesso à educação (ou que apenas teve educação religiosa), com uma espécie de burocratização dos papeis que originalmente deveriam caber ao Estado. Assim ganhou força em bolsões de miséria para, primeiro, contestar politicamente o governo e, depois, em uma etapa radicalizada, impetrar ações de força contra aqueles que considera seus inimigos, inclusive civis de outras religiões, origens etc.

Por tantos motivos vinculados ao contexto social é que fica impossível pensar qualquer solução definitiva para o terrorismo internacional que não identifique e combata suas causas. As respostas militares e as políticas de segurança, embora necessárias em muitos casos, são insuficientes e muito ineficazes, e de fato não têm conseguido diminuir o número de atentados ou melhorar a segurança da população.

Entre outras medidas, é indispensável uma reorganização da distribuição econômica e da relação de exploração que principalmente os países ricos operam sobre os mais pobres, porque a miséria e a desigualdade, combinadas com a falta de acesso a uma educação de qualidade, criam as melhores condições para o fortalecimento dos discursos de ódio, do fundamentalismo religioso e do terrorismo. Por isso mesmo, é claro que nada mudará sem um investimento muito forte na educação pública de qualidade, garantindo o acesso de toda a população, assim como a ampliação das políticas de cultura, artes e ciências. E, evidentemente, é imprescindível a garantia da laicidade do Estado, a democratização plena do sistema político e social e o combate contra qualquer tipo de fundamentalismo religioso.

Identificar o terrorismo desde o nascedouro, isto é, desde os flagelos que o tornam possível, é necessário se nós quisermos enfrentar o problema de forma a resolvê-lo, e não meramente transferi-lo de hora ou local.

Como membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, o que eu sempre reivindiquei para o Brasil, em matéria de terrorismo internacional, foi o investimento em inteligência e fortalecimento da capacidade da Polícia Federal e demais órgãos públicos responsáveis, mas também um olhar crítico do ambiente onde esse tipo de prática tem vingado, como foi explicado acima.

Precisamos não apenas combater o terrorismo e o fundamentalismo religioso, como também mudar as condições que possibilitam seu fortalecimento.

Confira a nota da Executiva Nacional do PSOL sobre o ocorrido na Somália.

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