“Eu estive ontem no Complexo do Alemão. Recebi muitas ligações de moradores do Complexo do Alemão na terça-feira à noite. Há funcionários desta Casa que moram no Complexo do Alemão, diversos professores que moram no Complexo do Alemão, profissionais da área da Saúde. A maioria esmagadora dos moradores do Complexo do Alemão é de gente honesta, que trabalha, que produz cultura, não chega a 1% o número de moradores do Alemão envolvidos com o tráfico. Quem dera que fosse 1% o número de senadores envolvidos no crime! Quem dera que fosse 1% o número de Deputados envolvidos no crime, que tivéssemos o sistema de cotas. Olha, já está cheio de corruptos, você não pode se candidatar este ano. Seria ótimo, seria sensacional. Mas não. É a favela. Mas por que esse olhar criminalizador da pobreza é tão forte?
E aí, Deputado, tem um debate que devemos fazer. Eu fiquei muito preocupado. O que aconteceu na noite de terça foi gravíssimo. Sabemos que o tráfico tem interesse de retomar seus negócios no Alemão, aliás, vários deles não foram interrompidos, mas retornar o domínio armado do Alemão. É claro que se o tráfico puder tirar o Exército, vai tirar. Isso foi falado em diversos veículos de comunicação, e daí dizer que qualquer manifestação de morador contra a arbitrariedade do poder público é porque por trás do morador tem o tráfico de drogas é um absurdo. Isso é você criminalizar a voz da favela. Ninguém mais que o próprio morador da favela foi vítima do tráfico de drogas daquela favela. Quem era a vítima principal do tráfico de drogas do Alemão? O morador do Alemão.
Ou éramos nós? Não! Era quem estava lá, morando lá, no front. É fácil sair dessa situação para a presença do Estado através do Exército? Não, não é. O Exército não tem função constitucional de polícia. São meninos que têm idade para ser meus filhos. Conversei com eles, eles estão com medo. São meninos e estão com medo de estar lá. São garotos de 18 e 19 anos, completamente despreparados para aquela função.
O que eles me diziam, Wagner, era o seguinte: “Deputado, eu fui preparado para a guerra. Não fui preparado para isso e me colocaram aqui”. Ele não é polícia, não sabe fazer o papel de polícia. Nesse sentido, é óbvio que têm conflitos e que os conflitos vão aumentar, porque por um lado há a incapacidade, a inexperiência e o despreparo deles, que não têm essa função; por outro, tem o ambiente tenso do outro lado.
O governo precisa dizer qual o plano que tem para o Complexo do Alemão, que não é um detalhe, pois aquele espaço é muito importante no Rio de Janeiro, aquele símbolo. Qual o planejamento do poder público?
Vocês querem ver uma coisa? Ontem, entrei no Complexo pela Grota. No início da Grota, a prefeitura – que adora isso – botou canteiros, pintou os muros, asfaltou. Está linda a entrada. Mas você anda 700 metros e tem esgoto a céu aberto, valas, sujeira. É um abandono total. São 700 metros adiante, por que só na frente é bonitinho? Porque é onde a imprensa focaliza? Por que não entra? O esgoto brotava do chão. Eu filmei e posso lhe ceder, Deputado: o esgoto brota do chão, é vala de esgoto para tudo quanto é lado.
E o morador não identifica isso como problema? Os deveres chegaram. Têm que chegar. Mas por que não chegam os direitos? Deputada Janira Rocha, sabe quantos postos de saúde foram abertos dentro do Complexo do Alemão? Nenhum. “Ah, mas abriram uma UPA!”. Sim, mas não tem médicos, ninguém consegue ser atendido. Escutem o morador! Vão lá ouvir o que o morador tem a dizer!
É um engodo. A paz não se faz só com a polícia. A paz não se faz só com Exército. A paz é a construção de uma cultura de direitos. E não há planejamento para isso. Conversei com muitos moradores – crianças, adolescentes, adultos, donos de comércio – e todos falaram: “Nós não queremos a volta do tráfico”. Todos disseram isso e também: “Queremos ser tratados com respeito, com dignidade”.
Eles têm direito a isso. Vários deles pediram a UPP – e não vou nem entrar no debate sobre o significado da UPP. Eu ouvi de um morador: “Por que Copacabana tem quatro UPPs e o Complexo do Alemão, que todo diz que é importante, não tem nenhuma? Por que aqui a segurança é feita com tanques do Exército, sem preparo para isso?”
Então, qual é o planejamento? Estenderam até o meio do ano que vem a presença do Exército. Mas qual é o planejamento da consolidação de um processo de paz no Alemão? Que investimentos serão feitos ali?
Isso tem que ser respondido. É grave. A população tem que ter um canal e ser ouvida. Muitas vezes, não é a associação de moradores – aliás, a prefeitura já está cooptando diversos presidentes para serem candidatos a vereador, no lugar de estar democratizando o acesso do poder público, para fazer com que chegassem ali os direitos para o conjunto da comunidade.
Então, esse questionamento tem que ser feito. Não é justa a criminalização dos espaços e dos territórios mais pobres do Rio de Janeiro. Não é justa a criminalização da reivindicação do direito. Não é verdade que qualquer conflito ou queixa do morador, seja porque quer a volta do tráfico ou porque fale em nome do tráfico. O que acontece no Complexo do Alemão não é justo.
Como diz o nosso amigo e querido Marcelo Yuka, “paz sem voz, não é paz; é medo”. Com o medo os moradores do Alemão conviveram por muitos anos. O que eles querem agora é dignidade. E isso tem que ser garantido pelo poder público. Obrigado”.
*Marcelo Freixo em pronunciamento na Alerj nesta quinta-feira (8/9/11)
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