Enquanto o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, pede ao STF a abertura de um novo inquérito para investigar se Cunha usou contas secretas na Suíça para receber propina e lavar dinheiro desviado de contratos entre a Petrobras e empresas privadas, o presidente da Câmara, encurralado, ameaça o líder da bancada do PSOL, Chico Alencar, divulgando boatos sobre supostas irregularidades em sua prestação de contas (prestação que foi aprovada pela Justiça Eleitoral!) através da coluna do ex-blogueiro da Veja e novo colunista estrela do jornal O Globo, Lauro Jardim, especialista em dizer mentiras sobre o PSOL.
Sim, isso mesmo: Cunha pretende colocar em dúvida a honestidade do Chico, uma das pessoas mais íntegras e honradas que eu conheço. E faz isso por meio de uma coluna de 83 palavras que apenas faz insinuações, sem dizer nada concreto.
Pois bem, vamos comparar as prestações de contas de Eduardo Cunha com as do Chico?
Chico arrecadou, para financiar sua campanha de 2014, R$ 180.746,65, todos provenientes de doações de pessoas físicas, isto é, militantes, ativistas sociais e eleitores que colaboraram com sua campanha, a maioria deles com pequenas quantias. Cunha arrecadou R$ 6.832.479,98 e, de acordo com sua própria prestação de contas, não teve nenhuma doação de cidadãos comuns: todo o dinheiro veio de empresas privadas e do comitê financeiro do seu partido, o PMDB, que também recebeu doações de empresas privadas.
As maiores doações para a campanha de Chico Alencar foram dele mesmo, que contribuiu com R$ 31.175 do seu próprio bolso, em três depósitos, e de um companheiro que doou 20 mil reais. Apenas oito pessoas doaram mais de 10 mil reais, e apenas 25 doaram mais de mil, de um total de 101 doadores. Teve, contudo, muitas pessoas que doaram 15, 25, 50 u 100 reais. Em contraste com isso, as maiores doações para a campanha de Eduardo Cunha foram das empresas CRBS (distribuidora de bebidas) e Rima Industrial, que doaram 1 milhão cada uma; de Telemont Engenharia Telecomunicações S.A., que doou 900 mil; de Líder Táxi Aéreo S.A. – Air Brasil, que doou 700 mil; das empresas Mineração Corumbaense Reunidas S.A., shoppings Iguatemi e o banco BTG Pactual, que doaram 500 mil cada uma, assim como o banco Bradesco, que doou 500 mil através de empresas do grupo, e do Santander, que doou 250 mil.
A diferença entre nós e eles é que as nossas campanhas são financiadas por militantes, amigos, ativistas sociais e centenas de cidadãos e cidadãs que fazem pequenas doações, enquanto as deles são bancadas por grandes empresas que investem milhões. Vocês sabem disso, porque muitos de vocês doaram para a minha campanha através do site, com cartão de crédito. Os dados são públicos. E é por essa diferença que as nossas campanhas são tão baratas e as deles são tão obscenamente caras.
Entretanto, por incrível que pareça, setores do Ministério Público Eleitoral de diferentes estados estão perseguindo cidadãos e cidadãs que colaboraram desinteressadamente com as campanhas do PSOL. Um colaborador do meu mandato, que doou apenas 60 reais para a minha campanha, foi processado pela justiça e teve o sigilo fiscal quebrado porque o Ministério Público considerou que ele não poderia ter doado essa enorme quantia — isso mesmo, 60 reais — porque estava isento do imposto de renda. Como se o fato de uma pessoa estar isenta significasse que ela não teve nenhum rendimento no ano anterior. Não é o único: nos últimos meses, muita gente entrou em contato com o PSOL para relatar situações semelhantes. Em todos os casos, com a assessoria jurídica adequada, os processos serão arquivados, porque não há nada ilegal ou ilícito nessas doações. Muito pelo contrário: elas são um sintoma de saúde democrática! Mas o constrangimento que essas pessoas estão passando é imperdoável.
Enquanto as 9 empreiteiras envolvidas na operação lava-jato doaram 438,4 milhões de reais para as campanhas de todos os partidos, há juízes perseguindo cidadãos comuns que fizeram doações de 50 reais a candidatos honestos que gastaram pouquíssimo na campanha, num Parlamento cheio de políticos milionários. Nas últimas eleições, 326 parlamentares tiveram suas campanhas financiadas por empreiteiras (nenhum do PSOL!). E, entre eles, 255 receberam dinheiro das envolvidas na lava-jato, tanto governistas quanto opositores.
Eu fui o sétimo deputado federal mais votado do estado do Rio de Janeiro, com 144.770 votos, e a receita total da minha campanha foi de 70.892,08 reais em doações físicas (1% do que Cunha gastou!), sendo que, destes, 14 mil correspondem a trabalhos de voluntários que são estimados em dinheiro, apesar de serem gratuitos, por exigência da Justiça Eleitoral. Não recebi (e nem receberei nunca!) um centavo das empreiteiras. Chico também não recebeu!
Apesar dos Cunhas, nós seguiremos lutando por uma política não apenas mais honesta, como também mais independente do poder econômico. Porque a promiscuidade entre política e capital não é apenas um problema moral, mas principalmente um problema político. Quando um prefeito tem sua campanha financiada por empresas de ônibus, é claro que a tarifa vai aumentar. Quando um deputado tem sua campanha financiada por planos de saúde, é claro que ele não vai lutar por uma saúde pública de qualidade. Quando um governador é financiado por empreiteiras, é claro que haverá remoções e obras superfaturadas.
Nós não aceitamos esse jogo e, por isso, também, não temos o rabo preso.

