No dia 24 de outubro um arco íris humano cobriu de amarelo, vermelho, lilás e de todas as cores o eixo monumental de Brasília, apagando com sua vivacidade o tom acinzentado daquela nublada manhã.
Lutadores e lutadoras do povo, vindos de todos os estados, protestaram contra as políticas neoliberais e privatistas que querem fazer as reformas da previdência, sindical, trabalhista e universitária para retirar direitos dos trabalhadores e atender a insaciável voracidade do grande capital. Defendiam também moradia digna, educação e saúde públicas de qualidade, salário e empregos decentes para os trabalhadores.
Vieram em aproximadamente trezentos ônibus, dos quais mais de duzentos e oitenta foram mobilizados por militantes e entidades do PSOL e do PSTU ligados à CONLUTAS e os demais pela INTERSINDICAL e por militantes do PSOL e do PCB, independentes e pastorais, e alguns ligados à CUT, sobretudo do CPERS (Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul).
A enorme coluna do PSOL e a esmagadora maioria de nossos militantes que também animavam várias delegações de sindicatos e movimentos populares levantavam bem alto a palavra de ordem: CASSAÇÃO DE RENAN E DE TODOS OS CORRUPTOS JÁ! EM DEFESA DOS DIREITOS DOS TRABALHADORES! Era a nossa mensagem que unificava as lutas particulares ao sentimento de revolta popular contra a corrupção e ao necessário combate permanente ao governo Lula.
Os dois carros de som do PSOL se transformaram em palco democrático aberto à fala de militantes, dirigentes sindicais e lideranças populares que usavam da palavra livremente para divulgar suas lutas. A presença da presidente de nosso partido, a companheira Heloisa Helena, de Luciana Genro, Chico Alencar e Ivan Valente, nossos deputados federais em nosso principal carro de som empolgava os participantes da marcha e arrancava gestos de carinho e apoio dos operários nos prédios em construção, dos trabalhadores nos escritórios e dos que paravam na avenida para saudar a manifestação.
A alegria e a combatividade contagiantes se estenderam por quatro quilômetros de marcha durante os quais a juventude marcou presença numericamente destacada e, com sua criatividade, seus gritos de guerra e sua energia desmascararam o REUNI e seus mecanismos de privatização das universidades públicas.
O ato principal foi realizado em frente ao Ministério da Previdência, onde fizeram uso da palavra representantes de entidades nacionais, do MTL, do PCB, do PSOL, do PSTU, da pastoral operária, da INTERSINDICAL e da CONLUTAS. Em nome do PSOL falou a companheira Heloisa Helena, que foi a mais aplaudida e aquela que mais prendeu a atenção do público. Heloísa não fugiu à polêmica política que marcou a oposição de esquerda em relação ao caso Renan e à luta contra a corrupção. De maneira firme e elegante defendeu as posições do PSOL e condenou aqueles que, apoiados em argumentos insustentáveis se negaram a dar o peso necessário a luta contra a corrupção perdendo a oportunidade de “revelar às amplas massas do povo os segredos profissionais dos negócios e do regime de dominação sustentado pelos representantes do capital”.
Observações sobre a marcha
A polêmica levantada por Heloisa no ato em frente ao Ministério da Previdência anunciou um erro importante na avaliação e na orientação política que predominou a maioria da direção da CONLUTAS. Inicialmente os companheiros sequer haviam previsto que o ato deveria se estender até o Congresso Nacional. Depois de nossos protestos readequaram, de forma insuficiente, o roteiro da marcha incorporando a manifestação contra a corrupção em frente ao Congresso a um conjunto de atividades que deveriam se desenvolver após o ato principal: os estudantes iriam ao MEC protestar contra o REUNI, o movimento popular ao Ministério das Cidades e os que quisessem seguiriam até o Congresso.
Na verdade os companheiros que aprovaram e implementaram este roteiro pretendiam esvaziar a manifestação tão reivindicada pelo PSOL, desconhecendo de forma proposital que quem aprova as reformas neoliberais da previdência e outras propostas pelo governo Lula é o congresso dos mensaleiros presidido por Renan Calheiros. Motivados por um esquerdismo que desconsidera a real correlação de forças existente no Brasil, preferiram os discursos conclamando a seguirmos o exemplo da greve geral realizada pelos trabalhadores franceses, muito distante de nossas possibilidades, desprezando a possibilidade de centralizar o combate diante do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional, exigindo a cassação de Renan e de todos os corruptos e mostrando ao povo brasileiro que senadores e deputados que roubam o direito público são os mesmos que querem roubar a classe trabalhadora.
Outra conclusão muito importante é que a preparação da marcha desconsiderou uma tarefa fundamental: a agitação junto ao povo sobre a realização da marcha e seus objetivos previamente. Se os sindicatos promotores, em cada um dos estados, garantissem grandes colagens de cartazes, distribuição massiva no povo de jornais, programas de rádio, enfim, atividades de massa de divulgação prévia, a marcha teria conseguido romper seu isolamento e ganhar apoio público. Isso teria ajudado também a pressionar para que aliados das manifestações de maio, estivessem conosco em 24 de outubro. É o caso do MST.
Ausência do MST
Infelizmente o MST e os setores da CUT, que também convocaram a marcha no primeiro semestre, após o dia nacional de lutas, não participaram da mesma. Este grande equívoco motivado pela dubiedade da relação destes setores com o governismo lulista e petista não quebrou o caráter vitorioso e amplo da manifestação, mas sem dúvida reduziu o seu alcance numérico.
Fazemos este chamado especialmente ao MST, que está em vários estados organizando importantes protestos e lutas em defesa da reforma agrária. Marchas sobretudo em cidades do interior que são brutalmente reprimidas, com um vítima fatal no Paraná. No Paraná, nosso partido também teve militantes violentamente agredidos. Estas importantes lutas do MST se fortaleceriam se o sua direção aceitasse a unidade na ação com setores políticos sindicais que defendem a reforma agrária e lutam contra o governo Lula.
De nossa parte faremos todo o possível para que o MST e os setores da CUT que de fato pretendam defender os interesses dos trabalhadores rompam de forma politicamente conseqüente com o governo Lula e ajudem a fortalecer e dirigir uma frente social e política anti-neoliberal, anti-latifundiária, contra a corrupção e por uma verdadeira democracia baseada na soberania das decisões populares tomadas através da democracia direta. O governo Lula, de forma inquestionável, já provou de que lados está. Por isso Bush e os banqueiros estão com ele. Os dirigentes e os movimentos de luta dos trabalhadores devem seguir o árduo caminho de reconstruir uma alternativa de esquerda democrática e unitária, no terreno da luta direta e na luta institucional, sem vacilações e dubiedades.
Martiniano Cavalcante é Secretário de Comunicação do PSOL

