Entre o final de junho e o início de julho, Florianópolis ardeu. E esta alta temperatura em nada tem a ver com o calor de verão, que faz com que a cidade fique conhecida nacionalmente por seu clima, suas belas praias turísticas e sua ornamentação natural. A “ilha da magia”, título conferido pelas atribuições acima citadas, viveu dias de ebulição, efervescência e anormalidade. Um amplo movimento popular e estudantil contra o aumento das tarifas do transporte público sacudiu por duas semanas a capital de Santa Catarina, radicalizando contra a elite local, empreendendo uma ação de massas independente, e conquistando uma importante vitória.
Esta revolta popular de proporções grandiosas teve seu ponto de partida quando a prefeita Ângela Amim (PP) “presenteou” os empresários do transporte com um aumento de 15% no preço das passagens de ônibus. Assim, o preço das tarifas municipais se tornou o mais alto do país, dando inicio ao maior movimento popular estudantil das últimas décadas em Florianópolis.
O ódio contra a máquina da burguesia
A burguesia local anunciou o aumento das passagens na reunião do Conselho de Transportes, proporcional a todas as linhas, já que o preço da passagem é diferente em cada região da ilha, aumentando assim em 15%. Para se ter idéia do “tarifaço”, em regiões mais afastadas a passagem foi para 3 reais!! A partir da meia-noite do dia 27 de junho começaram a circular os veículos com a tarifa reajustada. Era o que faltava para a explosão… Na manhã da segunda-feira (28 de junho), milhares de estudantes saem às ruas, de forma espontânea, para protestar contra o aumento e pedir o apoio da população. A resposta foi imediata: associações de moradores, entidades comunitárias, vilas pobres, trabalhadores, desempregados, tomaram conta das principais vias da cidade. O TICEN (Terminal Integrado do Centro) foi o grande palco e ponto de encontro das primeiras manifestações que iam evoluindo ao longo da semana. As ações chegaram a se radicalizar e por muitas horas, se fechava este terminal, impedindo a circulação dos ônibus, paralisando por completo toda a cidade.
Desde quarta-feira (30 de junho), pela parte da manhã o movimento estudantil, já em total sintonia com o movimento popular como um todo, ocupa os terminais de bairro. Estas manifestações percorreram a cidade por duas semanas, fechando inclusive duas pontes da cidade, a Pedro Ivo e a Colombo Salles. O ápice foi o grande dia de protestos e de “desobediência” marcado para a quinta-feira (8 de julho).
Uma vitória do movimento
Na última hora do dia 7, quarta-feira, véspera do dia “D”, a burguesia local joga a toalha. Faltando alguns minutos para a meia-noite a OAB protocola uma liminar contra o aumento das passagens do transporte. A alegação foi de “evitar o caos”.
Na manhã da quinta (8 de julho), o sentimento era de feriado público municipal. Além disso, uma chuva torrencial diminuiu ainda mais o fluxo de pessoas pelas ruas. O que entretanto, ficava nítido era o gosto de vitória no ar do povo. Apesar, da quase inexistência de movimento, todos se cumprimentavam e saudavam a grande vitória popular. Este dia expressou o triunfo de um movimento de grande envergadura, que os mais antigos comparavam à “novembrada” – importante mobilização, que em 1979, em plena ditadura deflagrou combates de rua contra a visita do então presidente Figueiredo ao estado de Santa Catarina.
Ao final da jornada, depois de fechar com força o Terminal Integrado da Trindade, os manifestantes promoveram, sob intensa chuva, uma caminhada combativa e vitoriosa nas ruas da cidade, que parou orgulhosa para saudar a conquista na luta.
De Salvador à Floripa…
A luta juvenil de forma massiva e radicalizada, conjugada com o apoio da população não começou nesta luta de Florianópolis. Bem longe disso. Em outubro de 2003 em Salvador, o movimento que paralisou por quase dez dias a cidade – a “Revolta do Buzú” como ficou conhecida – foi um acontecimento em Salvador que marcou nacionalmente a conjuntura. A força do movimento conseguiu paralisar a cidade. Infelizmente, não houve conquistas como a redução da tarifa e a auditoria nas contas pela traição histórica protagonizada pelo PCdoB, que após um acordo fechado por cima, dentro do gabinete do prefeito, foi para as concentrações e passeatas desorganizar e confundir o movimento.
Este ano ainda, a mobilização estudantil contra o preço da passagem de ônibus atravessou o país. Além das mobilizações em cidades como o Rio de Janeiro, Feira de Santana, Juazeiro do Norte e outras cidades, a mobilização de Fortaleza ganhou notoriedade pela sua radicalização e seu peso. Nesta cidade houve enfrentamento com a policia, a mobilização contra o uso do “passcard” – cartão eletrônico que vem para limitar o uso da meia-passagem para os estudantes da cidade.
A explosão de Florianópolis foi o capítulo mais recente, e também o mais vitorioso, destes embates populares contra o lucro dos patrões do setor de transportes. Além da vitória, é importante tecer uma análise sobre alguns elementos importantes que apontam certas continuidades e aparecem como um certo elo de ligação entre estas mobilizações.
Espontaneidade e radicalização
Apesar de algumas questões específicas nesta recente onda de mobilizações ao redor da luta contra o aumento de passagens, alguns pontos em comum servem como base para termos elementos que nos ajudem a entender o alcance e as debilidades desta vaga de lutas.
O primeiro ponto de análise é a imensa espontaneidade. Não existiu em nenhum momento centralização desta luta nacionalmente. Todas as mobilizações que tiveram destaque tiveram alta dose de espontaneísmo, sem que houvesse claramente uma direção política, que apontasse e unificasse um caminho a seguir. No caso de Salvador, o PCdoB negociou o fim do movimento, mesmo sem ter legitimidade das assembléias, através de sua representação nas entidades como a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES). E não só não tinha legitimidade alguma nas assembléias, como era vaiado e derrotado a cada proposta conciliadora. Esta espontaneidade vista também em Florianópolis expõe o problema por dois lados: se por um lado é progressivo, pois amplas parcelas recusam a direção das entidades burocratizadas do ME, como a UBES e a UNE, e apostam em uma mobilização efetiva mais independente, por outro salta às vistas a crise de representação e de direção, o que faz com que mobilizações de enorme envergadura, com condições favoráveis para avançar, retrocedam pela falta de uma estratégia e de uma centralização das ações; a falta de uma direção é um fator que também mostra a fragilidade e falta de uma perspectiva maior de nacionalizar o movimento de luta contra o aumento das tarifas públicas.
O outro dado novo é o grau de radicalização que vem tendo estas manifestações; e esta radicalização foi adotada como método por vários setores dispostos a trancar terminais, enfrentar o aparato da polícia.
Este novo movimento estudantil que se faz mais radicalizado, aponta também uma nova composição social, onde estudantes da periferia, mais empobrecidos, começam a se envolver e tomar um papel central de protagonismo. A garantia de novas explosões é a política econômica que o governo vem aplicando, mantendo o ajuste, o corte nas áreas sociais e o arrocho salarial. A resposta contra estas condições de vida é quase que automática, sempre evidenciada quando as tarifas públicas sobem. Neste luta se decide quem vai pagar a conta desta brutal crise que assola o país: se os empresários, que organizam uma máfia do transp
orte, ou se a classe trabalhadora logra unificar as suas ações para derrotar esta face do ajuste.
Novos capítulos logo chegarão às ruas dos grandes centros urbanos do Brasil; a falta de uma direção capaz de constituir um pólo, um ponto de convergência destas lutas, e contornar o dique de contenção das entidades tradicionais faz com que muitos destes processos acabem retrocedendo, ou se perdendo. A sorte está lançada. O fato é que a mobilização de Florianópolis tem impacto na cabeça de milhares de novos ativistas que pelo Brasil afora lutam diariamente por uma vida melhor. Para a esquerda socialista está colocada a tarefa de dialogar, sem asfixiar ou aparelhar o movimento, como é prática recorrente em muitos setores, analisar, e sobretudo intervir com força nestes processos, para superar a crise de representatividade e de direção, trilhando um caminho que aponte uma saída de conjunto para a crise.

