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A esquerda inconformista, contra o pensamento único

Há pouco mais de uma semana, o editor do site de notícias Opera Mundi, Breno Altman escreveu um artigo em que considera PSOL, PSTU, PCB e PCO partidos os quais ele denomina de “ultra-esquerda residual”. No texto, publicado no Opera Mundi e também no site da revista Caros Amigos, o jornalista afirma que os referidos partidos “são forças de pouca envergadura no movimento sindical, estudantil e camponês” e que “não passam de franjas isoladas na intelectualidade”.
 
Em resposta, o secretário Nacional de Comunicação do PSOL, Juliano Medeiros, questiona, de forma taxativa: “seriam os partidos por ele citados membros de uma mesma ‘ultra-esquerda’, digna de ser assim definida?”. Após caracterizar cada um dos partidos citados pelo jornalista, elencando aquilo que os diferencia, Medeiros pontua: “Rotular pontos de vista tão distintos simplesmente como parte de uma ‘ultra-esquerda’ não passa de um recurso de desqualificação que não pega bem para quem quer discutir a sério os dilemas da esquerda brasileira”.
 
A argumentação do secretário nacional do PSOL gerou outro artigo de Altman, dessa vez intitulado “Isolamento não é prova de conformismo”. Nele, o diretor de Opera Mundi, embora ressalte que não houve, da sua parte, intenção de ofender, com o seu título, os partidos citados, volta a utilizar argumentos sem fundamento quando diz que o desempenho dessas legendas, incluindo o PSOL, é declinante e beira a inanição. “Tampouco sua influência nos movimentos sociais e nas lutas populares é relevante, com a exceção de alguns segmentos minoritários”.
 
Na resposta abaixo, Juliano Medeiros limpa a área, destacando o posicionamento majoritário do PSOL em relação ao atual governo do PT e o papel do PSOL como partido que se coloca como alternativa de esquerda socialista. “Com os parceiros que o PT escolheu nos últimos anos, melhor seguir a máxima popular: antes só, que mal acompanhado”, finaliza dirigente nacional, de forma certeira.
 
Leia abaixo a última resposta do secretário Nacional de Comunicação do PSOL (Contra o “pensamento único” na esquerda) e nos links a seguir os dois textos de Altman e a primeira respota de Juliano Medeiros.
 
Breno Altman: Porque a ultra-esquerda brasileira é residual
Resposta a Breno Altman: Por uma esquerda inconformista
Isolamento não é prova de inconformismo
 
Contra o “pensamento único” na esquerda*
O jornalista Breno Altman deu-se o trabalho de contestar minha modesta réplica ao artigo por ele publicado dias atrás em que atacava o PSOL e os demais partidos de esquerda que não apoiam o governo Dilma. Reconhecendo sua generosidade em dialogar com este humilde militante da esquerda socialista, dedico-lhe essas ligeiras linhas para encerrar minha participação nesse produtivo diálogo:
 
1. Um governo pode ser um aliado, um entrave ou um inimigo, levando em conta a tibieza de suas posições. Confesso que no PSOL existem as duas últimas posições. Mas a posição amplamente majoritária é a de que o governo Dilma é um entrave a avanços mais radicais. Nossos inimigos são os patrões, a burguesia, parte dela encastelada no próprio governo defendido com unhas e dentes por Altman. Portanto, por mais que tente forjar a imagem de uma esquerda tresloucada que não consegue observar a hora de combater ou apoiar as medidas do governo, isso não encontra base na realidade. Quando a direita atacou o PNDH, proposto pelo governo, de que lado esteve o PSOL? Quando a oposição demo-tucana tentou barrar a proposta de Política Nacional de Participação Social, onde estava o PSOL? Quando os viúvos da Ditadura tentaram detonar a Comissão da Verdade, como se posicionou o PSOL? Quando o governo brasileiro concedeu abrigo a Manuel Zelaya em sua embaixada, onde estava o PSOL diante dos ataques da mídia monopolista? E quando a direita se insurgiu contra o Mais Médicos, de que lado estivemos? Poderia dar exemplos à exaustão de medidas positivas como essas que contaram com nosso respaldo. O problema é que esses episódios são esporádicos, já que a maior parte de nossa energia no Congresso Nacional é dedicada a tentar barrar medidas regressivas que contam com o apoio do governo, como as alterações do Código Florestal, as constantes desonerações aos grandes grupos econômicos, o Regime Diferenciado de Contratações (que institucionalizou o toma-lá-da-cá com as empreiteiras), a famigerada Lei da Copa, dentre outras. Logo, caracterizar o PSOL como um aliado de primeira hora da direita ou como uma oposição burra ao governo não encontra qualquer amparo na realidade.
 
2. Não consta na minha réplica nem em qualquer documento do PSOL a insistente analogia feita por Altman entre o PT e os partidos socialdemocratas da Europa. Isso porque o processo histórico que nos separa do Velho Continente é totalmente diferente. O sistema político na Europa restringe as alianças, o que força um distanciamento (muitas vezes artificial) entre a centro-esquerda e a direita. Aqui, o PT não precisou apoiar os créditos de guerra para passar à condição de fiador dos interesses de determinadas frações da burguesia. Francamente, não sei de onde Altman tirou esse paralelismo estúpido (o paralelismo, não Altman) que imputa ao PSOL a caracterização de que o PT e a socialdemocracia europeia seriam irmãos siameses. Além de diferentes, as consequências são muito mais dramáticas para os trabalhadores brasileiros, onde um Estado de Bem-Estar só poderia ser construído enfrentando poderosos interesses e não conciliando com eles, como faz o governo petista.
 
3. Altman insiste que a ampliação dos gastos e o aumento dos empregos são produto direto de uma opção política contra-hegemônica, uma fórmula bem-sucedida dos governos Lula-Dilma e ironiza a ideia de que o capital pode conviver bem com esses ganhos, quando não deseja-los diretamente, desde que em cenários de crescimento econômico onde não haja choques distributivos. Altman desconhece completamente a economia política e a história. Sempre que é necessário – como vimos recentemente, na crise de 2008 – a ampliação dos gastos é uma medida recorrente com vistas à salvação de determinados setores do capital. Até Eugênio Gudin, pai de todos os liberais brasileiros, já escreveu isso. Ou a saída keynesiana (e sequer classificaria assim a macropolítica econômica dos governos petistas) não saiu do “colete” da burguesia? O problema de Altman é que ele acredita tanto em seu contorcionismo que considera que apenas através de governos benevolentes (ou de lutas populares) é que os tais “ganhos reais” podem se processar. Teriam sido as lutas – então clandestinas – que asseguraram os ganhos advindos do “milagre econômico” idealizado por Delfim Neto no governo Médici? De 1968 a 1973 o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média acima de 10% ao ano; a construção civil cresceu, em média, 15% ao ano e os empregos aumentaram vertiginosamente. Esse seria o resultado das “lutas” ou de um plano conservador de crescimento com ganhos colaterais bem-vindos para os trabalhadores?
 
4. O delírio ufanista de Altman encontra seu ápice quando afirma que só “nações governadas por partidos de esquerda, de oposição ao neoliberalismo, como é o caso do Brasil no período petista” mantiveram os gastos sociais e os salários. Na sua lógica, o Sudão do Sul (crescimento de 43%), Serra Leoa (crescimento de 14%) e Mongólia (crescimento de 11%) seriam exemplos de governos de esquerda? E o México, o Paquistão e as Filipinas, com taxas de desemprego e salário equivalentes às do Brasil, são governados por partidos de esquerda? Falemos de gasto público: em 2012 o Brasil investiu menos que os países ricos que estão cortando direitos sociais desde a crise de 2008, sendo que países considerados “emergentes” em geral têm uma taxa de investimentos público muito maior do que os ricos. Na China, ela foi de 47% do PIB em 2012; na Índia, de 34%. Sua tese, como se nota, é uma fraude. Altman não fala a sério: ele sabe que crescimento econômico – com consequente geração de emprego e renda – pode muito bem ser combinado com uma agenda conservadora. Altman está preso a uma fotografia dos anos 90, uma época em que o neoliberalismo era a única agenda do capital. Os tempos mudaram e as estratégias se diversificaram. Por exemplo, enquanto Dilma privatiza aeroportos no Brasil, o arquirreacionário Mariano Rajoy os reestatiza na Espanha. Como explicar isso? Assim, “estelionato político” é querer fazer crer que a via do pacto de classes, das alianças com partidos e indivíduos corruptos, com empresas que parasitam o Estado, com oportunistas de todos os matizes, é a única alternativa. Manter essa ladainha é encurtar os limites históricos que os trabalhadores podem alcançar, é dizer-lhes que eles não têm força para sustentar mudanças mais profundas, que não tem jeito…
 
6. Comparar os governos petistas, governos de coalizão (com Henrique Meireles, César Borges, Lobão & Cia.) com o governo da Frente Popular, no Chile dos anos 70, é mais que apelação: é um desrespeito a um processo histórico que não encontra nenhum paralelo com a chegada do PT ao governo federal no Brasil. O PSOL, em 1973, certamente estaria com Allende. Aliás, o PSOL nem existiria se Lula tivesse optado pelo caminho mais difícil – o do enfrentamento – já que, como Allende, ele também não tinha maioria parlamentar quando venceu as eleições. Sobre a Venezuela, suponho que Altman conheça nossa posição francamente favorável ao processo bolivariano. E agora? Como vemos não se trata de negar qualquer vocação para o poder, mas de definir os limites para exercê-lo em favor de um projeto de transformações estruturais e não de um mero reformismo conservador. Dizer que o PSOL estaria do lado dos grupos que se opõem ao processo bolivariano, mesmo conhecendo nossa posição sobre o tema, é uma afronta aos leitores que tem acompanhado nossa polêmica.  
 
7. Sobre o que os trabalhadores pensam sobre o PT e seu governo, sugiro voltarmos ao excelente estudo de André Singer: os pobres não também não viam nos governos de FHC um governo que os esmagava. A mudança da base social do PT, diagnosticada por Singer, mostra mais uma guinada ao centro e à direita do que uma elevação do nível de consciência de classe. Se assim fosse, não estaríamos diante de um crescimento de diversas manifestações conservadoras, inclusive no terreno eleitoral, fruto da incapacidade do PT de sustentar certas agendas progressistas, sobretudo, no campo dos direitos individuais (descriminalização do aborto, regulação do uso legal da maconha, casamento igualitário, etc.).
 
8. Sobre o segundo turno: o PSOL discutirá a seu tempo. Mas posso garantir que os limites dos governos petistas e o alinhamento de Marina às piores frações da burguesia (não que existam frações boas) nos impedirão de outorgar qualquer apoio acrítico. Aliás, Altman esquece propositalmente que, tanto em 2006 quanto em 2010, o PSOL aprovou uma resolução que afirmava algo como “nenhum voto nos tucanos”. Mas se ele espera que estejamos no palanque de Dilma ao lado de Michel Temer, Jader Barbalho ou Kátia Abreu, melhor esperar sentado. Se ainda temos poucos votos, nos sobra dignidade. Isso, aliás, tem a ver com o título da réplica de Altman, que fala de nosso suposto isolamento. Com os parceiros que o PT escolheu nos últimos anos, melhor seguir a máxima popular: antes só, que mal acompanhado.
 
Juliano Medeiros é historiador e Secretário Nacional de Comunicação do PSOL.

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