Se o Fórum Social Mundial (FSM) pretendeu ser um espaço de diversidade de idéias, o Acampamento da Juventude, instalado para receber os jovens participantes, foi o espaço onde se misturou o possível com mais visibilidade. Montado no campus da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), o espaço abrigou todas as tribos ideológicas, recebendo mais de 15 mil jovens durante o encontro.
As barracas, montadas em meio à vegetação nativa da Amazônia, para os estudantes, na sua maioria, representantes de movimentos sociais, DCEs, artistas e cidadãos do mundo. Além de participar das atividades oficiais, os jovens aproveitaram o fórum como oportunidade de intercâmbio cultural.
A juventude do PSOL foi parte fundamental desde cenário, como a parte de um fórum com tanta despolitização. “O objetivo de estar aqui é a troca de informações. Para mim, o fórum é um grande espetáculo de intercâmbio, onde eu posso aprender mais política e debater também, é muito construtivo”, disse Mariana, militante do PSOL de Brasília.
A infraestrutura do acampamento, ou a falta dela, não pareceu incomodar os quem escolheu o local. Além do espaço para montagem das barracas, a organização do acampamento providenciou banheiros químicos e um espaço para banho com chuveiros “com vista para a floresta”.
Verdadeiro ambiente
Em meio a malas e colchões, ainda à procura de um espaço vazio para se instalar no acampamento, a juventude do PSOL veio de várias partes do país e estavam dispostos e interessados nas discussões políticas das reuniões. “Essas mobilizações e reuniões tem que dar respostas mais práticas aos desafios do “esgotamento” do atual modelo de economia. “Tem que haver o estabelecimento de ações práticas para os movimentos sociais e governos de esquerda pautem alternativas ao modelo hegemônico”, disse o companheiro Zatti, da delegação do Rio Grande do Sul.
O calor, foi um episódio a enfrentar com as longas caminhadas em busca dos locais dos debates, uma maratona que necessitou até de caronas em bicicletas, motos e ônibus convencionais, para chegar até aos espaços fórum. “A gente está aqui para lutar por algo em que acreditamos. Estamos aqui nem que seja para fazer o princípio, o começo da mudança. Foi a nona edição, mas as sementes estão sendo lançadas sempre”, disse Rogério Dias militante social de Maceió.
Parte das tendas temáticas para as discussões do FSM ficaram instaladas no campus da UFRA, próximas ao acampamento. De acordo com a organização, ônibus levariam os participantes para a Universidade Federal do Pará (UFPA), coisa que não aconteceu, o que salvou o caos no trânsito foram os pescadores com seus barcos, fazendo a ligação entre as duas universidades pelo Rio Guamá, que também integrou o território do Fórum.
Críticas à organização precária e burocratização do FSM marcam edição de Belém
Ativistas de várias partes do mundo acompanharam a realização do Fórum Social Mundial em Belém. Mesmo diante de certos elogios, muitas críticas marcaram a organização do evento. A avaliação oficial da cúpula sobre o 9º Fórum Social Mundial, que se encerrou domingo (1º) em Belém (PA), durante o evento, o que se viu foi que sobrou adesão da população local e faltou organização dos responsáveis pela edição paraense, que quer pensar e propor “um outro mundo possível”. Um balanço quase possível.
“A escolha de Belém foi acertada. Gostei muito da participação entusiasmada dos jovens. Parece que os movimentos sociais se enraizaram no Pará”, declarou Cândido Grzybowski, um dos fundadores do fórum e diretor do Ibase (Instituto Brasileiro de Análise Social e Econômica). Os problemas de infraestrutura, porém, foram diversos. Em deles foi à hospedagem. Os participantes (estimados entre 100 mil e 120 mil) tiveram de usar desde motéis em rodovias a dezenas de quilômetros da cidade até barcos em porto pouco vigiados (um grupo protestou no fórum porque as embarcações eram assaltadas diariamente).
Já a palestra da Presidente Nacional do PSOL Heloísa Helena mudou de horário, da tarde para a manhã, e quem andou sob forte chuva para chegar ao auditório a dois quilômetros do portão da UFRA viu-se no local sem a palestrante programada. A organização argumenta que cada tema tinha sua autogestão, por isso, era difícil centralizar a informação do que realmente iria acontecer em cada encontro inicialmente programado.
Mais uma vez a juventude foi quem sentiu na pele a desorganização do FSM, o acampamento da juventude tinha todos os problemas, até polícia pedindo crachá para ter acesso ao local. O transporte foi o gargalo seguinte. A avenida Perimetral, que leva às sedes do encontro, à UFRA (Universidade Federal Rural da Amazônia) e à UFPA (Universidade Federal do Pará), conheceu filas imensas, afinal, sua anunciada duplicação não saiu do papel e não havia lugar para os ônibus fretados deixarem os visitantes – assim, cada um que descarregava os participantes na porta do campus, parava o fluxo de carros até o último passageiro descer.
Era tão lento o tráfego que a solução mais rápida era pegar o barco que liga as duas universidades. Outros desciam e iam a pé o quilômetro final sob o sol do meio-dia. “Isso aqui ficou bem desorganizado, mas já previa esse tipo de coisa”, criticou a estudante gaúcha Carina Ritter.
O campus da UFRA concentrou os problemas. O principal deles foi um tumulto que mostrou o mundo real do “outro mundo possível”, quando a população da vizinha favela Terra Firme tentou entrar no campus para acompanhar o show do grupo local La Pupunha. Os seguranças barraram os populares (afinal, só entrava quem tinha credencial de participante), e os organizadores cancelaram as apresentações artísticas por lá para evitar novas confrontações.
Os desencontros para achar mesas-redondas, simpósios e debates foram um capítulo à parte. A atividade “Não-violência como ferramenta da revolução social” anunciava para a tarde de sexta como debatedores o pensador norte-americano Noam Chomsky e o escritor uruguaio Eduardo Galeano, duas celebridades da esquerda mundial. A surpresa veio quando as dezenas de pessoas presentes iriam acompanhar uma videoconferência.
Por outro lado, as propostas do Fórum Social Mundial foram apresentadas em assembléias para escrever as conclusões das discussões tidas durante os últimos quatro dias. Os textos finais serão lidos durante show que encerrou o evento no campus da UFRA. Os temas que ganharam assembléias foram direitos humanos, justiça climática, militarismo, Amazônia, crise econômica, negros, mulheres, democracia, corrupção, educação, políticas migratórias e meio ambiente.
Fotos e texto: Antonio Jacinto Índio
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