O Diretório Nacional do PSOL se reuniu neste sábado (18) e aprovou um manifesto com a plataforma do partido para as eleições de 2026. O texto aponta as prioridades do PSOL para reconstruir e mudar o Brasil, com foco em reeleger o presidente do Lula com um programa que contenha as demandas populares e transformar o Congresso Nacional com a eleição do maior número da história de parlamentares comprometidos com os direitos do povo.
Leia a plataforma completa aprovada pelo Diretório Nacional do PSOL
Sumário
Introdução – Pelo direito ao futuro
I. Com Lula para derrotar o bolsonarismo
II. Por um Congresso do povo
Plataforma do PSOL nas eleições de 2026
Prioridades para reconstruir e mudar o Brasil
1. Chegou a hora de viver bem
2. Brasil soberano, construir agora o lugar no futuro
3. Coragem para acabar com os privilégios
4. O Brasil é de quem trabalha
5. Planejamento para enfrentar a emergência climática
6. Inteligência para defender a vida
7. A cidade pertence a quem vive nela
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Pelo direito ao futuro
Há momentos em que o relógio da história acelera. As gerações que vivem esses momentos não têm o privilégio de assistir às mudanças pela janela. São convocadas a assumir o protagonismo e ter coragem de definir o seu futuro. Nós somos uma dessas gerações.
Vivemos uma época em que a inteligência artificial transforma o trabalho, a emergência climática ameaça as condições de muitas comunidades, as guerras voltam ao centro da atenção mundial, a riqueza se concentra como nunca e a extrema direita tenta convencer milhões de pessoas de que o medo é o único caminho possível. Ao mesmo tempo, nunca houve tantas possibilidades diante do Brasil. Temos um povo criativo, gigante, uma das maiores biodiversidades do planeta, uma matriz energética privilegiada, universidades públicas capazes de produzir conhecimento de ponta, uma cultura admirada em todo o mundo e uma geração inteira disposta a construir um país soberano e com justiça social.
Por isso, o futuro ainda não está escrito. Ele será resultado de uma disputa. Durante muito tempo disseram ao povo brasileiro que política era apenas administrar crises e cortar direitos. Esperar oportunidades que nunca chegavam para a maioria. Nós recusamos essa ideia. A política existe para ampliar as possibilidades de viver bem para a classe trabalhadora e para a juventude. Existe para fazer com que uma mãe tenha mais tempo para seus filhos. Para que um jovem possa sonhar. Para que trabalhar garanta dignidade e não apenas sobrevivência. Para que envelhecer deixe de ser motivo de receio. Para que a riqueza produzida por milhões seja compartilhada por milhões.
Essa é a verdadeira disputa do nosso tempo. A disputa é entre um mundo organizado para proteger privilégios de uma pequena minoria e outro organizado para ampliar direitos e oportunidades. Entre uma economia que transforma tudo em mercadoria e uma democracia capaz de colocar a vida no centro das decisões; entre quem acredita que o futuro pertence a poucos e quem sabe que ele só fará sentido se pertencer à maioria do povo brasileiro.
É por isso que o PSOL apresenta este manifesto. Não como um catálogo de promessas eleitorais. Mas como um convite para imaginar o Brasil que podemos construir juntos.
Um Brasil onde viver bem deixe de ser privilégio. Onde a democracia volte a produzir esperança. Onde a ciência, a tecnologia e a riqueza nacional estejam a serviço dos interesses do povo brasileiro. Onde o trabalho devolva dignidade e também tempo para viver. Onde nossas cidades pertençam a quem as habita. Onde o desenvolvimento caminhe ao lado da justiça social e da justiça climática. É por isso que somos socialistas e ecossocialistas. Para fazer da política um instrumento para viver bem. Porque o maior patrimônio de uma nação não é só o tamanho de sua economia, é a esperança do seu povo.
Chamamos esse projeto de direito ao futuro.
Porque acreditamos que nenhuma criança deveria nascer com seu destino determinado pelo CEP, pela cor da pele, pelo gênero ou pela renda da família. Porque acreditamos que nenhuma geração pode ser condenada a viver pior do que a anterior. E porque acreditamos que o futuro não é um privilégio para poucos. É um direito que precisa ser conquistado pela democracia, organizado pela política e compartilhado pelo povo brasileiro. É essa a missão da nossa geração. E é para ela que este manifesto foi escrito.
Com Lula para derrotar o bolsonarismo
A democracia não é apenas o direito de escolher governos. É o direito de um povo definir o seu futuro e ter o poder real de decidir os rumos do Brasil.
Foi por isso que milhões de brasileiras e brasileiros fizeram da eleição de 2022 muito mais do que uma disputa entre dois candidatos. Aquela eleição se transformou numa escolha entre dois projetos de país: de um lado, a democracia; do outro, o autoritarismo. De um lado, a esperança; do outro, o medo e a violência. Fomos às ruas, convencemos familiares, conversamos nas filas dos ônibus, nos locais de trabalho, nas universidades e nas periferias. Elegemos Lula porque compreendemos que havia algo maior em jogo, a esperança de impedir que o Brasil continuasse caminhando para o abismo.
Vencemos e livramos o país de um pesadelo. Voltamos a ter comida no prato e vacina no braço. Finalmente, pudemos fazer justiça por Marielle Franco e Anderson Gomes. Mas a história nunca termina na noite da apuração. Agora temos a missão de vencer novamente.
Mesmo depois de derrotar Bolsonaro nas urnas, ainda precisamos derrotar o bolsonarismo como projeto de poder. Derrotar a cultura do ódio, da mentira e que tenta justificar desigualdades e preconceitos como destino, enquanto protege os privilégios de uma pequena elite que não aceita tratar empregada doméstica como uma trabalhadora com direitos e dignidades, ver pessoas negras andando de avião e tem nojo de mortadela. Esse projeto de violência permanece organizado em governos estaduais, em setores do Congresso Nacional, em grupos econômicos que lucram com a desigualdade e em redes de desinformação que transformam o medo em algoritmo e mercadoria política.
O governo Lula herdou um Estado desmontado e uma tentativa de golpe que deixou claro até onde a extrema direita estava disposta a chegar para impedir a vontade popular. Reconstruir políticas públicas, recuperar a capacidade de planejamento do Estado e devolver dignidade ao povo brasileiro tornaram-se tarefas urgentes. É por isso que seguimos ao lado de Lula novamente em 2026. Sabemos que ainda há muito para reconstruir e transformar no Brasil e que isso não será possível se a extrema direita voltar a ocupar o Palácio do Planalto.
Em 2026, temos como missão virar de vez essa página da história. Estamos ao lado de Lula na tarefa histórica de impedir o retorno do pesadelo bolsonarista. Não apenas derrotando os seus candidatos nas suas diversas versões, mas também o seu projeto que transformou a violência política de gênero e raça em método, o privilégio em regra e a desigualdade em destino. Derrotando, assim, quem despreza a ciência e destrói os serviços públicos, quem ataca a cultura e os artistas, quem nega a emergência climática e aceita um Brasil subordinado aos interesses das grandes potências, incapaz de decidir soberanamente seu próprio destino.
Em 2026, vamos defender o Brasil com S de soberania e isso começa livrando o país do retrocesso, mas também significa comprometimento para transformar os sonhos do povo brasileiro em realidade, garantindo o direito de viver bem. É por isso que a batalha decisiva de 2026 também será para mudar radicalmente o Congresso Nacional e criar as condições para produzir mudanças reais na vida das pessoas.
Por um Congresso do povo
Nenhum presidente governa sozinho. O golpe de 2016 entregou ao Congresso Nacional um enorme poder para decidir o destino do país e sabotar o programa vitorioso nas urnas. A pergunta que importa é simples: senão pelo povo, a serviço de quem esse poder tem sido exercido?
Quando chegou a hora de proteger o orçamento secreto, escolheram se beneficiar de bilhões de reais que transformaram a política em um balcão de negócios. Quando chegou a hora de ampliar sua própria impunidade, correram para votar a PEC da blindagem. Quando chegou a hora de cobrar mais dos bilionários, dos grandes bancos e das plataformas de apostas, encontraram todas as desculpas possíveis. Mas quando o assunto é reduzir o custo de vida, proteger quem trabalha, fortalecer o SUS, investir na educação pública ou ampliar direitos, sempre dizem que falta dinheiro ou que não é o momento. Não é falta de recursos. É excesso de privilégios e de concentração de poder.
Não são episódios isolados. São sintomas de um Congresso inimigo do povo, que representa, em grande medida, os interesses do sistema financeiro, do latifúndio, das grandes corporações e daqueles que transformaram a política em um mercado de favores. Existem parlamentares comprometidos com o povo, que travam batalhas diárias, mas são minoria em uma estrutura construída para conservar o poder dos que sempre mandaram.
Por isso, nossa tarefa em 2026 não é apenas reeleger Lula. É construir um Congresso que esteja a serviço da maioria do povo brasileiro. Um Congresso que enfrente privilégios em vez de protegê-los. Que taxe bilionários em vez de cortar direitos. Que fortaleça a ciência em vez do obscurantismo. Que enfrente a emergência climática em vez de negá-la. Que coloque a riqueza do Brasil a serviço da maioria, e não dos acionistas de sempre. A disputa de 2026 não é apenas sobre quem ocupará a Presidência da República. É sobre as condições do exercício da vontade popular. Se continuarmos elegendo um Congresso comprometido com os interesses de poucos, a democracia permanecerá aprisionada pela chantagem permanente do andar de cima.
Se o povo brasileiro decidir ocupar também esse espaço, abriremos um novo ciclo da nossa história. Um ciclo em que a política deixará de administrar desigualdades para começar, finalmente, a superá-las. Esse é o compromisso do PSOL. Estar ao lado de Lula para derrotar definitivamente o bolsonarismo. E ao lado do povo para construir uma nova maioria no Congresso Nacional capaz de transformar o Brasil.
Precisamos de uma bancada do povo para assegurar o fim imediato da escala 6×1, porque sabemos que seis dias de trabalho para um de descanso é regime de exaustão, não de direitos e o povo precisa de tempo para viver. Para defender que criança não é mãe e os direitos reprodutivos das mulheres, transformar as conquistas da comunidade LGBTQIAPNI+ em lei e defender a vida e os direitos do povo negro. Para colocar as mulheres e o cuidado no centro da política, porque sem reconhecer quem sustenta a vida em seu cotidiano, o país continuará fingindo progresso enquanto reproduz desigualdade. Para fazer um combate real ao racismo estrutural e à violência contra a população negra, porque não existe democracia enquanto a juventude negra continua sendo alvo preferencial da bala e da prisão. Para garantir que o nome social das pessoas trans e o casamento igualitário não dependa de quem o presidente vai nomear para o STF. Para ser capaz de realizar a defesa inegociável do meio ambiente, dos territórios e dos povos originários, com a consciência de que a crise climática já chegou e quem a sente primeiro é sempre o povo pobre.
Não queremos apenas representação simbólica, queremos maioria legislando com coragem. O povo brasileiro já derrotou ditaduras, venceu a fome, ampliou direitos e reconstruiu a democracia. Sempre que acreditou na força da política, se transformou em um gigante capaz de mudar a história. Agora, chegou a nossa vez.
Plataforma do PSOL nas eleições de 2026
Prioridades para reconstruir e mudar o Brasil
I. Chegou a hora de viver bem
Toda geração recebe uma missão da história. A nossa não é apenas fazer a economia crescer. É fazer a vida melhorar no que mais importa para as pessoas.
Durante muito tempo nos ensinaram que economia era um assunto para especialistas. Foi assim que o neoliberalismo criou falsos dogmas. Nos disseram que governar era administrar crises. Cortar gastos. Equilibrar planilhas. Que a economia acontecia nas bolsas de valores e nas reuniões de banqueiros. Enquanto isso, a economia verdadeira acontecia em outro lugar: na cozinha de quem faz contas antes de ir ao supermercado, no trabalhador que sai de casa antes do amanhecer e volta quando os filhos já estão dormindo, na jovem que desiste da universidade porque não consegue pagar o transporte, na aposentada que escolhe entre comprar remédios ou completar a feira do mês.
O verdadeiro sucesso de uma nação está na tranquilidade com que seu povo consegue viver bem. É por isso que queremos reorganizar as prioridades do Brasil. Não a partir dos interesses do mercado financeiro. Mas a partir da vida cotidiana das pessoas. Queremos construir uma economia organizada para viver bem, a partir de três pilares fundamentais: segurança para pagar as contas, tempo para viver e esperança de que nossos filhos viverão melhor do que nós.
Viver bem é chegar ao fim do mês sem o peso das dívidas. É encher a geladeira, sem medo de não conseguir pagar o aluguel. É ter tempo para brincar com os filhos, visitar os pais, encontrar os amigos, estudar, descansar e amar. É caminhar pela cidade sem medo, respirar um ar mais limpo, sem ter medo da próxima enchente ou da seca. É envelhecer com dignidade e olhar para a juventude acreditando, sinceramente, que ela viverá um país melhor do que nós. Viver bem significa comida de qualidade no prato, ter vida além do trabalho, ter direito à moradia digna, poder viver sem medo e amar quem quiser.
Isso não é utopia, é um projeto de país. Somos um povo que trabalha duro e merece ser feliz. Afinal, o Brasil nunca foi um país pobre, foi um país onde a riqueza e as oportunidades sempre foram distribuídas de forma profundamente desigual. Nós produzimos alimentos para o mundo inteiro, mas convivemos com a insegurança alimentar. Produzimos ciência, energia, cultura, tecnologia e riqueza, mas ainda lutamos para dar a milhões de brasileiros a tranquilidade de viver com dignidade.
Eles tentaram nos convencer de que a exaustão era virtude. Que passar horas no transporte era o preço inevitável do progresso. Que o aluguel, a comida, a conta de luz e os remédios ficariam cada vez mais caros e isso seria normal. Mas ao longo do tempo, foi crescendo algo que nenhuma estatística consegue medir: o direito de imaginar uma vida melhor. O povo brasileiro aprendeu a lutar pelo seu destino, mas merece viver bem e isso significa muito mais do que apenas sobreviver. E é quando o desejo encontra a esperança que a história volta a se mover. Por isso, queremos um Brasil medido por aquilo que realmente importa: pelo tempo que uma mãe conquista para estar com seus filhos, pela tranquilidade de quem tem segurança alimentar e moradia digna, pela confiança de uma juventude que acredita que vale a pena construir seu futuro, pela vida que a riqueza do país torna possível.
O nosso compromisso é construir uma economia que funcione para quem vive do próprio trabalho. Uma economia que reduza o custo de viver bem, aumente o salário mínimo acima da inflação, acabe com os privilégios dos super-ricos, fortaleça os serviços públicos, reindustrialize o país, invista em ciência e tecnologia e transforme o crescimento econômico em bem-estar para a maioria. O nosso compromisso é com o combate à fome e a redução das desigualdades, por meio dos programas de transferência de renda, assistência, previdência social e tributação progressiva. Viver bem é garantir saúde com o fortalecimento do SUS, é investimento em educação pública, ciência e universidades. É garantir que os povos indígenas e comunidades tradicionais tenham direito ao territóro. É garantir a proteção dos ecossistemas, sua biodiversidade e o acesso equilibrado aos bens comuns da natureza.
II. Brasil soberano: construir agora o lugar no futuro
A história não espera por quem chega atrasado. Em poucas décadas, a inteligência artificial, a robótica, a computação quântica, a biotecnologia, os data centers, o processamento de dados e a transição energética estão reorganizando a economia mundial. O futuro já começou. A pergunta é: qual será o lugar do Brasil nele?
Nenhum país verdadeiramente soberano pode depender da tecnologia produzida por outros, entregar seus dados aos grandes oligopólios das plataformas digitais ou continuar exportando riquezas naturais para importar produtos de alto valor agregado. A disputa internacional já não acontece apenas pelos territórios, mas pelo conhecimento, pelos algoritmos, pelos minerais estratégicos, pela energia, pelos dados e pela capacidade de inovação.
O Brasil reúne condições extraordinárias para ser protagonista de um novo ciclo histórico. Somos uma potência ambiental, energética e científica. Possuímos uma das maiores biodiversidades do planeta, universidades e centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente, um parque industrial que ainda pode ser reconstruído e reservas estratégicas de minerais essenciais para a economia do futuro, como as terras raras. Mas durante séculos exportamos riquezas naturais e importamos tecnologia pronta. Essa história não pode se repetir com os minerais estratégicos, com a inteligência artificial nem com a economia ligada à transição energética.
Defendemos um Brasil com S capaz de fazer a gestão soberana dos seus recursos naturais, produzindo tecnologias como patrimônios estratégicos para o povo brasileiro, tendo como objetivos o bem comum e o equilíbrio ambiental. Da mesma forma, os dados produzidos diariamente por milhões de brasileiros devem ser tratados como patrimônio estratégico e não como mercadorias. Não podemos aceitar que a economia digital seja controlada por plataformas estrangeiras ou que nossos dados circulem sem a devida privacidade.
O Brasil pode ser um protagonista, mas não pode cair nas mãos de falsos patriotas. Na luta por soberania, é necessário enfrentar o rentismo interno e o imperialismo externo. E isso não se faz com neutralidade. Não há paz possível com os inimigos da pátria que levantam a bandeira dos Estados Unidos no dia da independência do Brasil e que continuam de joelhos perante Trump pedindo intervenção no Brasil para anistiar Bolsonaro e os golpistas.
O nosso compromisso é com a defesa de uma política nacional de soberania digital com a regulação democrática das plataformas digitais desenvolvendo parâmetros democráticos para o uso de dados e da inteligência artificial. Com a construção de um novo ciclo: reindustrializar o país com base na inovação, fortalecer as universidades públicas, retomar o controle pelo Estado de setores estratégicos (como energia, água, minerais), ampliar os investimentos em ciência e tecnologia, apoiar empresas nacionais estratégicas, como a criação da Terrabrás, e fazer do Estado um indutor da transformação econômica. A reversão das privatizações é condição de soberania. Nenhum país que hoje lidera a economia mundial abriu mão do planejamento público em setores estratégicos. O Brasil também não pode. A transição ecológica é central para esse projeto, com ela é possível produzir energia limpa, proteger a Amazônia e os demais biomas e gerar empregos qualificados.
III. Coragem para combater privilégios
O Brasil não é um país pobre. É um país desigual onde os privilégios custam caro demais para a maioria do povo brasileiro. Enquanto milhões de famílias fazem contas para comprar comida, pagar o aluguel, usar transporte público ou abastecer o carro, uma pequena parcela da sociedade continua protegida por um sistema que socializa sacrifícios e concentra benefícios, que é organizado para concentrar riquezas e o poder.
É essa lógica que encarece a vida de quem trabalha. Enquanto faltam recursos para reduzir o custo do transporte, universalizar as creches, fortalecer o SUS, investir em educação, cultura e ciência, nunca falta espaço para benefícios tributários e isenções fiscais para as maiores empresas do país, para lucros extraordinários dos grandes bancos ou para um mercado de apostas que transforma o desespero de milhões em um negócio bilionário.
É isso que gera privilégio toda vez que a trabalhadora e o trabalhador paga imposto quando entra no supermercado, enquanto quem vive de grandes fortunas consegue contribuir proporcionalmente menos. Privilégio é quando uma professora financia o Estado toda vez que compra arroz, feijão ou gás de cozinha, mas os bancos anunciam juros e lucros bilionários ano após ano sem que isso se traduza em mais investimentos para o país. Privilégio é quando empresas de apostas transformam o endividamento e a esperança de milhões em um negócio extremamente lucrativo, enquanto comunidades inteiras convivem com a falta de equipamentos públicos, esporte, cultura e oportunidades para a juventude.
Essa conta precisa mudar de endereço. A riqueza produzida pelo povo brasileiro deve financiar direitos e a possibilidade de viver bem. Toda democracia precisa responder a uma pergunta simples: quem paga a conta do desenvolvimento? Nós acreditamos que ela não pode continuar recaindo sobre quem acorda cedo para fazer este país funcionar.
O nosso compromisso é com a coragem para defender a taxação dos BBBs: bilionários, bancos e bets, as plataformas de apostas. Defender uma tributação verdadeiramente progressiva, capaz de reduzir o peso dos impostos sobre o consumo e financiar transporte público, educação, saúde, cultura, ciência e políticas que ofereçam tempo, renda e tranquilidade às famílias brasileiras.
O nosso compromisso é com a democratização da comunicação e isso significa regulamentar as Big Techs e enfrentar a concentração de poder dos monopólios da mídia. Essa é a mesma coragem necessária para enfrentar os privilégios e a concentração de poder político, acabando com o orçamento secreto, fortalecendo medidas de combate à corrupção e estímulo da participação popular: democracia direta e transparência na gestão pública são estratégicos. É preciso acabar com os privilégios de quem especula, a concentração de poder do rentismo no Brasil. É nessa direção que o PSOL defende o fim do arcabouço fiscal, e as regras limitadoras de investimentos públicos.
IV. O Brasil é de quem trabalha
O povo brasileiro acorda antes do sol nascer e movimenta o país graças à energia e ao suor de quem dirige o ônibus, amassa o pão, ensina, cuida, limpa, ergue pontes e edifícios, faz a indústria produzir, faz entrega por meio de aplicativo e abre o comércio. São milhões de trabalhadoras e trabalhadores dispostos a fazer qualquer sacrifício para fazer valer seu sonho de uma vida melhor.
O trabalho deve servir à vida digna. Não o contrário. Durante muito tempo disseram à classe trabalhadora que trabalhar até a exaustão era sinônimo de mérito. Nós recusamos essa lógica. O progresso só faz sentido quando melhora a vida de quem produz a riqueza do país. Nenhuma sociedade será verdadeiramente democrática enquanto milhões de pessoas continuarem vivendo apenas para trabalhar e o salário não seja suficiente para pagar as contas no fim do mês.
O tempo também é uma riqueza. E hoje ele é distribuído de maneira profundamente desigual. A tecnologia deveria significar menos jornadas exaustivas e mais produtividade. No entanto, a inteligência artificial, os aplicativos e as novas tecnologias correm o risco de ampliar os lucros sem repartir seus benefícios com quem trabalha. Queremos fazer a escolha oposta. A tecnologia precisa libertar as pessoas, não abandona-las sem proteção. O crescimento econômico precisa significar salários maiores, jornadas menores e mais tempo livre.
Para as mulheres, especialmente as mulheres negras e para todas as pessoas responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados, um dia de descanso quase nunca significa descanso de verdade. Quando termina um trabalho, começa outra jornada: preparar a comida, limpar a casa, cuidar das crianças, dos idosos e de quem precisa de atenção. Um trabalho indispensável para a sociedade, mas historicamente invisibilizado, desvalorizado e distribuído de forma profundamente desigual.
É por isso que defender o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho é muito mais do que uma pauta trabalhista. É defender o direito de viver. Queremos um país onde o trabalho permita construir uma família, estudar, descansar, viver sua religiosidade, ouvir uma música que você gosta, dançar, cuidar da saúde, assistir uma série ou um jogo de futebol, brincar com as crianças e estar com quem se ama. Um país que proteja os trabalhadores de aplicativos, enfrente a precarização das relações de trabalho, fortaleça a negociação coletiva e amplie direitos em vez de transformá-los em mercadoria.
O nosso compromisso é com o fim da escala 6×1, a valorização permanente dos salários acima da inflação, a proteção dos trabalhadores de aplicativos, a redução das jornadas exaustivas e uma nova agenda nacional de direitos para o trabalho do século XXI. Porque o Brasil pertence a quem acorda cedo para fazê-lo acontecer. E quem trabalha merece tempo para viver. O nosso compromisso é com trabalho digno, salário com valorização real, igualdade salarial entre homens e mulheres, negros e brancos e com políticas de geração de emprego e valorização do trabalho doméstico e do cuidado.
V. Planejamento para enfrentar a crise climática
Somos um país com grandes reservas de água, terras férteis e uma exuberante beleza natural. Nossas florestas e biodiversidade convivem há milhares de anos com povos que resistem à exploração e ensinam formas de vida em equilíbrio com a natureza. Da imensidão da Amazônia, da Mata Atlântica e do Cerrado, da Caatinga aos Pampas, existe um país de riqueza natural única, sustentado por uma relação profunda entre seus povos e territórios. Isso é um patrimônio do povo brasileiro e das gerações que virão.
Agora, esse equilíbrio está ameaçado. A emergência climática deixou de ser uma previsão para se tornar parte do cotidiano. Não vamos esquecer que as enchentes destruíram vidas e cidades no Rio Grande do Sul, em Pernambuco, Bahia e São Paulo, ao mesmo tempo que a seca vitimou povos amazônicos. Nem dos desastres ambientais causados pela Vale e mineradoras.
A crise climática bate à porta dos mais pobres e chega primeiro às periferias alagadas, às cidades que enfrentam ondas de calor cada vez mais intensas, às famílias que perdem suas casas nas enchentes, aos agricultores e ribeirinhos atingidos pelas secas prolongadas e aos trabalhadores que enfrentam temperaturas extremas para garantir o sustento. Os primeiros a sentir os impactos dessa destruição são aqueles que menos contribuíram para ela. Povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, trabalhadores do campo e populações das periferias urbanas enfrentam o racismo socioambiental, a perda de territórios, a ameaça aos seus modos de vida e os efeitos de uma crise que atinge de forma desigual quem historicamente protegeu e preservou a natureza. A injustiça climática tem endereço e classe social. Por isso, enfrentar a crise climática significa proteger a natureza e as pessoas. Justiça climática é justiça social.
Mas a raiz dessa crise é outra: não se trata de uma fatalidade da natureza, mas do resultado das políticas econômicas que colocam o lucro acima da vida. O Brasil reúne todas as condições para liderar a transição ecológica mundial. Podemos produzir energia limpa, recuperar áreas degradadas, fortalecer a agricultura familiar, colocar comida na mesa barata e sem agrotóxicos, ampliar o transporte público de baixa emissão e criar milhões de empregos de qualidade ligados à transição ecológica.
Mas isso exige planejamento. Não existe transição verdadeira se ela for subordinada ao mercado. Precisamos de um Estado capaz de coordenar investimentos, preparar nossas cidades para eventos climáticos extremos, proteger os biomas brasileiros e gerar empregos. Esse é um debate de modelo de desenvolvimento. O que defendemos é uma transição ecológica justa, que rompa com a lógica de exploração predatória, com a dependência fóssil, proteja nossos biomas, respeite os povos indígenas e comunidades tradicionais, fortaleça a produção de base agroecológica, garanta cidades preparadas para os eventos extremos cada vez mais frequentes e garanta trabalho digno em uma economia comprometida com a vida e a preservação ambiental.
O nosso compromisso é com o desmatamento zero, com a defesa de um plano nacional de adaptação climática, com investimentos públicos destinados à prevenção de desastres, reflorestamento, recuperação dos biomas, transporte limpo, energia renovável, articulando desenvolvimento econômico, geração de empregos e justiça climática. Porque não existe prosperidade possível em um planeta em colapso. O compromisso de uma bancada do povo é dar voz à necessidade da reforma agrária agroecológica, do direito à cidade, da defesa da terra, do teto, do trabalho e da comida na mesa para quem constrói o país com as próprias mãos.
VI. Inteligência para defender a vida
Nenhuma mãe cria um filho para enterrá-lo. Cada vida carrega uma história, afetos, uma parte da sua comunidade e possibilidades de futuro. Mas ainda vivemos em um país onde algumas vidas são tratadas como se valessem menos: jovens negros e pobres das periferias estão entre as principais vítimas da violência, mulheres são assassinadas por serem mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam diariamente a violência motivada pelo ódio e pela intolerância. Nenhuma família deveria aprender a conviver com o feminicídio, o racismo e a LGBTfobia como se isso fosse parte da rotina.
No entanto, milhões de brasileiros vivem entre o receio da violência e a falsa promessa de que mais armas e mais ódio resolverão o problema da violência, que é justamente consequência de escolhas políticas erradas. Por isso, é preciso ter firmeza para dizer que a crise da segurança pública brasileira não será enfrentada com falsas soluções. Mais armas, encarceramento em massa ou redução da maioridade penal não produzem mais segurança. Pelo contrário: aprofundam um modelo que criminaliza a pobreza, fortalece ciclos de violência e transforma territórios negros e populares em espaços permanentes de conflito.
Essa lógica produziu mais mortes, fortaleceu organizações criminosas, aprofundou o encarceramento em massa e deixou as periferias presas entre o crime organizado e a violência estatal. Quem mais morre continua sendo o povo pobre, a juventude negra, as mulheres vítimas de feminicídio e as comunidades abandonadas pelo poder público.
Nós recusamos essa falsa escolha entre autoritarismo e abandono. A segurança pública que defendemos coloca a defesa da vida no centro da política. Isso significa enfrentar o crime organizado com inteligência, investigação, cooperação e capacidade do Estado de atingir suas estruturas de poder e financiamento. O Brasil precisa superar uma política que concentra sua força sobre as populações mais vulneráveis e avançar para um modelo capaz de desarticular redes criminosas onde mais importa: nas suas fontes de recursos e nas redes que permitem sua expansão e influência.
É investigação qualificada para combater o crime organizado e as milícias. É integração entre as polícias e valorização dos profissionais da segurança. É educação, cultura, esporte e oportunidades para a juventude antes que o crime organize o território. É uma política nacional de enfrentamento ao feminicídio, protegendo mulheres antes que a violência se torne irreversível. Quem governa pelo medo transforma a violência em instrumento político. Quem governa para o povo protege a vida.
O crime organizado não tem seus centros de poder localizados nas periferias. Ele se estrutura a partir de economias ilegais que movimentam recursos, se alimentam de redes de lavagem de dinheiro, corrupção e relações de poder que atravessam diferentes setores da sociedade, principalmente as elites. Enquanto comunidades negras e populares sofrem com operações violentas e mortes em massa, estruturas criminosas ampliam sua atuação, disputam mercados e buscam espaços dentro das instituições.
A política de guerra às drogas, mantida há décadas, não trouxe segurança. Ao contrário, produziu encarceramento em massa, fortaleceu organizações criminosas e atingiu principalmente a juventude negra e as populações periféricas, sem enfrentar as economias ilegais que sustentam o crime organizado. A questão das drogas precisa ser tratada como um tema de saúde pública, com políticas de prevenção, cuidado, tratamento e redução de danos, substituindo uma lógica de punição e abandono por uma política pública capaz de proteger vidas e enfrentar os impactos sociais relacionados ao uso problemático de substâncias.
A classificação de organizações criminosas brasileiras como “narcoterroristas”, defendida pela extrema direita trumpista, não contribui para enfrentar o problema e ainda ameaça a soberania brasileira ao abrir caminho para intervenções e soluções impostas de fora. O combate ao crime organizado deve ser conduzido pelo Estado brasileiro, com inteligência, responsabilidade e compromisso com a proteção da vida.
O Brasil também vive uma epidemia de violência contra as mulheres. O feminicídio é a expressão mais brutal de uma sociedade marcada pelo machismo, pelo patriarcado e pela tentativa de controlar os corpos, as escolhas e as vidas das mulheres. Mulheres continuam sendo assassinadas por serem mulheres, muitas vezes dentro de suas próprias casas e por pessoas com quem mantinham relações de afeto. Cada feminicídio é uma vida interrompida e uma denúncia da falha do Estado em garantir proteção, autonomia e segurança.
O avanço da cultura de ódio, do autoritarismo e da desvalorização dos direitos humanos fortalecida pelo bolsonarismo agravou um ambiente de tolerância à violência de gênero e à discriminação. Enfrentar os feminicídios exige fortalecer a rede pública de proteção, ampliar serviços especializados, garantir medidas protetivas, promover políticas de prevenção e construir uma sociedade baseada na igualdade.
A violência contra a população LGBTQIAPN+ também revela os limites de uma sociedade que ainda convive com a intolerância e a exclusão. Os crimes de ódio e assassinatos seguem acometendo a vida de pessoas da comunidade, em especial das pessoas trans. Embora avanços importantes tenham sido conquistados, como o casamento e o nome social, o Brasil ainda possui poucos direitos LGBTQIAPN+ assegurados em lei, e a criminalização de condutas discriminatórias, embora necessária, não é suficiente para proteger pessoas vulnerabilizadas. Pessoas LGBTQIAPN+ seguem sendo expulsas das casas de suas famílias, seguem sendo o foco do pânico moral alastrado pela extrema direita. A garantia de uma vida segura exige políticas públicas permanentes, educação para a diversidade e contra o bullying, moradia, assistência e políticas de saúde para todas as pessoas, combate à discriminação e um Estado comprometido com a dignidade de todas as pessoas.
O nosso compromisso é com uma política nacional de segurança baseada em inteligência, investigação, prevenção e coordenação entre União, estados e municípios, voltada ao combate às milícias e ao crime organizado; políticas permanentes de enfrentamento ao feminicídio e à violência contra mulheres; valorização dos profissionais da segurança pública; controle rigoroso das armas e investimentos sociais capazes de valorizar os territórios por meio de quem vive neles. Porque nenhuma democracia será completa enquanto o medo continuar determinando quem pode viver, circular e sonhar.
VII. A cidade pertence a quem vive nela
As cidades de hoje roubam horas do nosso tempo no trânsito. Roubam o convívio entre pais e filhos. Roubam o descanso de quem atravessa a cidade para trabalhar. Roubam o direito de caminhar com segurança, respirar um ar mais limpo, brincar em uma praça ou simplesmente encontrar os amigos sem que isso custe uma parte enorme do orçamento familiar.
O Brasil é feito justamente no chão das cidades, onde se produzem encontros, memórias, trabalho, cultura e sonhos. Mas para milhões de brasileiras e brasileiros, viver a cidade ainda é uma experiência marcada pela desigualdade. O bairro onde se mora, a renda que se tem e o preço da passagem definem quanto tempo sobra para viver, conviver participar da vida urbana.
Por isso, a mobilidade não é apenas uma questão de deslocamento: é uma condição para exercer direitos. Quando trabalhadores e trabalhadoras passam horas no transporte público, quando jovens deixam de acessar oportunidades, quando famílias precisam escolher entre pagar a passagem ou outras necessidades básicas, a própria cidade se torna mais desigual. Há décadas, o transporte coletivo é submetido à lógica do lucro, transformando um direito essencial em mercadoria.
A cidade não pode continuar sendo organizada para os carros, para a especulação imobiliária ou para quem transforma o solo urbano em mercadoria. Ela precisa voltar a ser organizada para as pessoas. O direito à cidade significa morar perto das oportunidades, acessar cultura, lazer, educação e saúde, deslocar-se rapidamente e ocupar os espaços públicos como lugares de convivência e democracia.
Nenhuma família deveria escolher entre pagar a passagem ou comprar comida. Por isso, a tarifa zero é muito mais do que uma política de transporte. É uma política para viver bem. Uma cidade onde as pessoas circulam sem barreiras econômicas é uma cidade onde o trabalho, o estudo, a cultura e a cidadania deixam de depender da renda.
O direito à cidade também exige enfrentar a crise da moradia, recuperar os centros urbanos para quem vive neles, ampliar áreas verdes, fortalecer os equipamentos públicos de bairro e colocar o planejamento urbano acima da especulação imobiliária. As cidades brasileiras precisam voltar a ser lugares onde vale a pena viver.
Nosso compromisso é com a defesa da tarifa zero no transporte coletivo, um grande programa nacional de moradia digna e requalificação dos centros urbanos, que controle o preço dos aluguéis e garanta investimentos em mobilidade sustentável, parques e áreas verdes, equipamentos públicos de bairro e planejamento urbano voltado para reduzir o tempo de deslocamento e ampliar a qualidade de vida. Porque a cidade não pertence aos mapas nem ao mercado. Pertence às pessoas que todos os dias lhe dão vida.
Diretório Nacional do PSOL
18 de julho de 2026

