Em discurso no plenário da Câmara, nesta terça-feira 22, o deputado Ivan Valente criticou a visita do presidente norte-americano, Barack Obama, ao Brasil, no final de semana, e principalmente o fato de Obama ter autorizado os ataques à Líbia quando estava em território brasileiro. “Denunciamos o cinismo e o desacato que é essa intervenção feita pela OTAN na Líbia, e feita do Brasil, vergonhosamente”.
Leia a íntegra do discurso de Ivan Valente.
Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, neste final de semana, enquanto o presidente Barak Obama desfilava sua aparente simpatia em visita ao Brasil, os Estados Unidos e seus aliados, com o aval da ONU, iniciaram mais uma intervenção militar. Agora na Líbia de Muamar Kaddafi, até pouco tempo considerado um parceiro econômico dos Estados Unidos e demais países ocidentais interessados no petróleo do mundo árabe. A coalizão liderada pelos Estados Unidos, que inclui ainda França, Inglaterra, Itália, Canadá e outros países satelizados, atua supostamente para proteger a população civil dos ataques do regime de Kaddafi. Mas já há dezenas de civis atingidos pelos primeiros bombardeios. E por que não há também uma intervenção militar para deter o banho de sangue no Bahrein, na Arábia Saudita ou no Iêmen, onde em uma única manifestação as forças armadas mataram 40 civis?
Porque na Líbia a intervenção pode aumentar a capacidade dos Estados Unidos de influenciar na resolução política da crise, resultando num novo governo que proteja seus interesses na região. O fato é que a história da Líbia se diferencia consideravelmente da dos países recentemente tomados por protestos populares. Ao contrário de Tunísia, Egito e Iêmen, a base política da Líbia vem de uma revolução antiimperialista e anti-monárquica de 1969, que recusou o capitalismo e levantou a bandeira do “Estado de bem-estar e de justiça”.
No primeiro ano da revolução foram nacionalizados o petróleo e todos os recursos naturais. Com a renda do petróleo, o país se desenvolveu. As bases militares da Inglaterra e dos EUA também foram retiradas do território, e a Líbia desenvolveu uma relação de amizade com a URSS e outros países então socialistas – enquanto os regimes na maioria dos países árabes conduziam uma política externa benéfica aos EUA e aos aliados na OTAN. Por duas décadas, a Líbia sofreu sanções econômicas por ser acusada de ligação com o “terrorismo internacional”.
As sanções só foram removidas em 2005, quando Kaddafi também entrou na “luta contra o terrorismo” e ajudou a Europa a conter imigrantes africanos indesejados, tornando-se homem de confiança do Ocidente. Tais agressões não incomodaram as grandes potências e suas corporações transnacionais, ávidas para fazer negócios com Kaddafi. Líderes da França, Inglaterra e Itália, que agora serve de base para os ataques da OTAN, até outro dia pousavam para fotos com o governante líbio. No ínterim da lua-de-mel com Kaddafi, o cinismo dos dirigentes das potências internacionais foi tamanho a ponto de não se importarem com a violência perene, a crueldade e o totalitarismo que passaram a caracterizar o regime líbio.
O problema é que, apesar das mudanças econômicas, a estrutura política seguiu crítica ao imperialismo internacional, e a Líbia diversificou seus parceiros externos. Tudo muito incômodo para os Estados Unidos. Foi quando a conjuntura na região se tornou favorável para concretizar a antiga idéia de colocar fim, via intervenção militar, a um regime não subserviente ao Ocidente, mas também cruel com seus oponentes internos e incapaz de garantir os anseios e expectativas de seu povo. Os ingredientes para justificar um ataque estavam reunidos.
A situação na Líbia é tão diversa dos demais países da África árabe que, em vez de manifestantes atirando pedras como na Praça Tahir, no Cairo, as cenas na Cirenaica líbia, além de protestos populares, também mostram soldados rebeldes muito bem armados e até faixas onde se lê, em inglês, “Petróleo para o Ocidente”.
É uma conjuntura complexa, numa dura batalha interna, cujo destino cabe ao povo líbio decidir, em respeito à autodeterminação dos povos. Não queremos que a Líbia seja palco de mais uma guerra promovida pelos Estados Unidos “em nome da liberdade e da democracia”, tão defendidas por Obama em sua visita ao Brasil. A democracia na Líbia deve ser conquistada e garantida por seu povo. Cabe a nós brasileiros e à comunidade internacional apoiarmos a causa, mas sem fechar os olhos – sob o risco de vermos repetidos os erros de uma guerra recente na região – aos interesses que movem as peças do tabuleiro político-econômico global.
Neste sentido, o governo Dilma deveria ter condenado de imediato a declaração de guerra feita por Obama à Líbia em território nacional. O Brasil silenciou para não incomodar seu hóspede ilustre e se transformou em mais um palco para a afirmação de Obama como liderança mundial. A postura festiva do governo brasileiro estendeu tapete vermelho ao chefe de Estado de um país que guia sua política externa pela lógica imperialista de sempre.
Em nome da luta contra o terrorismo, os Estados Unidos continuam invadindo países e agredindo povos, com a intensificação da guerra no Afeganistão, a manutenção das tropas da OTAN nesse país e no Iraque, o apoio à política genocida de Israel contra o povo palestino, e agora os ataques à Líbia. Na América Latina, a política não mudou. Segue o bloqueio a Cuba, a negativa em cumprir a promessa de acabar com o campo de concentração em Guantánamo, o apoio ao governo golpista em Honduras, com direito à construção de duas novas bases militares no país.
O PSOL repudia os ataques internacionais à Líbia, que comprovam que muito pouco mudou no centro do imperialismo norte-americano. Fora OTAN da Líbia, em respeito à autodeterminação dos povos!
Muito obrigado.
Deputado Federal Ivan Valente
PSOL-SP

