O 5º Congresso Nacional do PSOL, de forma bastante majoritária (acho que perto de 90% do plenário) aprovou uma clara resolução sobre a crise que o país atravessa. No texto, construído pela nossa combativa bancada, discutido no Diretório Nacional, resenhado pelo bravo deputado Chico Alencar e, finalmente, acolhido pelos delegados eleitos pela base, está dito que somos contra o impeachment, queremos que Eduardo Cunha seja cassado e que nos manteremos fazendo oposição de esquerda ao governo Dilma, combatendo o ajuste fiscal. Literalmente o Congresso aprovou que “destituir Dilma, a cujo governo antipopular nos opomos, para colocar em seu lugar Michel Temer (PMDB), significaria aprofundar “uma ponte para o futuro” que é mera continuidade do presente, pavimentada pelos materiais do privatismo puro e duro”. E que “as saídas da crise só virão com ampla mobilização popular em torno de reformas profundas, que instituam um novo modelo econômico, soberano, igualitário e ambientalmente sustentável”.
Ontem, exercendo seu direito como cidadã e liderança política, a companheira Luciana Genro expressou a posição dela e de seu agrupamento, a qual é contra o impeachment e luta por eleições gerais em 2016. Durante o Congresso tivemos ainda um posicionamento bastante minoritário que propunha que o eixo fosse “Fora todos”, ou seja, apoiava indiretamente o impeachment e pedia a retirada de todos do poder (pressupunha talvez a existência de condições para que o povo trabalhador fizesse uma insurreição na virada do ano ou coisa semelhante).
Faço parte da geração que foi às ruas para que a ditadura caísse, protestou contra o acordão que levou Tancredo Neves ser eleito no colégio eleitoral (depois acordamos com Sarney na Presidência). Queríamos constituinte exclusiva e tivemos que travar a batalha por mais direitos numa constituinte meia-boca. Arrancamos muitas vitórias, mesmo assim poderiam ter sido maiores, o clima de efervescência era grande, muitas mobilizações progressistas em todo o país. Confesso que fiquei muito insatisfeito com o conseguido na Carta de 1988.
De lá para cá a correlação de forças não melhorou. É verdade que logo depois quase Lula se elegia presidente (acho que em 1989 seu governo teria sido mais à esquerda do que o foi posteriormente). E completamos 27 anos brigando para cumprir o que tem de avançado na Constituição (como bem lembrou Jean Wyllys) e ultimamente para impedir seguidos retrocessos no texto (vide questão indígena, redução da maioridade penal, etc).
Acho que nesta polêmica existe um medo de se misturar. Explico melhor:
- Somos contra o governo Dilma. É difícil encontrar militante de esquerda sincero e sério que encontre pontos defensáveis em seu governo. Acontece que combater o impeachment é defender que ela continue no governo e isso mexe com a cabeça de parte da esquerda.
- Ser contra o impeachment não basta no momento, será necessário ocupar as ruas, disputa-las com as marchas conservadoras e reacionárias. Será necessário escolher com que segmento social vamos interagir. É lógico que manter distância do PT, partido que não é nem a sombra do que foi na década de 80/90, é mais cômodo.
- Mas combater o impeachment significa marchar com todos os que concordam com esta bandeira. É claro que não iremos às ruas para defender o que Dilma anda fazendo no governo (aplicando tudo que disse que não ia fazer, cumprindo programa do Aécio todos os dias) e devemos demarcar claramente (na medida do possível) que somos oposição ao ajuste e contra o golpismo (tem gente no partido que não gosta de usar esta palavra, mas não encontro outra para o que a direita dirigida por Cunha está fazendo todos os dias) ao mesmo tempo.
Fui às ruas contra a ditadura junto com o MDB. Fui às ruas pelas Diretas Já com Tancredo e Ulisses no palanque. Fui às ruas para tirar o corrupto Collor com todos os que toparam fazê-lo.
Não vejo motivo para ficar em casa ou arranjar desculpas para não marchar contra o impeachment. Como diz a resolução do 5ºCongresso Nacional, não irei às ruas para defender o governo Dilma, mas marcharei com todos que quiserem para evitar que Temer chegue à Presidência e acelere sem travas um retrocesso nos direitos, aplique de forma mais decidida o pacote de ajuste.
Seria favorável a uma nova constituinte se a correlação de forças assim indicasse. Sou contra convocar eleições gerais para 2016. Aécio e os tucanos defenderam isso no início do ano. Na prática, a proposta de Luciana (mesmo que não ache sinceramente que esta tenha sido sua intenção, pois conheço seus compromissos revolucionários) é semelhante a que FHC propôs no início do ano. Se não passa o impeachment a única forma de ter eleições gerais é Dilma renunciando. Quem ganharia com esta antecipação na atual conjuntura? Somente o mais otimista chegaria à conclusão de que seria a esquerda. Neste sentido, eleições antecipadas possui uma linha de ligação com o “fora todos”.

