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No Uruguai, está se construindo a autêntica alternativa de esquerda, afirma deputado

Do PSOL Nacional, Leonor Costa

Eleito deputado federal nas últimas eleições uruguaias, no final de 2014, o marxista-leninista Eduardo Rubio é o único representante da Unidade Popular no Parlamento, se colocando como oposição de esquerda ao governo de Tabaré Vásquez, que assumiu recentemente o cargo máximo do país em mais um mandato da Frente Ampla. Integrante do Movimento 26 de Março, o deputado promete ser a voz de uma grande parcela da população insatisfeita e que vem sendo vítima de sucessivos governos, que ele mesmo chama de neoliberais. A tarefa da Unidade Popular, segundo Rubio, é pautar “o ponto de vista da esquerda em todos os temas”.

Em entrevista à imprensa do PSOL, o deputado uruguaio caracteriza o governo do novo presidente como uma continuidade do governo de José Mujica, agora senador pela Frente Ampla. Grande conhecedor do projeto político do grupo que está à frente do país vizinho pelo terceiro mandato consecutivo, uma vez que ele mesmo é egresso da Frente Ampla, organização a qual integrou de 1971 até 2008, Rubio considera que houve apenas uma mudança de estilo, mantendo-se, no entanto, a mesma política. “Uma política de absoluta subordinação aos ditames do FMI, que desnacionalizou 46% da terra e concedeu as maiores regalias ao capital financeiro e aos investimentos estrangeiros”.

Por claras diferenças ideológicas e divergências na condução do governo, o Movimento 26 de Março decidiu se retirar da Frente Ampla ainda em 2007. E Eduardo Rubio foi uma das principais lideranças desse rompimento, tendo sido o representante do seu movimento no processo que culminou na criação da Unidade Popular, em 2013.

Em relação ao ex-presidente José Mujica, mesmo com toda a popularidade conquistada ao longo dos anos Rubio não vacila ao apontar os problemas e os motivos que levam o seu partido a fazer forte oposição à esquerda. “Durante os governos de Vazquez e Mujica se produziu o maior processo de desnacionalização e concentração da terra que o país tem vivido. O impulso do agronegócio em mãos das multinacionais tem gerado o maior nível de saque, deterioração dos recursos naturais que o Uruguai já viveu em toda sua história”, pontua.

Confira abaixo a entrevista completa que o deputado concedeu ao site do PSOL.

Você foi o único deputado federal eleito pela Unidade Popular nas últimas eleições uruguaias. Quais são as principais propostas de seu mandato para os próximos anos?

Eduardo Rubio: Para a Unidade Popular, a conquista de um lugar no parlamento nacional significa uma grande vitória política. Quando rompemos com a Frente Ampla durante o primeiro mandato de Tabaré Vázquez, muitos dirigentes daquele partido previram nosso desaparecimento em poucos meses. A vida demonstrou, no entanto, que não só não desaparecemos, como nos consolidamos como a única alternativa política de esquerda no Uruguai. Isso não quer dizer que tanto dentro da Frente Ampla como fora dela não haja militantes de esquerda. O que queremos dizer que como projeto político real só a Unidade Popular levanta um programa autenticamente anti-imperialista e popular.

Neste marco, nossa principal tarefa em nível parlamentar é colocar no debate o ponto de vista da esquerda em todos os temas. Em particular naqueles que têm a ver com a política econômica, a política internacional, a política de direitos humanos.

Também é tarefa fundamental transladar ao debate parlamentar os problemas concretos das pessoas (habitação, saúde, salário), assim como as reivindicações do movimento social. Nessa linha de trabalho temos apresentando uma série de projetos de lei que refletem essas necessidades e ao mesmo tempo expressam as definições programáticas da Unidade Popular. Em matéria de direitos humanos apresentamos o projeto para anular a Lei de Impunidade (lei aprovada no fim da ditadura militar e que impediu a investigação das violações aos direitos humanos durante todo o período ditatorial). Estamos apresentando um projeto de lei para a execução de um Plano Nacional de Habitação Popular e outros projetos vinculados à defesa da soberania e à defesa dos recursos naturais e meio ambiente.

Nos próximos meses se dará a discussão do orçamento nacional para estes próximos cinco anos. E nesse tema daremos a grande batalha pela educação, a saúde, os salários e as aposentadorias.

O presidente Tabaré Vasquez assumiu, no dia 2 de março, o terceiro mandato pela Frente Ampla na Presidência do país. As perspectivas dos movimentos sociais e populares não são as melhores e acreditam que a situação deve piorar em relação ao seu antecessor, José Mujica. Como será atuação da Unidade Popular, em especial o Movimento 26 de Março, frente ao governo Vasquez?

E.R.: No essencial, o governo de Vázquez é uma continuidade do governo de Mujica. Mudam os estilos, mas se mantém essencialmente a mesma política. Uma política de absoluta subordinação aos ditames do FMI, que desnacionalizou 46% da terra e concedeu as maiores regalias ao capital financeiro e aos investimentos estrangeiros.

Nossa posição é de clara confrontação com este modelo, que graças à agudização da crise que vive a região, se tornou mais regressivo.

Em relação ao ex-presidente Mujica, muitos consideram que foi um grande líder, já outros avaliam que, apesar de ter tido iniciativas progressistas e de fazer críticas ao capitalismo, ele não enfrentou efetivamente a desigualdade econômica no país. Como você avalia o mandato dele?

E.R.: O ex-presidente Mujica tornou famosa uma frase que sem dúvida define claramente suas ações: “como te digo uma coisa, te digo outra”. Poderíamos agregar: como te digo uma coisa, faço a outra. Como dizíamos anteriormente, durante os governos de Vazquez e Mujica se produziu o maior processo de desnacionalização e concentração da terra que o país tem vivido. O impulso do agronegócio em mãos das multinacionais tem gerado o maior nível de saque, deterioração dos recursos naturais que o Uruguai já viveu em toda sua história. A dívida externa duplicou em relação ao último governo do Partido Colorado, apesar de terem sido pagos religiosamente os juros da mesma.

O salário real, no melhor dos casos recuperou o nível que tinha antes da crise do ano 2002. E as aposentadorias e pensões são de miséria. A educação pública se deteriorou notoriamente com a contrapartida da educação privada. O mesmo podemos dizer da saúde.

Como está hoje a situação de grande parte da população uruguaia, em relação às condições econômicas da classe trabalhadora, ao acesso às escolas e universidades e à saúde pública? E qual o maior problema?

E.R.: Nos últimos anos a economia uruguaia teve o vento a seu favor, assim como os países da região em virtude de uma conjuntura favorável pelo alto preço das matérias primas que exportamos e pelo fluxo do capital pirata especulativo. Isso permitiu dissimular as graves carências do modelo e amortizar algumas contradições. Quando desaparecem essas condições externas favoráveis, o modelo totalmente dependente entra em crise. Hoje cresce o desemprego, fecham-se fábricas e os industriais anunciam que deverão diminuir os salários. Neste contexto é previsível que a desocupação siga crescendo, junto à precariedade do trabalho e os salários de fome. Devemos ter em conta que o custo de vida no Uruguai é muito alto.

Vivemos um processo acelerado de deterioração do sistema educativo público provocado pela falta de recursos, que afeta diretamente o salário docente, e também pela aplicação de programas educativos impostos pelos organismos internacionais, que vão consolidando cada dia mais uma educação para ricos e outra para os pobres. Em matéria de saúde o programa aplicado pelos governos da Frente Ampla tem favorecido notoriamente o empresariado médico, em detrimento do sistema de saúde pública.

Como é a relação hoje do Uruguai com o Fundo Monetário Internacional e com governo de Barack Obama, dos EUA? E, na sua avaliação, como será agora no governo de Tabaré Vasquez?

E.R.: Uma das primeiras ações do primeiro governo de Frente Ampla com a presidência de Tabaré Vázquez foi assinar uma “Carta de Intenções” com o FMI, que reafirmava o compromisso de dependência que tinham os governos de direita tradicional. Durante os governos da Frente Ampla, tanto de Vázquez como de Mujica, a relação com os organismos financeiros internacionais fluiu muito bem. Nos governos da Frente Ampla o país se submeteu às políticas que esses organismos costumam impor: abertura da economia ao investimento estrangeiro direto, assinatura de tratados de proteção a investimentos, o TIFA e agora o TISA e, no mesmo caminho, o TLC com a União Europeia à margem do Mercosul.

A relação com o governo dos Estados Unidos, tanto com Bush como com Obama, tem sido uma prioridade para os governos da Frente Ampla. A visita de Bush ao Uruguai durante o governo de Vázquez, por mais de dois dias, marcou o rumo da política internacional dos governos frenteamplistas. Não em vão o Departamento de Estado manifestou várias vezes que o Uruguai é um aliado dos EUA na região.

Faz alguns dias, numa reunião do American Council realizada em Montevidéu, o presidente Vázquez reafirmou que as relações com os EUA são uma prioridade para o governo uruguaio.

Por fim, para você quais são os desafios da esquerda revolucionária do Uruguai, bem como das organizações sociais populares, nesse período que se inicia com mais um governo da Frente Ampla?

E.R.: O principal desafio da esquerda e das organizações sociais segue sendo a construção de uma autêntica alternativa popular, antiimperialista e de esquerda.

A luta contra o saque dos recursos naturais e a destruição do meio ambiente nas mãos das multinacionais do agronegócio, assim como a luta pela terra, nos dá uma ampla margem de alianças sociais para ampliar a base da resistência e, ao mesmo tempo, construir essa alternativa popular. A luta contra as privatizações e em defesa da soberania junto com a luta pelo salário e as aposentadorias, serão eixos principais do movimento popular.

No plano das organizações sociais temos o desafio de desalojar as direções oficialistas que têm transformado suas organizações em legitimadoras sociais do projeto neoliberal do governo da Frente Ampla. Diante do avanço da crise começam a surgir em todos os âmbitos da luta social alternativas que expressam a resistência ao modelo, assumindo a defesa dos interesses populares.

Vivemos uma época complexa e, sem dúvida, com muitas dificuldades a superar. Mas não restam dúvidas que tanto no campo político como no campo da luta social está construindo-se a autêntica alternativa da esquerda.

Tradução: Juliano Medeiros, Secretário Nacional de Comunicação do PSOL.

 

 

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