A conjuntura atual é marcada pela crise do capitalismo, o que tem resultado, em várias partes do mundo, em um conjunto de políticas, denominadas de “ajuste”, com o objetivo de alargar as condições para a reprodução ampliada do capital. Essas políticas são implementadas de forma desigual entre os países e regiões do mundo e possuem um impacto maior na periferia do capitalismo, com o aprofundamento do caráter dependente das economias, o aumento da superexploração da força de trabalho e a ampliação das desigualdades sociais.
No caso brasileiro, testemunhamos um ataque brutal aos direitos (historicamente restritos), a partir de medidas conservadoras que visam mercantilizar as necessidades humanas e transformar as políticas sociais em serviços mercantis. Embora essas tendências não sejam restritas ao governo Bolsonaro, o projeto em curso no país revela, sem disfarces, o caráter autoritário e genocida do Estado visando a expansão do setor privado através da criação de novos espaços de acumulação e valorização, como a mercantilização dos direitos, a liquidação das empresas estatais, a entrega das nossas terras e da nossa biodiversidade.
A despeito das consequências dessas medidas serem de todos/as os/as trabalhadores/as, a conta da crise é paga de forma particular pela parcela mais oprimida e superexplorada, no Brasil, as mulheres negras. Estas são as principais usuárias dos serviços públicos, portanto as mais afetadas pela isenção do Estado na garantia dos direitos.
Os dados nacionais são ilustrativos da brutalidade na base da hierarquia social e reveladores de como o consórcio raça, classe e gênero estruturam as relações capitalistas violentas e desumanizantes. Por exemplo, em 2015, as mulheres negras representavam 58,86% das vítimas de violência doméstica, 53,6% das vítimas de mortalidade materna; 65,9% das vítimas de violência obstétrica; 68,8% das mulheres mortas por agressão e 56,8% das vítimas de estupros. Em 2017, as mulheres negras já representavam 63,2% das desempregadas no Brasil.
Essas desigualdades não são apenas reminiscência de mais de trezentos anos de escravidão, elas são reatualizadas como meio de ampliar a exploração, a segregação e a dominação, especialmente em tempos de crise do capital. Por isso, as lutas contra o ajuste e que se pretendem anti-sistêmicas devem incorporar no centro de suas pautas o combate ao racismo e ao sexismo.Sabemos que o projeto em curso tem por objetivo o nosso aniquilamento. Mas, os nossos passos vêm de longe. Resistimos à escravidão, às políticas de branqueamento, às tentativas de apagamento, de silenciamento e de controle. “A gente combinamos de não morrer” (Conceição Evaristo).
Camila Valadão
Assistente social, professora e militante do PSOL Espírito Santo

