Cristina Portella, da Carta Maior
Durante o II Congresso Internacional Karl Marx, o filósofo grego Stathis Kouvelakis, dirigente do Syriza (Coligação da Esquerda Radical), afirma em entrevista que a brutalidade das políticas de austeridade aplicadas na Grécia é superior a dos demais países europeus e que existe uma corrida entre as alternativas progressistas, como a do Syriza, e as soluções autoritárias.
Nenhum país europeu, como a Grécia, teve uma contração de 27% desde o início da atual crise, nem reduziu em 40% os custos do trabalho, a cifra assustadora que demonstra o ponto a que chegaram as terapias de choque neoliberais.
Disse que a Grécia é um caso limite na Europa. Pode explicar?
O capitalismo na Grécia é mais frágil, o nível de resistência social à política de austeridade foi também mais alto, e, por isso, a brutalidade destas políticas foi também superior. Isto tornou a Grécia um laboratório para a aplicação da terapia de choque nos países europeus ocidentais avançados. Esta foi a única novidade. O que está a acontecer na Grécia é muito bem conhecido por alguém que venha da América Latina, por exemplo, onde o FMI implementou este tipo de políticas. A diferença é que é a primeira vez que são postas em prática no contexto europeu ocidental.
A Grécia é o laboratório em nível europeu, e é também por isso que revela o verdadeiro papel das instituições européias e da União Europeia, a função do euro e da Zona Euro no contexto atual da financeirização, e também a forma como a democracia e os direitos sociais básicos estão a ser completamente negados.
Este processo levou a uma polarização e àquilo que o senhor caracterizou como o colapso do Estado grego.Quais são as consequências políticas?
São devastadoras. Todo o antigo sistema político desapareceu, um pouco da forma como o velho sistema político boliviano ou venezuelano desapareceram depois do choque das reformas neoliberais. Para além disso, há fenômenos de profunda desintegração do Estado, tanto na sua dimensão social e dos serviços públicos, como também no núcleo do Estado, incluindo o aparelho repressivo, o próprio Exército, que também foi atingido pelo atual processo de contração da atividade e também pelos cortes orçamentais.
Há uma atmosfera geral de que a autoridade o Estado já não se sustenta, e isto cria situações absolutamente explosivas na Grécia. E muito contraditórias. Temos as explosões de revolta popular e de resistência – assistimos a movimentos que não se viam na Europa desde os anos de 1970. Há uma radicalização política tanto na esquerda quanto na direita, e a ascensão pela primeira vez, no contexto da Europa ocidental, de um movimento fascista, com apoio real em certos setores da sociedade, e também com a capacidade de infiltrar-se em certos setores do Estado, e até da polícia, como vimos recentemente.
E quanto ao Syriza?
O Syriza é o desembocar de todo este processo de revolta popular, de resistência e de recusa da política de austeridade. É a única esperança de alternativa progressista que, como sabe, perdeu por pouco as eleições do ano passado. Há duas formas de ver as coisas: o primeiro é que já é uma grande conquista o fato de aparecer como um sério candidato a chegar ao poder, é a primeira vez na Europa do pós-guerra que uma força da esquerda radical aparece em posição de chegar ao governo; mas, por outro lado, é verdade que foi derrotado, apesar de por pouco, e isto teve um efeito desmoralizador para todos os que achavam que tinha chegado o momento de romper com a situação atual.
Por isso os tempos são muito duros, porque foram implementadas as mesmas políticas, a sociedade está ainda mais traumatizada do que há um ano e meio, os fascistas tornaram-se a terceira força política do país e penso que, no laboratório grego, existe uma corrida entre as alternativas progressistas, como a do Syriza, ou soluções extremamente perigosas e autoritárias, como as defendidas não só pelos fascistas, mas também por todo um setor do Estado e das forças políticas dominantes que, desesperadas pelo beco sem saída a que chegou a situação que criaram, são tentadas por um caminho radicalizado e autoritário.
Existe a possibilidade de um golpe de Estado?
Não, porque não creio que o problema na Grécia seja o Exército. Creio que o que provavelmente chega mais perto disso é uma estratégia de tensão, na qual setores linha-dura do Estado – mais na polícia e nas forças de segurança que no Exército – e setores da elite política, implementem a sua solução autoritária, provavelmente mantendo a fachada do regime parlamentar, eleições etc. Mas esse regime seria uma espécie de concha vazia, e no seu lugar fi caria um Estado muito controlado e autoritário, claramente muito diferente do tipo de coisas que vimos até há pouco.
Podemos esperar uma futura vitória eleitoral do Syriza?
Para nós, o que é absolutamente urgente agora é derrubar o atual governo. Não podemos esperar pelo processo parlamentar normal. Usamos todas as nossas forças para reforçar a resistência e os movimentos populares, queremos reforçar o espírito de resistência, oferecendo uma alternativa e provocando, o mais cedo possível, novas eleições com a esperança de que se elas chegarem no contexto de um ascenso do movimento popular, se abra uma nova possibilidade de constituir-se um governo progressista de esquerda. Porque, evidentemente, enfrentaremos uma enorme reação tanto interna quanto internacionalmente, e sem mobilização popular não conseguiremos implementar o nosso programa.

