Essa é a questão que urge ser respondida. É em função dela que objetivamos contribuir ao participar da polêmica sobre a suposta “reorganização política e surgimento destes movimentos”. Pois, a meu ver, a ideia de “reorganização politica”, tal como vem sendo vinculadas por alguns grupos, têm na prática contribuído para desviar a questão central em pauta. Que é o “fenomenal” comprometimento da massa juvenil africano, com as questões sociopolíticas em nossos países.
Partindo desse princípio, “cujo protagonismo nos compete”, não podemos apontar apenas a minoria juvenil; esta ou aqueles como a vanguarda e a base das ideias reformistas. Há outras forças políticas que também a defendem, inclusive forças políticas que fazem “esquerda” emergir em meio a caos, uma oposiçâo que tem propostas de mudanças orientadas por ideias revolucionárias e não sanguinárias como os lunáticos e fanáticos no poder têm apregoado. Como os pressupostos fundamentais as quais partem todas essas forças são os mesmos, e os mesmos são discutidos aqui, consideremos que, apesar das diferenças que existem entre nós, estamos dialogando na verdade com toda uma corrente de pensamento que se identifica com a ideia central, da qual todo sujeito oprimido faz parte e nos angolanos mais ainda.
Na mesma perspectiva, reforço que, nosso objetivo é discutir ideias e perspectivas de rupturas-politicas – e, portanto, defender certas ideias e combater certas ideias, defender certas condutas e combater certas condutas, mas não este ou aquele partido. Ser duro no debate de ideias não é ser sectário. O sectarismo é a negação da presença dessa ou daquela força política no movimento, e o não reconhecimento de seu lugar no movimento, e evidentemente não se trata disso aqui.
A provar que a “reorganização do movimento” é concreta, se materializa quando, vislumbramos uma grande corrente no seio da sociedade. O fato é de que as lutas passam a ser fomentadas por diversos “atores sociais”, a começar pela mídia privada e as redes sociais. Ao mesmo tempo, vale salientar que um movimento na sua efervescência sem direção, assume um suposto caráter unilateral, no qual a inexistência de direção e projeto determina todo seu fracasso. Portanto, se algumas forças e instituições nos atribuem à ideia de “aventureiros ou movimento sem direção” de um caráter unilateral – pelo menos – é porque essa ideia de fato tem para estas forças este caráter, mesmo que seja mínima.
Embora alguns companheiros e companheiras das redes sociais se esforcem em propagandear a existência de um movimento dessa natureza, o fato é que ele ainda não existe. Prova disso é que reconhecemos isso quando afirmamos, que tratar-se apenas de uma minoria do movimento combativo que assumiu o compromisso de massa. A base real para a criação de movimentos populares capaz de articular nacionalmente as lutas vislumbra-se na necessidade de um movimento de massas que sinta essa necessidade e que defenda isso na sua prática. O que ocorre na verdade é que muitos querem que exista um movimento dessa natureza, e lançaram o slogan achando que dessa forma o movimento imergiria entre as massas. Creio que ainda não atingimos este patamar. Mas não podemos desconsiderar as novas expressões e forças que se levantam nós espaço alternativo.
Essas contradições ocorrem porque se mistura a análise subjetiva da realidade (…) com a expressão da própria vontade. Ou seja, ainda não há um movimento de massas no sentido de romper com atual ESTADO e criar uma nova entidade, o que vivemos ainda é a vontade de algumas forças políticas de se posicionar contra as atrocidades deste Estado, idealizando outro. Embora seja um elemento necessário da luta política, a vontade não determina a realidade. “Os homens fazem a história, mas não fazem como querem, e sim de acordo com as condições que lhe são impostas”. E as condições para a realização da vontade dos angolanos não estão dadas e não surgirão “messianicamente”, caso contrário, já teriam surgido com a efervescência das entidades messiânicas que brotam a cada dia no nosso país.
Na verdade, o surgimento de um grande movimento de massas nacional no meio juvenil depende de outras tarefas, que não têm nada de abstracto, mas, ao contrário, são bastante concretas, a começar pelo trabalho de base. E o fato é que a ideologia da “reorganização do movimento”, tal como vem sendo colocada, tem contribuído para desarticular as bases de qual quer movimento e do cumprimento dessas tarefas.
Diante disso, poderíamos pensar que esses movimentos e outros atores estejam então partindo do pressuposto de que todos aqueles que têm “compromisso com as lutas ou não” e que não concorda com o rumo da política angolana – em algum momento vestirão a camisa e as bandeiras de luta a reboque e seguirão as ideias de fulano e ciclano. Mas como não é razoável que uma força política parta deste pressuposto, não acredito que os companheiros e companheiras trabalhem com essas perspectivas.
Nesse caso as articulações nacionais são necessárias e, portanto, devem ser construídas. Não me refiro em articulação no sentido abstrato, pois mobilizar não é organizar. Me refiro ao esforço, levado a cabo por algumas forças, em construir determinadas articulações confusas, que na prática têm escamoteado os reais desafios que devíamos enfrentar. Numa linguagem mais simplória é que precisamos entender que estamos todos no mesmo barco, porém, nem todos remam na mesma direção.
Esse balanço deve ser feito pela prática, afinal, a prática é o critério da verdade: em quantas discussões, reuniões, encontros e passeatas e debates deixamos de discutir temas candentes para discutir MPLA x UNITA ou MPLA x FULANO? E, passados anos, que diferença essa discussão fez na prática? Algum movimento ou partido cresceu? Tem mais base? Está mais coeso? Melhor organizado? Está mais democrático? Menos sectário? Avançou na formação política e ideológica de sua militância? Avançou na relação com outros movimentos sociais? Vendo a realidade como ela é, com objetividade, é forçoso reconhecer que para todas perguntas a resposta é não.
É certo que essa polêmica MPLA x UNITA não foi a única responsável por isso, mas contribuiu e muito por exemplo para INEXISTENCIAS de um MOVIMENTO POPULAR COMBATIVO em Angola e sem falar dos outros partidos que não conseguiram se articular e nem comporem uma frente de oposição ao governo. Perdemos a oportunidade de enfrentar todos estes desafios, mas isso não significa que é o fim.
O questionamento a ser feito é que, se o problema central da não adesão dos JOVENS aos Movimentos Sociais é o MEDO, então naquelas entidades de chapas identificadas como militância juvenil a exemplo da JMPLA, Movimento Espontâneo, entre outros. Será que venceram o medo ou vivem uma realidade transcendente a nossa, afinal, o principal “entrave”, “bloqueio” que permeia a nossa realidade não é o mesmo que os permeia? – No entanto, alguns dirão que não, mas eu prefiro acreditar que não e nem sim. (KK, 2011)
Acredito nisso por dois motivos: primeiro porque nós os jovens angolanos temos inúmeros problemas, de modo que a questão do medo está longe de ser o problema central (e, portanto, a mera substituição da “a-politicos e medrosos” pela “revolucionarios e ativistas combativos” não resolve os problemas (…) nem dos jovens, nem dos demais partidos!).
Segundo porque, temos insistido em cometer os mesmo erros a anos, boa parte desses erros ocorre justamente porque covardemente demos centralidade e subordinamos indiretamente a essas “JMPLAs e companias” o trabalho de base e de representação da juventude angolana. Tudo o que não acumulasse para a construção de uma identidade juvenil era secundarizado, quando não ignorado.
Questões políticas para nós sempre foram assuntos para malucos e militantes partidários. E o resultado disso não poderia ser outro: hoje sentimos na pele os reflexos dessa simbiose. Há uma massa juvenil partidária que confunde politica com partidarismo fanático e dizem ser a juventude angolana engajada na política do país, legitimo ou não, nós temos contribuído para este processo e de vez em quando caímos em suas teias melindrosas.
Cabe então indagar-se? E dar uma resposta proporcional aos ataques? Não, creio que o caminho não seja rebater ou bater de frente. Mas não quer dizer que devemos nos silenciar. Precisamos fazer um balanço dos motivos e os aspectos a serem defendidos. (Quando me refiro à luta esqueça a sua pouca imaginação que o leva a crer que falo de guerra, me refiro a outros meios).
Perdemos tempo porque esta não é uma demanda real nem da base nem da maioria da militância, mas uma demanda imposta por algumas forças políticas, dentre elas o MPLA e as suas artimanhas. Se fosse uma demanda real da base, hoje existiria uma entidade nacional alternativa à JMPLA, com ou sem a participação dos jovens angolanos. Essa polémica só serviu para desgastar os espaços e serem monopolizados por eles. Por causa dessa polêmicas, a oposição e consequentemente a esquerda deixou de construir a unidade de amplos setores em torno de ações capazes de rebater e debater as ações e os ataques desse governo anti-democraticas.
Você pode dizer e afirma que o questionamento que faço “despolitiza o debate”. Ora, qual debate foi mais despolitizado e despolitizante nos últimos 20 anos para o nos angolano do que a “polémica” MPLA x UNITA?! Todos os espaços na midia e não só foram praticamente monopolizados por essa polêmica, e que diferença isso fez no final das contas?! Só contribuiu para desarticular, desorganizar e enfraquecer a sociedade civil angolana! Dificilmente uma polêmica despolitizou tanto o debate na sociedade civil do que essa.
Não se trata aqui de não reconhecer o valor dos outros partidos que deveriam construir a “oposição”. A verdade é que este movimentos nunca existiram, e, no entanto, parece-me que nós jovens temos uma inclinação a hiperdimensionar o próprio valor: caso contrário, onde se quer chegar ao insistir que “o MPLA foi a única que fez isso e fez aquilo”, quando a verdade é que a sociedade angolana foi única, que lutou e vestiu o luto!! Seriamos fiéis à realidade se dissessem que a MPLA foi um dos catalisadores das lutas em defesa do POVO ANGOLANO, fora e dentro do cenário Africano, isso a 45 anos atrás. No fundo, é essa crença narcisista; “eu sou o principal”, “eu sou o único”: a postura de subordinar tudo à autoconstrução.
É legítimo que as forças políticas que atuam como movimento de massa busquem se autoconstruir, mas não é legítimo quando essa autoconstrução se dá na base da ideia de que “o objetivo ao qual tudo deve estar subordinado é o meu fortalecimento, afinal, eu sou a única alternativa, e, portanto, este objetivo deve ser perseguido inclusive às custas do enfraquecimento do movimento” Este tipo de pensamento é um dos desvios mais graves. Quando se parte daí, caminha-se justamente na direção contrária do objetivo maior, que é a construção de um movimento de massas combativo, com base real e articulado nacionalmente. (Portanto, se o objetivo realmente é articular o movimento nacionalmente, a autoproclamação não é o caminho. Ao contrário, só atrapalha).
São muitos os desafios a serem enfrentados pelos movimentos sociais angolanos. A articulação nacional das lutas é um deles, o qual depende do trabalho de base em cada movimento não daquele “trabalho de base” voltado única e exclusivamente para a autoconstrução do partido, mas do trabalho de base que, além do partido, fortalece o movimento, em si, e suas organizações: (Associação de moradores do Bairro A e D, Executivas, Grupo de Revolucionarios A e B, Coletivos Feministas etc )– independentemente de quem seja a gestão é importante que as ideias sejam centradas e fundas em perspectivas do MATERIALISMO HISTORICAS DIALETICAS.
Por isso, é necessário que as forças políticas que atuam no movimento, a começar pelos segmentos JUVENIS, entendam que autoconstrução não precisa vir acompanhada da autoproclamação; que a autoproclamação é um desvio e que é perfeitamente possível cada força se autoconstruir sem se autoproclamar “a melhor”, muito menos “a única”; que entre as forças políticas de esquerda não há uma que seja “a principal”, mas todas contribuem com o movimento (ou pelo menos podem contribuir); que uma força política não pode almejar dirigir sozinha UMA LUTA COLETIVA (seja local, nacional ou internacionalmente), e esperar que a militância independente e as demais forças venham a reboque; e que o melhor caminho inclusive para viabilizar a própria autoconstrução é subordiná-la à construção do movimento e ao fortalecimento do movimento e de suas organizações.
É preciso que todos aqueles que atuam em qualquer MOVIMENTO e que têm compromisso com a luta se conscientizem de que há todo um conjunto de desafios a serem enfrentados, e que o movimento só vai conseguir enfrentá-los quando superar as posturas autoproclamatórias que persistem nele. Porque a meu ver o carácter na nossa sociedade ainda vale menos que uma grade de CERVEJA ou um TOYOTA. E usamos a palavra medo para mascarar o que todos nós já vivemos há anos. Conhecer quem são os nossos e se reorganizar para lutar, faz-se necessário.
Adill Abel é angolano, mora no Brasil e estuda Serviços Sociais na UNITAU (Universidade de Taubaté) no interior de São Paulo. Atualmente cursa mestrado em Ciências Políticas na PUC-SP.


