Prezados companheiros:
Comecei a reconhecer-me como militante de esquerda em 1967. São quase quarenta anos. Quase todo o meu tempo de vida. Nos últimos meses, pela primeira vez, como alguns de vocês já sabem, tenho avaliado a possibilidade de me afastar, mesmo temporariamente. Tenho sentido a necessidade de buscar pontos de vista mais amplos.
A causa é a grave inflexão por que passou a esquerda
brasileira. Em sua história, ela já correu muitos riscos. Em alguns
momentos foi quase eliminada fisicamente. Porém, mesmo em minoria,
mesmo fora de governos, mesmo perseguida, mesmo errando, aqui e em
outros países, sempre concebeu para si um papel de vanguarda
intelectual e moral. Isso foi decisivo para a sua auto-estima e sua
sobrevivência, geração após geração.
A situação, agora, é
inversa: sem saber como enfrentar um processo inédito – a dissolução de
dentro para fora –, a esquerda corre o risco sair da história, mesmo
que continue a existir fisicamente. Pois só mantêm-se, como forças
vivas, movimentos que têm idéias e utopias.
Foi esse o patrimônio que perdemos. Vocês são testemunhas de que paguei alto preço para tentar preservá-lo.
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“Se
Deus não existe”, dizia Dostoiévski, “tudo é possível”. Nos últimos
anos, gradativamente, tudo foi se tornando possível, com a cumplicidade
de muitos, até que chegamos ao fundo do poço.
Hoje, bancos e
empreiteiras fazem repasses milionários, regularmente, para o maior
partido da esquerda brasileira, que passou a depender desses recursos
para sobreviver. Importantes dirigentes atuam abertamente como lobistas
de grandes empresas. Outros recorrem à Justiça para obter garantia do
direito a mentir. O mais poderoso ministro do governo de esquerda, no
exercício do cargo, prostituía meninas. A militância é vista como uma
forma de ascensão social.
Há trinta anos, isso seria
impensável. Há vinte anos, estaríamos diante de escândalos. Há dez
anos, seriam motivos de inquietação e debate. Hoje são apenas fatos da
vida. A traição perdeu a modéstia, e a esquerda passou para a
retaguarda intelectual e moral da sociedade, uma grave inflexão.
Eu não sou desse tempo. E tenho memória. Por isso, retirei-me há mais de dez anos do PT e estou reavaliando caminhos.
Mas
a vida é tinhosa. Justo nesse contexto de recolhimento, tristeza e
reflexão recebi o convite inesperado, que agora vamos debater. Devemos
debatê-lo com o coração aberto, pensando grande.
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O
estatuto de um povo, diante da história, não se resume ao que ele é em
um dado momento. Define-se mais pelo que ele quer ser. Por seu
horizonte de expectativas. Pois isso é que o coloca em movimento. É aí
– e não na política econômica – que está o x da questão, quando
avaliamos Lula e o PT.
Lula rebaixa sistematicamente o horizonte
político e cultural do povo brasileiro, e precisa desse rebaixamento
para se manter no poder. Pois só um povo mediocrizado aceita entregar
sua consciência pelo medo de perder uma bolsa-família de, em média, R$
60,00. Um povo culto e organizado, ou em processo de aprendizado e
organização, conhecedor de seu próprio potencial humano, exigiria muito
mais.
Por deseducar o povo, por desprepará-lo para construir
o futuro – e não, basicamente, pelo nível da taxa de juros –, é que
Lula e o PT são nocivos. Quando forem derrotados – neste ano ou daqui a
quatro anos, não importa –, se a esquerda tiver continuado a ser
cúmplice deles, não ficará pedra sobre pedra. É o grave risco que
corremos, e que vocês subestimam.
Passada essa aventura,
perdidos cargos e verbas – neste ano ou daqui a quatro anos, repito –,
não teremos nem um povo mais consciente, nem quadros mais preparados
para prosseguir a luta, nem uma juventude mais mobilizada, nem
instituições republicanas mais avançadas.
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Sem
idéias a serem multiplicadas, sem exemplos a serem seguidos, sem
coerência a ser cultivada, sem passado a ser lembrado, o lulismo já
agoniza em praça pública. Não falo de Ibope, falo de História. Mas ele
tem na reeleição – ou seja, no manejo de cargos e verbas por mais
quatro anos – a possibilidade de prolongar sua agonia. A dúvida se
resume à forma e ao ritmo da derrocada, bem como ao tamanho do estrago,
já enorme, que deixará. Seja como for, não há mais futuro nele.
Dizia
Marx, na Ideologia alemã, que a fórmula da ideologia havia sido dada
por Cristo na cruz: “Eles não sabem o que fazem.” A milenar fórmula
envelheceu. Pois eles sabem o que fazem e, assim mesmo, fazem.
Se
Lula obtiver mais um mandato presidencial, tudo poderá acontecer. Quem
ignora que ele já se tornou um político autônomo em relação aos
movimentos sociais e ao próprio PT? Quem conhece seus compromissos? Que
podres ainda não vieram à luz? Quem poderá dizer, sem hipocrisia, que
foi surpreendido e traído por qualquer decisão que venha a ser adotada?
É
preciso, pois, que a Consulta Popular diga claramente, desde já: não em
nosso nome. Não com a nossa omissão. Mas a Consulta Popular hesita,
talvez para deixar abertos os espaços aos que ainda desejam flertar com
o lulismo.
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Quando escrevi o texto “Decifra-me ou te
devoro: a Consulta Popular e as eleições de 2006”, em janeiro deste
ano, para o nosso debate interno, a possibilidade que agora discutimos
ainda não fora aventada. Ali eu defendia o apoio à senadora Heloísa
Helena, reconhecendo que sua candidatura padecia de limitações, que se
estendiam ao seu partido, o PSOL.
Não recuo de nenhuma das minhas
observações, e isso nunca foi sequer sugerido pelo PSOL, que mostrou
grandeza. Pergunto-me, porém, se devemos usar as críticas aos outros
para desqualificá-los, ou se devemos estar junto com eles, todos em
boa-fé, em uma luta que é comum.
É verdade, a Consulta
Popular tem méritos: não se organizou segundo o calendário eleitoral,
mobilizou-se para produzir idéias, tem realizado um esforço sério de
formação de quadros.
Não temos, porém, o monopólio da virtude.
Por
que não reconhecemos que a legalização do PSOL, com a coleta, nas ruas,
de mais de 500 mil assinaturas, sem esquemas tradicionais, sem cabos
eleitorais remunerados e sem corrupção, também resultou de um sério
esforço militante?
Por que não admitimos que a existência de um
partido de esquerda apto a disputar eleições presidenciais, embora não
coincida exatamente com o caminho que escolhemos, abre uma alternativa
a mais para a nossa própria luta?
Por que não pensamos como
complementares, em vez de concorrentes, as diversas iniciativas
renovadoras em curso dentro de uma esquerda em crise e cheia de
incertezas?
Por que fechamos os olhos para o fato de que, na
débâcle do petismo, a senadora Heloísa Helena e outros parlamentares
optaram por não trair suas histórias de vida, recusaram o comodismo,
aceitaram riscos e, por isso, são legitimamente reconhecidos como
lutadores por uma parcela do nosso povo?
Por outro lado, não tem
também a Consulta Popular as suas fraquezas? Uma delas – e não a menor
– não será justamente a incapacidade de tomar decisões políticas
coerentes com as análises que faz? Não é verdade que muitos movimentos
sociais ainda se abrigam no guarda-chuva do lulismo e cultivam
ambigüidades?
De que serve formar quadros, se em seguida recomendamos que se omitam?
De que serve lutarmos corajosamente na frente social, se somos covardes na luta política?
De que serve cultivar valores, se nos curvamos aos que praticam antivalores?
As perguntas poderiam se multiplicar.
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Queiramos
ou não, o fato político mais importante no Brasil, neste ano, serão as
eleições presidenciais. Se a disputa ficar resumida a PT versus PSDB,
haverá um só projeto colocado na mesa. E o debate se limitará,
fundamentalmente, a duas questões: Quem roubou mais? Quem foi mais
medíocre na condução do país?
O Brasil não merece isso.
Desde
o início de seu governo, Lula fortaleceu a direta. Agora, pede o nosso
apoio porque a direita está forte. Mas, quem disse ao povo brasileiro
que as posições da esquerda, nos últimos vinte anos, eram apenas
bravatas? Quem reafirmou o neoliberalismo como única alternativa e deu
novo fôlego a ele, quando o povo já o rejeitava? Quem descumpriu todos
os seus compromissos? Quem colocou quadros da direita em postos-chaves
do Estado? Quem compôs sua base com o rebotalho da política
conservadora? Quem reafirmou os métodos da direita, inclusive a
corrupção, espalhando descrença e cinismo, em vez de esperança? Quem
liberou os transgênicos e sacramentou o latifúndio monocultor como
modelo para o mundo rural brasileiro?
Também aqui as
perguntas poderiam continuar. Basta, porém, afirmar claramente: não
somos nós – nem é o PSOL – os responsáveis pelo fortalecimento da
direita. O responsável é Lula.
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O convite que recebi
é especialmente honroso, porque inesperado e inusual. Não lidero nenhum
grupo, não tenho votos ou esquemas, nunca me candidatei a cargo
eletivo, não freqüento regularmente as páginas da grande imprensa, não
sou nem quero ser celebridade. Nunca pleiteei um convite assim, que é,
em geral, tão disputado. Como os demais militantes da Consulta, sou uma
espécie de antítese do político profissional.
Ao me deparar
com essa possibilidade, recolhi-me para refletir, pois a decisão sobre
ela tem variadas dimensões, algumas de caráter estritamente pessoal.
Disse logo, porém, que me sentia honrado e sensibilizado. Estava sendo
sincero.
Pela minha desimportância no processo político
brasileiro, o gesto da direção do PSOL, que não vem acompanhado de
nenhuma exigência descabida, contém uma dimensão de confiança pessoal
maior do que aquela que tenho recebido na própria Consulta, onde muitas
vezes sinto-me incômodo.
Não recusei a possibilidade aberta
pelo PSOL, mas tampouco me deslumbrei com ela. Hoje, depois de um
período de reflexão, disponho-me a aceitá-la.
Debaterei com
vocês com o coração aberto, mas exigirei de todos, exatamente, o mesmo
coração aberto. Não me deixarei impressionar por rancores, não serei
levado por preconceitos e sectarismos, não aceitarei razões menores. E,
em última análise, a decisão será minha, pelos aspectos pessoais que
comporta.
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Não é a luta interna de grupos que está
em jogo, e muito menos uma carreira pessoal, que nunca desejei
construir. É a possibilidade de, nos próximos meses, dialogar com
milhares de pessoas sobre os destinos do Brasil. Difundir idéias.
Espalhar
esperança. Submeter nossas propostas ao debate público. Contribuir para
o diálogo dentro da esquerda. E conferir, à nossa ação, uma
meta-síntese: mobilizar e organizar, difundir o projeto popular,
ajudando a consolidar, assim, uma organização mais permanente.
Ao
refletir, busquei identificar qual seria a posição mais coerente com as
nossas análises: o ciclo PT terminou; a esquerda social precisa romper
os limites da ação reivindicatória e propor um projeto nacional;
devemos encontrar uma meta-síntese para o período. E assim por diante.
No
texto escrito em janeiro eu convocava a Consulta a esforçar-se para
ajudar a formar uma frente antineoliberal no Brasil e identificava a
candidatura de Heloísa Helena como portadora do maior potencial para
isso. A história, inesperadamente, agora nos dá a chance de ocupar uma
posição relativamente central nesse projeto. Eis o dado novo. Foi esta
a mais surpreendente conclusão a que cheguei, e a mais importante. Ao
aceitar o convite, serei apenas um instrumento desse projeto, e não o
melhor instrumento. Todos sabem, há muito tempo, que considero que a
Consulta Popular tem quadros mais capacitados para isso. Mais
representativos. Situados em posição mais central na luta política.
Mais hábeis na comunicação com o povo. Disse isso diversas vezes, em
contextos em que a sinceridade dessa afirmação não podia ser
questionada.
Neste momento, porém, por circunstâncias da
vida, a tarefa apresentou-se a mim, por causa de um gesto de
solidariedade, feito no ano passado, com a luta do PSOL para
legalizar-se. O que foi, na época, apenas um ato formal – assinar uma
ficha, dentro do espírito da chamada “filiação democrática”, que não
impunha deveres militantes no novo partido – abriu, neste momento,
possibilidades insuspeitadas.
É claro que sou grato ao PSOL
e, em qualquer caso, estabelecerei com ele, bem como com seus aliados,
uma relação de lealdade. Mas todos sabem que não sou um militante do
PSOL.
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Eu convido a Consulta Popular a dividir
comigo essa responsabilidade. A possibilidade de vitória eleitoral
praticamente inexiste, mas uma vitória política está ao alcance da mão.
Se a crítica ao neoliberalismo for ouvida por muitos, se uma esquerda
em via de renovar-se obtiver um apoio razoavelmente expressivo do povo
brasileiro, se milhares de pessoas – especialmente, jovens e pobres –
se organizarem nos próximos meses para uma ação especificamente
política e se uma parte, ao menos, dessa mobilização prosseguir e se
consolidar – se isso acontecer, terá valido a pena.
Para os que,
de boa-fé, consideram que Lula pode ser atraído para posições mais
progressistas – esta não é a minha opinião –, digo que a melhor maneira
de obter esse resultado é contribuir para que uma chapa de esquerda
tenha expressiva votação no primeiro turno das eleições presidenciais,
tornando-se assim interlocutora obrigatória de um futuro governo.
A
sociedade poderá nos impor a alternativa Lula-Alckmin em um segundo
turno, e nesse caso teremos de debater o que fazer. Será legítima –
embora não necessariamente correta – a posição do voto no mal menor.
Mas é ilegítimo – e não apenas incorreto – que nós mesmos, desde já,
ajudemos a construir esse cenário, ajoelhando-nos diante dos grandes
partidos comprometidos com o status quo e abrindo mão da nossa
identidade.
Neste caso, transformados em cúmplices da
traição, não teremos autoridade moral para reagir à derrota que virá
depois. A médio prazo, será um golpe fatal para os movimentos sociais e
a Consulta Popular.
Sinceramente,
Cesar Benjamin
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2006

