Por Deborah Cavalcante, Secretária de Relações Internacionais do PSOL
Há momentos na história em que o silêncio se torna cumplicidade. O que se impõe hoje sobre Cuba não é apenas uma crise econômica, é um cerco deliberado, sistemático e cada vez mais agressivo, que busca dobrar um povo pela escassez e pelo cansaço. Em último caso, se não for possível colocar os cubanos de joelhos, Donald Trump aciona a retórica da guerra para colocar na mesa a hipótese de uma ofensiva militar ainda em 2026.
A recente escalada na agressividade contra a ilha é uma expressão cruel do imperialismo norte-americano, que agora se combina também com a política de uma extrema direita neofascista que transforma a violência em instrumento vil contemporâneo.
É verdade que já são décadas de embargo contra a ilha, embora agora não estejamos diante de uma mera continuidade histórica. Trata-se do sistema de medidas coercitivas unilaterais mais abrangente, completo e prolongado que se impôs contra qualquer país na história. Sempre foi uma linha instrumental, desenhada para produzir efeitos sociais concretos e gerar desestabilização interna. Já nos anos 1960, documentos oficiais norte-americanos defendiam a necessidade de provocar “fome e desespero” para forçar mudanças políticas em Cuba, em uma lógica que permanece viva até hoje. Mas os cubanos nunca se renderam. Isso é o que a burguesia gusana exilada em Miami – o segundo lobby mais poderoso em atividade nos Estados Unidos, só perdendo para o israelense – jamais tolerou.
O problema é que o segundo governo de Donald Trump intensificou essa estratégia e, em 2026, a colocou em um novo patamar. É o que se nota ao classificar Cuba formalmente como uma ameaça à sua segurança nacional e decretar uma situação de “emergência”. A partir daí, implementou um bloqueio energético, interrompendo o fluxo de petróleo para o país, inclusive ao forçar a interrupção do fornecimento venezuelano, e ameaçando sancionar ou taxar qualquer país que ousasse comercializar combustível com a ilha.
Esse movimento, que já produziu uma crise energética profunda, foi acompanhado de uma escalada política e econômica que culmina na ordem executiva de 1º de maio de 2026, que amplia as sanções para setores estratégicos como energia, finanças e mineração e impõe medidas contra empresas estrangeiras. Na última 5ª feira (7.mai.2026), foram aplicadas sanções contra o conglomerado militar cubano GAESA e a mineradora Moa Nickel S.A. – joint venture entre uma empresa cubana e outra canadense, em função da nova ordem executiva. Não é só bravata.
O objetivo é explícito: cortar todas as fontes de divisas da ilha, bloquear o fornecimento de combustível, restringir o turismo, dificultar remessas e inviabilizar qualquer possibilidade de inserção internacional. Não se trata, no caso concreto, de frear uma grande corrida de investidores externos com disposição de injetar recursos em Cuba, mas de gerar o congelamento de uma situação de asfixia econômica total.
Os efeitos dessa política são tangíveis. Entre 2024 e 2025, o bloqueio provocou perdas estimadas em mais de 7,5 bilhões de dólares para a economia cubana, 49% a mais que no período imediatamente anterior. Esse montante, como ilustram os próprios dados oficiais, equivale ao financiamento de necessidades básicas como alimentos, medicamentos, energia e transporte público. Na vida cotidiana, isso se traduz em sofrimento concreto, apagões prolongados, interrupção do funcionamento pleno do sistema de saúde, escassez de insumos, retrocesso na indústria, no transporte e desgaste das condições de vida dos cubanos. Ouvi em Havana, na última semana, que se trata de um tipo de genocídio silencioso.
Mas reduzir o problema a uma crise econômica e social seria insuficiente. O que está em curso é uma forma contemporânea de coerção imperialista, que busca disciplinar uma experiência histórica que é produto de uma revolução vitoriosa no século XX. Não há disposição verdadeira de diálogo. Desse ponto de vista, o cerco à Cuba é, também, um recado dirigido a toda a América Latina: qualquer tentativa de afirmar a soberania de nossos países fora dos marcos impostos pelo sistema internacional será enfrentada com pressão econômica, política e, se necessário, militar.
Há ainda uma dimensão menos visível do problema, mas não menos decisiva: o cerco midiático. Ao mesmo tempo em que impõem sanções, os mesmos atores operam para construir uma narrativa que descola responsabilidade do bloqueio pela crise, em uma ação sistemática de desinformação que busca apresentar Cuba como um país isolado por suas próprias escolhas. Romper esse bloqueio informacional é parte inseparável da luta política.
Diante desse cenário, a resposta não pode ser a indiferença. E não será por parte do PSOL. Sabemos que as ameaças de Trump, inclusive de ofensiva militar, não devem ser encaradas como bravatas, embora possa haver recuo e sinais trocados. Mas não é o caso de deixar de tratar com seriedade depois que Nicolás Maduro e Cília Flores foram sequestrados e depois da guerra no Irã. Até onde Donald Trump é capaz de ir para, especialmente diante de uma recente perda de popularidade, buscar obter uma vitória histórica no quintal de casa?
Responder com seriedade às ameaças recentes cercando Cuba de solidariedade é um dever para qualquer latino-americano, mesmo que não esteja alinhado aos princípios da revolução cubana. Para as forças de esquerda e progressistas, se trata de um dever moral, de uma retribuição à história concreta de internacionalismo da ilha, que levou médicos à África, ajudou a enfrentar epidemias globais, levou alfabetização a povos inteiros e construiu pontes de dignidade e resistência anticolonial. Por isso, o fato de que o governo Lula levou, pessoalmente, a preocupação em evitar uma escalada militar em Cuba e a sua disposição de intermediar e facilitar o diálogo entre os dois países foi bastante importante. A condenação da diplomacia internacional em relação ao bloqueio e à ameaça militar é muito importante.
Nesse quadro, a solidariedade ativa com Cuba precisa se tornar prática concreta. Isso implica fortalecer as campanhas pelo fim do bloqueio, ampliar a pressão diplomática para o envio de petróleo solidário por parte dos governos e organizar redes de apoio material, como o envio de medicamentos e de painéis solares. Também significa disputar a narrativa pública, afirmando com clareza que o sofrimento do povo cubano não é produto inevitável de um modelo socialista, mas consequência direta de uma política de asfixia imposta de fora. E, sobretudo, implica defender a paz na América Latina, rejeitando qualquer escalada que possa transformar esse conflito em algo ainda mais grave.
O que está em jogo hoje não é um debate abstrato sobre os rumos internos em Cuba. É o direito de um povo existir sem ser submetido a um bloqueio que atinge, de forma indiscriminada, sua economia, sua infraestrutura e suas condições de vida.
Talvez, por isso, Cuba siga sendo um ponto de tensão na política internacional. Porque, apesar de todas as dificuldades, continua representando a ideia incômoda de que outros caminhos são possíveis em relação ao capitalismo e a subordinação da vida ao lucro. Em tempos de ofensiva imperial, reafirmar a solidariedade com Cuba é mais do que um gesto ético. É uma escolha política. E, em última instância, é uma afirmação de que a soberania dos povos não pode ser negociada sob ameaça de guerra.
Cuba não está sozinha. E não pode estar.

