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De volta para o passado

1973. Quem governava o Brasil era o General Médici. As liberdades políticas estavam cassadas, os militantes de esquerda estavam sendo torturados e mortos, jovens brasileiros eram perseguidos como animais nas matas do Araguaia. As forças armadas combatiam o inimigo interno e este era o povo brasileiro, especialmente aqueles que teimavam em questionar a ditadura militar.
 
Na periferia de Salvador, famílias descendentes de heróicos negros fugidos, moradores centenários de uma comunidade conhecida como Rio dos Macacos são expulsas pela Marinha Brasileira para que no local seja construída uma Vila Militar. Mais de 70 famílias foram obrigadas a sair das terras de seus ancestrais.
 
2014. Quem governa o Brasil é a Presidenta Dilma Roussef, ex-membro da luta armada contra a ditadura militar e quarta governante eleita diretamente após a redemocratização do país. Há quinze anos que a Constituição Federal restaurou nossas liberdades políticas.
 
Na mesma periferia de Salvador, na localidade conhecida como Quilombo do Rio dos Macacos, cerca de 200 famílias descendentes de escravos sofrem a mais cruel e ensandecida perseguição da Marinha Brasileira. São proibidos de plantar em suas terras, coibidos no direito de ir e vir, inclusive de serem socorridos nas doenças ou de enviar seus filhos para a escola, são humilhados e agredidos cotidianamente. A Marinha desenvolve uma conhecida estratégia militar, logicamente usada em situações de guerra, que é o cerco do inimigo, corte de suprimentos e desmoralização de suas tropas. O inimigo continua sendo interno.
 
O senador Randolfe Rodrigues (pré-candidato à presidência da república pelo PSOL) visita a área, acompanhado por militantes do seu partido e defensores dos direitos humanos e das comunidades quilombolas. Não tem como enxergar na situação vivida pelas famílias uma linha de continuidade com a ditadura militar, mesmo que pareça absurdo que o Estado Brasileiro, por intermédio da Marinha, mas contando com a conivência de outras instituições da república, ajam desta forma em pleno Estado Democrático de Direito.
 
Não tem como não relacionar o fato à postura racista e de criminalização do povo pobre que estamos vendo em São Paulo como resposta aos rolezinhos nos shoppings.  Nem como não relacionar ao fato de que no Presídio de Pedreirinhas, no distante Maranhão, protetorado governado desde a ditadura pelo clã Sarney, os presos reféns das facções criminosas são todos negros e pobres.
 
É a exposição dos limites da democracia brasileira. É o desnudar dos limites da inclusão social propalada pelo governo.
 
Daqui a alguns dias o golpe militar de 1964 completará 50 anos. E o que teremos mudado ou aprendido com esta página de nossa história?

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