Viajei para o Haiti de 26 de junho a 16 de julho, acompanhando a delegação de sindicalistas da Conlutas e depois acompanhando as tropas do Brasil. Foi nesse período que completaram-se 3 anos de intervenção militar no país mais pobre das Américas. Mas aquele país nem sempre foi assim: aquela parte da ilha Hispaniola, onde Colombo “descobriu” o novo mundo, já foi a colônia mais próspera do continente. Lá também realizou-se a primeira revolução negra e escrava vitoriosa do continente, que acabou com a colonização francesa. Mas este sucesso sempre esteve pressionado pelos interesses imperialistas de Estados Unidos, França e Inglaterra.
Em seus 200 anos de independência, foram diversas as ocupações militares, ditaduras e golpes de estado que levaram ao estágio atual de ausência de Estado e desestruturação social. O país que pude ver é um país “pelado”: sem vegetação, sem rios, sem saneamento, sem energia elétrica, sem estradas, com as instituições sem técnicos.
Durante três anos de ocupação militar, a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, na sigla em francês) tentou desmilitarizar os grupos armados que desde a queda do presidente Aristide pelas mãos dos EUA se enfrentam nos principais bairros da capital e nas cidades do interior. Momentaneamente, apesar de não conseguir desarmá-los, as tropas da ONU, lideradas pelo Brasil, conseguiram controlar aparentemente a segurança, terminando ou diminuindo os conflitos armados. Apesar disso, a miséria continua inatacada. Enquanto os contingentes militares vão se revezando – o Brasil já está no sétimo -, nos bairros populares o povo luta diariamente para sobreviver sem emprego e expectativa de mudança, apesar da eleição, em 2006, do atual presidente René Preval.
O que é necessário pensar e discutir é qual a alternativa para aquele povo. A Minustah tem um objetivo militar de garantir a segurança para que os interesses econômicos do imperialismo sejam postos em prática. Por isso discutir uma alternativa da qual participe o povo haitiano é o real desafio. É necessário pensar em um projeto de desenvolvimento em primeiro lugar soberano, que seja capaz de reflorestar o país, garantir a infra-estrutura básica e avançar na educação e no emprego.
Esta alternativa tem que ser diferente da que se desenha pelos interesses imperialistas, como é o caso do biodiesel que significaria voltar a transformar o país em um país agro-exportador de um único produto. Fazer com que o Haiti volte a produzir parece ser uma das tarefas cruciais, mas antes tudo deve ser capaz de alimentar seu povo e cobrir suas terras que hoje, ao estarem devastadas, não conseguem acumular água nem nutrientes.
Ela se diferencia porque em primeiro lugar passa não por intervenção armada mas por apoio internacional de países independentes como Cuba e Venezuela, garantindo a soberania do Haiti. Apoio com técnicos e materiais para que o país possa se reorganizar por conta própria. No caso cubano isso já começa a ser real no momento em que já trabalham 400 médicos daquele país em solo haitiano.
O papel do Brasil não deveria ser outro além de ajudar o país a se desenvolver. Mas o governo, ao enviar tropas e chefiar a missão parece querer cumprir com a função de polícia da ONU, auxiliando os interesses privados na região. Inverter essa lógica é a necessidade sob o risco de infringir na soberania do Haiti ou de que outras vidas sejam perdidas, como é o caso recente do soldado gaúcho.

