Vocês já repararam que as grandes encenações do golpe que está em curso no Brasil sempre vêm acompanhadas de spoilers? Meses antes da presidenta eleita Dilma ser derrubada definitivamente pelo Senado, a divulgação do grampo telefônico entre Romero Jucá, então líder do PMDB, em conversa com Sérgio Machado, então líder do PSDB, já havia escancarado para todo o mundo que aquela farsa fazia parte de “um grande acordo nacional com o Supremo, com tudo”. Ontem, horas antes de o TRF-4 anunciar, sem surpresas, a condenação do presidente Lula, a Band News deixava escapar na sua programação o resultado confirmado logo mais. E antes que justifiquem como mero erro técnico, saibam que a emissora comemorou a repercussão da sua “falha”.
A maioria não gosta de receber spoilers da sua série, filme ou novela preferidos, mas quando se trata da vida política em nosso país não podemos ficar anestesiados e inertes por vermos acontecer, diante dos nossos olhos, toda a trama sórdida que vem sendo prenunciada pela grande imprensa – com o apoio e consentimento de grande parte dela.
A conta do golpe tem que ser paga e eles não irão recuar. A cada novo ato dessa tragédia política em que estamos mergulhados, se aprofunda a agenda política de retirada de direitos sociais e econômicos para entregar a concentração de renda, na forma de mais privilégios, para os grandes empresários e os rentistas, sobretudo os que são generosos doadores de campanhas. Se você perdeu os últimos episódios desde que o golpista temeroso tomou conta do poder, aí vai um breve resumo dos últimos capítulos:
Houve desmonte dos bancos públicos e de programas sociais como o ‘Minha Casa Minha Vida’ e o ‘Farmácia Popular’; congelamento dos investimentos públicos por 20 anos, sobretudo nas áreas de saúde e educação; isenção fiscal trilionária para multinacionais do petróleo; reforma do ensino médio que foi imposta sem discussão e que atendeu a interesses de donos de cursinhos; tentativa de venda de terras para estrangeiros; desmantelamento da Funai e mais restrições na demarcação das terras indígenas; terceirização irrestrita e a contrarreforma trabalhista, que levou ao fechamento de mais de 300 mil postos de trabalho somente no último mês de dezembro; desmonte da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e da comunicação pública; ataques ao meio ambiente com a tentativa de extinção de uma área de preservação na Amazônia; flexibilização do combate ao trabalho escravo; ataques às artes e à cultura em geral; retirada das referências a gênero e orientação sexual da Base Nacional Comum Curricular; pela primeira vez, em 15 anos, o brasileiro não teve aumento real do salário mínimo enquanto a fome volta a assombrar a população brasileira. E para coroar o grande final desta primeira temporada, no próximo mês eles tentarão votar a Reforma da Previdência.
Se não houver reação nas urnas em 2018 contra essa agenda é porque o país foi convencido a ser uma fazenda de patos conduzidos por plutocratas corruptos, gananciosos e traidores da pátria, fundamentalistas religiosos hipócritas e por fascistas ignorantes. A nossa tarefa, no campo progressista, será evitar que isso aconteça sem uma disputa à altura dos ataques.

