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Jean Wyllys: “Pelo bem de todos, temos de lutar pelo direito à diferença”

Em entrevista à revista Época, o deputado federal alerta: o cidadão de bem que se afasta da política abre espaço para os adversários da liberdade
 
Confira abaixo a entrevista concedida pelo deputado federal do PSOL do Rio de Janeiro Jean Wyllys à revista Época.
 
ÉPOCA: Como o senhor acha que a decisão de Daniela Mercury de assumir seu relacionamento homoafetivo repercute na sociedade?
Jean Wyllys: É importante questionar: que contexto levou Daniela Mercury, que é mãe e teve relacionamentos héteros, a tornar pública a sua bissexualidade? O que fez com que Fernanda Montenegro, a primeira dama do teatro, que goza de tanto prestígio, desse um beijo em outra mulher? Isso acontece porque, como sociedade, estávamos dando as liberdades individuais como favas contadas. Temos uma Constituição cidadã, promulgada em 1988, e achamos nos últimos anos que as liberdades estavam protegidas. Nesse meio tempo, os homossexuais viraram um nicho de mercado, começaram a aparecer nas novelas. No entanto, descobrimos que as nossas liberdades não são favas contadas quando o fundamentalismo religioso veio à tona, na figura de Feliciano.

ÉPOCA: O senhor esperava uma reação tão forte da sociedade civil quando Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara?
Wyllys: Eu fiquei feliz e surpreso, porque acho que a sociedade se deu conta da importância das liberdades. As pessoas que defendem as liberdades individuais são maioria no país, mas até porque a política não goza de prestígio público, elas se afastaram da política, estavam cuidando das suas vidas. Então, um setor conservador reacionário se apoderou da política, e decidiu trazer à tona este discurso. Aí a sociedade reagiu, e isso é muito bom. Se por um lado é constrangedor e ofensivo ver as declarações grotescas de Marcos Feliciano, por outro lado a reação e o repúdio público mostram que as pessoas se importam com nossas liberdades.

ÉPOCA: Qual é a importância do posicionamento de Daniela Mercury para o movimento gay?
Wyllys: A saída da Daniela (do armário) foi maravilhosa, não apenas para a retomada da Comissão dos Direitos Humanos, mas para a autoestima da homossexualidade. É ótimo quando uma cantora com o prestígio e o talento dela vem a público e diz que tratou todas as suas relações afetivas, homossexuais e heterossexuais, com a mesma naturalidade. Pense em gays não das grandes cidades, mas de um Brasil profundo. Isso tem um efeito psicológico que vai além de toda a política do movimento. O movimento merece todo o respeito porque abre o caminho, mas é também muito importante quando alguém como ela, o Ricky Martin, o Marco Nanini tornam pública a sua vida íntima para defender as liberdades individuais.

ÉPOCA: Algumas pessoas defendem que seria mais estratégico para o movimento LGBT tratar a situação com mais naturalidade, de forma menos combativa. Você concorda?
Wyllys: Isso é uma falácia! É a velha injunção ao silêncio. As pessoas são capazes de vir com esse discurso de que, “olha, não vamos tratar das especificidades porque somos todos iguais. Pra quê fazer barulho em torno da Daniela Mercury se todo mundo é igual?” Isso é uma injunção à visibilidade. Existe a igualdade formal, proclamada na Constituição, que diz que somos todos iguais perante a lei, e existe a igualdade material. Para que todas as pessoas sejam tratadas de forma igual perante a lei, mesmo com suas diferenças, é preciso lutar pelo direito à diferença. Não importa se é pelos direitos dos grupos negros, das mulheres, dos povos indígenas ou da comunidade gay, todos devem lutar pela igualdade. Ao lado do direito pela igualdade, lutamos pelo direito à diferença. Tem uma frase linda de Boaventura de Souza Santos (sociólogo português) que diz: “Nós precisamos lutar pela igualdade quando a diferença nos priva do acesso ao direito e precisamos lutar pelas diferenças quando a igualdade nos descaracteriza”. As pessoas dizem “pra que fazer tanto escândalo se nós somos todos iguais?” Mas não somos todos iguais. Se fôssemos, as prisões não estariam cheias de meninos negros, a pobreza não teria cor e gênero e os homossexuais não seriam privados de mais de 70 direitos dos heterossexuais.  
 
Para ler a entrevista diretamente no site da revista Época, clique aqui.

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