fbpx

Mariana Conti | Nenhuma a menos!

Era uma festa em Campinas. Era Ano Novo. Era família reunida para comemorar junto. Era momento de esperança por dias melhores. Era tempo de retomar a alegria. Era celebração do que está por vir. Mas o velho se impôs sobre o novo. O que há de mais retrógrado se impôs sobre o futuro. A violência se impôs sobre a festa. A tristeza e a dor se impuseram sobre o sorriso. O fim da vida se impôs sobre a perspectiva de recomeço. 12 novas vítimas fatais de um crime antigo e brutal, motivado por ódio profundo à possibilidade das mulheres exercerem seus direitos e terem vida digna. A chacina de Campinas é parte da ferida aberta do feminicídio, a mais terrível expressão de uma sociedade que se apoia na violência contra a mulher.

Segundo o Mapa da Violência de 2015, o Brasil já ocupa a 5ª posição entre 83 países do mundo com maior taxa de feminicídio, atingindo a marca de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres. Em 2013, em média, 13 mulheres foram assassinadas no Brasil por dia, uma a cada duas horas. Essas estatísticas tinham carne e osso, nome e história, eram filhas, namoradas, esposas, mães lutando para sobreviver e para proteger suas filhas e filhos. Em geral, os principais agressores não são seres desconhecidos, mas estão dentro do próprio núcleo familiar e mantêm vínculo afetivo com a vítima. Quase 30% dos feminicidios acontecem dentro da casa. A violência de gênero tem destruído as famílias brasileiras e o poder público tem que atuar para romper com esse ciclo.

Na chacina de Campinas, 9 das 12 pessoas mortas eram mulheres. Nas palavras do assassino, a ex-esposa merecia morrer porque “era uma vadia”, assim como as familiares dela que a apoiaram e como aquelas que acessam a “Lei Vadia da Penha”. “Era uma vadia” porque decidiu procurar amparo legal diante das ameaças do ex-marido e das suspeitas de abuso sexual contra seu filho. “Era uma vadia” porque buscou seus direitos e questionou o poder tido como inquestionável dele sobre a vida dela. O discurso que procura justificar tamanha violência é tão bárbaro, cruel e frequente, quanto o próprio crime em si. Culpabiliza-se a vítima e vitimiza-se o assassino. E é esse mesmo discurso de desumanização da mulher – que se prolifera nos ambientes de trabalho, na rua, na escola, na tevê, nas redes sociais, nas decisões políticas -, que legitima os altos índices de violência contra a mulher e que mata as mulheres todos os dias.

A Lei Maria da Penha foi um avanço importantíssimo, passou a enquadrar a violência contra a mulher enquanto atentado aos direitos humanos. Antes, os casos eram julgados pela lei que trata de pequenas causas, consideradas de menor gravidade. O reconhecimento de que a violência contra a mulher é um problema social de grande envergadura, que deve ser criminalizado e que precisa ser combatido em suas particularidades é essencial para que haja condições de enfrentar de fato a violência e o feminicídio. A Lei Maria da Penha, contudo, ainda é precária em sua efetivação e insuficiente frente a esses índices que não cessam de crescer mesmo depois de uma década da aprovação da medida. É chocante que uma lei que é um passo tão pequeno no combate à violência de gênero cause tanta revolta, como manifestou o assassino de Campinas. Isso é mais um exemplo de que a violência continua sendo o meio padrão das relações dos homens com as mulheres no Brasil e que o poder público não pode se omitir desse debate.

É sintomático que esse crime da noite de réveillon tenha ocorrido em uma cidade que ganhou reconhecimento pelo seu ultraconservadorismo no âmbito das políticas pela igualdade das mulheres. Campinas ganhou as páginas dos jornais quando vereadores tentaram proibir o debate de gênero nas escolas, quando a Câmara se calou diante de agressão contra a mulher em meio à uma sessão, quando a Prefeitura puniu um professor por usar saia em um desfile da cidade, quando os vereadores aprovaram uma moção em repúdio à prova do ENEM que citava a pensadora Simone de Beauvoir, quando se notificou que o estupro foi o crime que mais cresceu na cidade no ano de 2016 e que havia até recentemente uma única Delegacia da Mulher na cidade para mais de 1 milhão de habitantes.

Não precisamos de novos casos como o recente para promover políticas de superação desse cenário. Não podemos perder mais nenhuma de nós. O combate à violência de gênero é uma questão de vida ou morte. Que o luto pelas vítimas da chacina se transforme em luta contra toda forma de violência.

Cadastre-se e recebe informações do PSOL

Relacionados

PSOL nas Redes

469,924FãsCurtir
362,000SeguidoresSeguir
26,600SeguidoresSeguir
515,202SeguidoresSeguir

Últimas