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Na semana da Consciência Negra, mulheres protagonizam a luta contra o racismo e a violência

O Dia Nacional da Consciência Negra neste ano de 2015, celebrado em 20 de novembro, será lembrado por um acontecimento histórico que entrará para a memória do movimento negro e do movimento de mulheres negras do país. Na última quarta-feira (18), três dias antes da data na qual o país celebra a força guerreira de Zumbi dos Palmares e que entrou no calendário nacional como o dia de refletir sobre as reais condições em que vivem os negras e as negras no Brasil, o centro da capital federal foi tomado por mulheres negras de todas as regiões do país.
A Marcha Nacional das Mulheres Negras – Contra o racismo, a violência e pelo bem viver, reuniu aproximadamente 20 mil mulheres, que trouxeram em sua bagagem histórias de vidas distintas, mas igualmente a vontade de mostrar para o Brasil a força e a coragem para dizer não ao racismo, à violência, à discriminação por cor e gênero, à homofobia, à transfobia, à desigualdade de oportunidades no mundo do trabalho e a tantas outras formas de descriminação. Para muitas que lá estiveram, foi um momento de pura catarse, emoção, celebração da ancestralidade africana e luta, apoiadas na força de Dandara, Luiza Mahin, Aqualtune, Lélia Gonzalez, Carolina Maria de Jesus, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra, Dona Ivone Lara, Elza Soares e tantas outras guerreiras negras, que simplesmente não se conformaram com as condições desiguais que a sociedade impõe a mulheres como elas.
A ideia de realizar o evento surgiu durante o Encontro Paralelo da Sociedade Civil para o Afro XXI, em 2011 e, desde então, diversas entidades do movimento de mulheres negras e do movimento negro do país e do mundo se juntaram nessa articulação. Ao longo do último ano, os mais variados grupos espalhados pelo Brasil que lutam por melhores condições de vida para as mulheres negras se articularam em seus municípios, estados e também nacionalmente. A organização geral da ação política ficou sob a responsabilidade da Coordenação Executiva Nacional da Marcha (ou Comitê Impulsor Nacional, nome utilizado até janeiro deste ano). E, apesar das diferenças que surgiram ao longo do processo, muito em função das especificidades e concepção política de cada organização envolvida, as lideranças foram capazes de garantir a unidade para realizar o ato político que certamente marcará a trajetória do movimento negro brasileiro.
A jornalista Ana Cláudia Mielke, militante do PSOL e do Coletivo Intervozes, comenta que teve preocupação com os rumos da marcha, em parte devido à política de corte adotada pelo governo, que inclusive esvaziou dois importantes ministérios para a pauta das mulheres negras: a Seppir (Secretaria pela Promoção da Igualdade Racial) e a SPM (Secretaria de Políticas para as Mulheres), que hoje, juntamente com a Secretaria de Direitos Humanos, formam apenas um único ministério. “Confesso que tive receios de a marcha não vingar por conta da atual conjuntura política brasileira e, principalmente, pelo recente desmonte da Seppir e da SPM, uma perda enorme para as mulheres negras e que influenciou diretamente no processo organizativo da marcha. Mas a força dessas mulheres negras mais uma vez se fez presente!”, disse a jornalista, que veio de São Paulo participar do ato.
Ela diz ter se emocionado ao ver mulheres negras de norte a sul do país, algumas que percorreram mais de 2 mil quilômetros para participar desse momento. “Ver a chegada de caravanas de várias partes do país na manhã do dia 18 foi realmente muito emocionante. Acredito que essa marcha foi um momento histórico para as mulheres negras e um ponto de injunção do feminismo negro no Brasil. Logo quando a marcha saiu do Ginásio Nilson Nelson, no trio elétrico que liderava o nosso grupo tocou o rap Mulheres Negras (Facção Central), na voz da cantora Izalú. Havia um certo silêncio, pois era como se todas aquelas mulheres, jovens e senhoras, estivessem meio hipnotizadas pela letra daquela música; algumas choravam. Senti ali algo como uma união ancestral”, explica.
Momento de compartilhar resistência
Em texto de avaliação sobre a marcha, as militantes do PSOL Clementina Bagno, assistente social e conselheira tutelar de Brasília; e Aline Costa, pedagoga e especialista em adolescência e juventude, também consideram que esse foi um momento histórico, de compartilhamento de resistência com milhares de mulheres negras que sofrem diariamente pelo racismo, machismo e precarização do trabalho. “A Marcha Nacional de Mulheres Negras, realizada pela primeira vez esse ano, em homenagem às nossas ancestrais e em defesa da luta por cidadania plena de mulheres negras brasileiras, traz simbolicamente a nossa resistência diante das inúmeras violações de direitos que sofremos há tantos séculos. Somos mais de 50 milhões espalhadas por todo o Brasil, recebendo os menores salários, ocupando os trabalhos mais precarizados como o doméstico, catadoras de materiais recicláveis, em fábricas de carvão, minério, prostituição, dentre outros que não garantam nossa emancipação enquanto trabalhadoras”, ressaltam as militantes no texto.
Lembrando os dados apontados pelo último Mapa da Violência, divulgado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), que aponta que 66,7% de mulheres negras são assassinadas a mais do que brancas, elas falam do cenário de desigualdade que ainda persiste. “O feminicídio das negras aumentou cerca de 54% enquanto o das brancas diminuiu 9,8%. Dados como estes corroboram com outros dados alarmantes como o alto índice de mortalidade da juventude negra no país, cujo risco de morrer assassinado é 6,5 vezes maior que de jovem branco, compreendendo cerca de 77% dos jovens assassinados no país. A Marcha tem a importância de mostrarmos ao Brasil que 57% dele é formado por negras e negros. É a comunidade onde mais tem a nossa raça/etnia depois da África. A visibilidade de quarta-feira é só o começo da nossa força. Somos muitas, sozinhas ou juntas, nossa resistência enfrentará todas as formas de violação dos nossos direitos. Calaremos todas as falas racistas. Lutaremos por equidade em todos os espaços. Não nos esconderão mais! Não era um dia ou uma Marcha qualquer: estávamos fazendo história e sabíamos disso!”, avaliam.
Para Luciete Silva, membro da Executiva Nacional do PSOL e militante do Círculo Palmarino, foi impossível não se emocionar com tantas mulheres vindas de diferentes regiões do país, ocupando as ruas da organizada Brasília, terra de diversos imigrantes e de muito desmando, legitimação de opressores. “Ocupamos Brasília gritando palavras de ordens, cantando músicas que nos enaltecem enquanto mulher negra que somos, e não apenas força de trabalho de um sistema que explora, ignora e exclui”.
Da mesma forma que as companheiras de militância partidária, Luciete vê a Marcha Nacional como um momento que marcará a trajetória dos diversos movimentos negros que há no Brasil. “Foi uma experiência maravilhosa, gratificante e que, sem dúvida, deve se repetir, porque enquanto houver machismo, opressão e negação de direitos, pessoas usando o poder institucional ou a força, nós não nos deixaremos intimidar. 18 de Novembro de 2015 marcou o começo de uma luta que só termina quando a sociedade deste país entender que as mulheres negras não marcham apenas, as mulheres negras marcham para que haja justiça para todas e todos, marcham para que a liberdade não seja apenas para alguns e lutam para que a vida e o acesso à saúde, à liberdade de decidir seus próprios caminhos não sejam objeto negociados sem nosso consentimento. Marchamos por justiça e liberdade de ser mulher, mulheres negras”, finaliza a dirigente nacional do partido.
Por que marchar
Atualmente, segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2014), 54,9 milhões de brasileiras se autodeclaram pretas ou pardas. E a marcha aconteceu num momento de acirramento da ofensiva conversadora e também na esteira de diversas medidas de governos municipais, estaduais e federal que colocam em segundo plano os interesses da classe trabalhadora e da população mais empobrecida. Cenário esse no qual as mais atingidas são as mulheres negras, que em muitos casos cuidam sozinhas de suas famílias. E perdem seus filhos para a ação truculenta das forças de segurança do Estado.
Na Pesquisa Mensal de Emprego (PME), o IBGE computou 822 mil empregadas domésticas autodeclaradas pretas ou pardas, quase 60% do contingente total nas seis maiores regiões metropolitanas. Na média geral, mulheres negras ganham R$ 1.364 por mês, cerca de 44% da renda dos homens brancos, 75% dos negros e 60% das mulheres brancas.
Também são as negras as maiores vítimas do feminicídio. O Mapa da Violência 2015, divulgado recentemente, aponta que o número de homicídios de mulheres negras aumentou 54% em dez anos no Brasil, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Enquanto, no mesmo período, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%, saindo de 1.747 em 2003 para 1.576 em 2013.
O número também é assustador quando se trata da saúde reprodutiva. Nas mortes obstétricas, duas de cada três vítimas têm a pele preta ou parda.
É nesse contexto que milhares, entre trabalhadoras urbanas, desempregadas, mães, sem teto, camponesas, quilombolas, indígenas, lésbicas, trans, líderes de terreiro, marcharam em Brasília na última quarta-feira (18), levantando a voz contra a violência, o racismo e as constantes ameaças aos seus direitos. E é com a força dessas mulheres, que o Dia Nacional da Consciência Negra neste ano deve ser celebrado.
Da redação do PSOL Nacional

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