Vitória dos moradores, que ao longo de seis anos, toda sexta-feira, saem em passeata
*Baby Siqueira Abrão – de Bil’in, Palestina
A data de 21 de junho de 2011 talvez entre para a história de Bil’in como o dia em que o Muro do Apartheid que cerca a vila começou a cair. Os tratores do exército israelense iniciaram o desmantelamento do muro pela manhã. Vitória dos moradores, que ao longo de seis anos, toda sexta-feira, saem em passeata até ele, acompanhados de ativistas israelenses e internacionais. Esses mesmos moradores decidiram lutar também na justiça israelense e conseguiram, contra os prognósticos mais pessimistas, que a Suprema Corte de Israel decidisse, em 4 de setembro de 2007, a favor da ilegalidade da rota das três cercas paralelas – uma delas eletrificada – que subtraíam da vila 2.300 de seus 4 000 dununs (cada dunum equivale a aproximadamente 1m2). A sentença da Corte estabeleceu que o confisco das terras não se devia a “razões de segurança”, como alegava o governo sionista, mas à expansão ilegal de colônias judaicas em território palestino.
As lutas de Bil’in no campo jurídico
Apesar dessa decisão, os moradores de Bil’in ainda teriam de esperar mais quatro anos pelo desmantelamento do muro. Embora a Suprema Corte tivesse ordenado que Israel traçasse uma rota alternativa para a cerca, vários meses se passaram sem que o governo sionista a oferecesse. Por isso, em 29 de maio de 2008 os moradores encaminharam uma petição à justiça, acusando o Estado de Israel de desacato à Corte. Em resposta, o governo israelense apresentou outro projeto para o muro, segundo o qual a nova barreira ficaria a apenas 161 dununs de distância da primeira. O restante das terras confiscadas seria utilizada para a expansão das colônias judaicas.
Contra esse projeto, os moradores encaminharam uma segunda petição à justiça. Em 3 de agosto de 2008 a Corte declarou que a rota alternativa oferecida por Israel não preenchia os requisitos estabelecidos na decisão de 2007 e ordenou que o Estado fizesse um novo plano. Apresentado em 16 de setembro de 2008, o plano devolvia aos moradores de Bil’in pouco mais de 404 dununs. O advogado da vila protestou, acusando Israel de violar a decisão da justiça pela segunda vez. Três meses depois a Corte deu ganho de causa a Bil’in, afirmando que o segundo itinerário alternativo estava em desacordo com a sentença de 2007. Em abril de 2009 foi apresentado um terceiro projeto, devolvendo aos moradores apenas 607 dos quase 2.000 dununs anexados a Israel em consequência do primeiro traçado do muro.
As manifestações vão continuar
Nesses seis anos de luta, Bil’in perdeu dois moradores, assassinados pelas forças de ocupação israelenses – os irmãos Bassem e Jawaher Abu Rahmah, 30 e 35 anos, respectivamente –, viu 140 pessoas serem presas (grande parte crianças) e mais de 1.400 feridas durante as manifestações. Uma conta muito alta em número, perdas e sofrimento.
Com a retirada das cercas, cujas função e altura são as mesmas dos muros pré-fabricados de cimento que Israel ergue para tomar as terras palestinas na Cisjordânia e isolar os habitantes das vilas e cidades, Bil’in recupera 1.200 dununs de sua área original. O desmantelamento começou a oeste, perto da torre onde ficam as câmaras que fiscalizam a vila noite e dia, e, segundo cálculos de Rateb Abu Rahmah, coordenador de mídia do comitê popular de Bil’in e vice-diretor acadêmico da Open University em Jericó, deve durar até julho.
Em 2010, os sionistas, já sinalizando o cumprimento (atrasado) da decisão da Suprema Corte, iniciaram o desmantelamento das cercas, mas pararam em seguida. Agora, porém, talvez o trabalho avance, porque um muro de cimento está sendo construído longe das cercas. Esse será o novo muro de Bil’in, contra o qual vão se voltar, a partir da próxima sexta-feira, as manifestações dos pacifistas. “Continuaremos a lutar até que as terras voltem a seus legítimos donos e até o fim da ocupação israelense”, afirmou Mohammed Khatib, um dos líderes do comitê popular de Bil’in.


