Antônio Carlos de Andrade foi candidato a governador do Distrito Federal nas duas últimas eleições. Em 2006, teve minguados 55.898 votos. Quatro anos depois, as urnas contabilizaram para o postulante ao Palácio do Buriti pelo Psol 199 mil 95 votos. Um salto de fazer inveja a quem pertence a um partido com maior densidade, porque a estrutura do Psol é reconhecidamente deficitária, se comparada a grandes agremiações.
Criado em 2004 após o episódio da expulsão de deputados e senadores que se opuseram à reforma previdenciária proposta por Lula, o Partido Socialismo e Liberdade cresceu no rastro do Mensalão e consolidou-se como força política na maioria das capitais, a ponto de lançar a candidatura de Heloísa Helena à Presidência da República dois anos depois.
Toninho do Psol (o mesmo aguerrido Toninho do PT, que ajudou a criar) é fundador do Psol. É um político experiente e respeitado. No primeiro governo Lula, foi diretor-executivo da Funsa. Com Cristovam Buarque, foi secretário de Administração e administrador de Brasília. É casado com Maninha, ex-deputada distrital e federal, também auto-alijada do PT.
Foi na campanha de 2010 que Toninho do Psol ganhou mais projeção e reconhecimento do eleitor. Seu principal argumento era que Agnelo seria impedidos de trilhar de fato um Novo Caminho pela amplitude da aliança de partidos que apoiavam o candidato petista.
Estimava que uma auditoria completa e detalhada dos governos passados era absolutamente necessária, e que Agnelo não poderia realizá-la por ter ao seu lado vários integrantes de administrações passadas. Justamente os grupos que o PT (e de resto a esquerda brasiliense) combatia com fervor.
Os socialistas de Brasília que pregam a liberdade e um governo sério já articulam uma terceira candidatura de Toninho. Mas, mesmo tendo cacife de chegar ao segundo turno – e consequentemente sair vencedor do pleito – ele entende que uma aliança com o PDT, particularmente, pode resgatar o sonho de uma Brasília sem corrupção e bem administrada.
Um governo, diz ele, que seja sério. Que não se perca em meio a desmandos, a fraquezas, a falta de pulso como acontece com Agnelo Queiroz. É isso que pode ser lido a seguir, em entrevista de Toninho do Psol a Notibras.
Como o Sr. avalia a greve dos professores?
Acho uma insensibilidade o governador Agnelo ainda não ter sentando com o comando de greve da categoria, que tinha um compromisso firmado pelo então candidato Agnelo durante a campanha e agora ele não quer cumprir o prometido. Então a greve é justa, é correta, e os professores têm toda razão de estar na maior bronca que já vi contra um governador. Que o Agnelo desça do pedestal e vá negociar com os professores. É isso que a população está esperando. Para que a greve tenha um fim e que nossas crianças possam voltar à sala de aula.
Tem dinheiro, não há dinheiro. Quem está com a razão ?
Existe toda uma legislação sobre o Fundo Constitucional. Os recursos para Educação, Saúde e Segurança que provêm dele não são contabilizados na Lei de Responsabilidade do GDF. Portanto, têm razão os professores quando dizem que existem recursos na área. O Governo Federal tem repassado sistematicamente esses recursos e o sindicato está reivindicando que tem um superávit que permitiria o reajuste dos salários da categoria. Eu confio na assessoria do Sindicato dos Professores que estes recursos existem. Além do mais, a opinião nossa no Psol é que se não pode agora, porque desde já não negociar o percentual destes reajustes ao longo dos próximos três anos?
Os compromissos não estão sendo honrados?
Claro que não. O que a gente escuta, tanto da diretoria do Sindicato quanto da base da categoria, é que o Governo perdeu a credibilidade. Quando o candidato Agnelo apresentou aos professores sua Carta de 13 pontos, na qual ele prometia, entre outras coisas, o reajuste linear e em cascata para todas as carreiras, ele certamente tinha estudos da assessoria de seu partido e de sua coligação para fundamentar estas promessas.
A LRF é um empecilho?
Na caso dos professores, como no das categorias que dependem do Fundo Constitucional, a Lei de Responsabilidade Fiscal não pode ser vista como tal. Mas, para o Psol, o debate tem que ser maior. Por que este rígido controle da LRF ? Para que serve o dinheiro de nossos impostos? Para pagar dívida a bancos ? Dívida contraída por governos anteriores que aplicaram o dinheiro em fraudes, em contratos superfaturados? Que governo é esse que se sente obrigado a manter os termos dos contratos firmados pelo GDF anteriormente, onde os recursos foram desviados para a corrupção? Ninguém fala isso nesse debate da LRF.
O PT toma decisões sozinho?
Acho realmente que quem tem determinado os rumos da política econômica, da política geral do Distrito Federal, é o PT. A responsabilidade, caso se confirme que existe um rombo nas finanças públicas, também é do PT. É importante lembrar que, após 10 meses do Governo Agnelo, foi propalado na imprensa que o GDF tinha conseguido economizar cerca de R$ 700 milhões. Então eu pergunto: onde estão esses recursos? Foram aplicados em quê?
Sua avaliação geral das finanças públicas é negativa?
É. Minha avaliação é de uma péssima gestão, com falta de prioridades na aplicação dos recursos públicos. Um governo que fosse realmente popular, democrático, teria ouvidos para as reivindicações populares. Veja o exemplo dos policiais e bombeiros militares. Estão há quatro anos sem nenhum aumento. E a resposta que eles recebem é que eles têm o maior salário do Brasil. Pode até ser, diante da mediocridade do nível salarial destas categorias tão importantes para o País, que eles tenham um salário um pouco melhor, mas isto não quer dizer que, com o custo de vida aqui, eles tenham um salário digno. Então são justas as demandas destas categorias, professores, policiais e bombeiros militares, trabalhadores em saúde. E o GDF, se quiser, pode atender a estas reivindicações.
O Novo Caminho existe?
Definitivamente não. Agnelo optou por fazer um governo conservador. Seja na gestão das finanças públicas, seja na gestão política. Buscou alianças com setores atrasados, com partidos fisiológicos, com personagens que tinham sido enterrados pelos esquemas de corrupção de governos passados. Agnelo os ressuscitou para a vida pública. É um governo velho, também em sua forma de administrar, onde tudo está centralizado no governador, e em poucas pessoas designadas para ser o “núcleo duro”. A chegada de Swedenberger Barbosa é mais uma prova disto.
O Sr. conhece o Berger, estiveram juntos no governo Cristovam…
Sim, conheço bem e há tempos. Fomos militantes juntos quando eu estava no PT, o considero um quadro político extremamente preparado e, com certeza, ele não veio do Governo Federal para o GDF de graça. Ele fará um “freio de arrumação” neste governo. Foi certamente um apelo do Agnelo e do próprio PT que, vendo o barco afundar, este verdadeiro desastre que é o governo Agnelo, foram pedir auxílio ao Governo Federal. Berger é uma pessoa capacitada, e tem o aval do Governo Federal para as intervenções pontuais.
E as denúncias contra o governador?
Pesam sobre Agnelo acusações sérias no campo da ética. E não estão devidamente esclarecidas. Primeiro em sua gestão no Ministério dos Esportes, e depois como diretor da Anvisa. Sem esquecer o episódio das tais fitas do Durval Barbosa, às quais o Agnelo assistiu sem depois tornar a público o conteúdo das gravações. Ele nunca se explicou sobre isto, nem na imprensa, nem nos debates o que, para mim, é uma atitude no mínimo suspeita.
Há ligações suspeitas?
Minha opinião é que Agnelo está irremediavelmente comprometido com estes esquemas de financiamento de campanha. Com grupos empresarias que têm profundos interesses em negócios com o Distrito Federal e, consequentemente, pouco coisa vai mudar em direção àquele programa histórico que PT alardeava. Por exemplo, não vemos controle popular sobre a gestão pública. Mais simples ainda: eu dizia na campanha que meu primeiro ato à frente do Buriti seria realizar uma auditoria completa, em conjunto com os órgãos de controle do Estado. Pois bem. Fizeram questão de não mexer nisso. Não há nenhuma iniciativa do Governo Agnelo Queiroz em apurar as denúncias contra o governo anterior. Não há nenhuma ação da Procuradoria-geral para reaver o dinheiro que foi para a corrupção.
Como descrever o quadro político atual?
A complexidade é acentuada. O rorizismo ainda tem influência, principalmente nas camadas mais populares. O próprio Joaquim Roriz exerce uma certa liderança carismática nas principais cidades. Mas diante de seu impedimento em razão da Ficha Limpa, a situação está ainda mais indefinida. Mas podemos colocar algumas considerações. Se o Governo Agnelo não conseguir atender aos apelos populares em termos de segurança, de saúde, de educação, de transporte, de regularização fundiária, será um governo apagado, sem marca. Neste caso, seria muito difícil a reeleição de Agnelo. Além do mais porque no próprio PT a situação está difícil.
Difícil? Como assim?
É fácil notar que há uma disputa interna pelo poder atual e futuro. O PT já tem até candidatos declarados. Geraldo Magela e Chico Leite, são uma prova disso. E há quem diga que até mesmo Patrício quer concorrer à indicação do PT, o que enfraquece ainda mais Agnelo.
Qual seria a saída?
Eu entendo que pode surgir no horizonte uma possibilidade de aliança que eu qualificaria de ética, honesta, pela esquerda, com pessoas que têm passado combativo, de luta pela população do DF. Existe uma possibilidade concreta de conversarmos neste processo com parlamentares como Reguffe ou Cristovam Buarque para evitar a permanência desse modelo implementado pelo Agnelo.
Mas o PDT é da base do Agnelo…
É o problema hoje. Vamos ter que, nestes próximos dois anos, verificar qual será a conjuntura política do DF para tentar traçar a melhor tática. De qualquer forma, hoje há um movimento no Psol para que meu nome seja de novo lançado para governador em 2014. Mas não estamos fechados ao diálogo com setores progressistas que também tenham o objetivo de romper com este governo de mediocridade representado por Agnelo Queiroz.

