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Vladimir Palmeira se desfilia do PT. Partido fica ainda menor

Vladimir Palmeira milita na luta popular desde jovem

Membro de tradicional família alagoana, vem com a família para o Rio de Janeiro em 1951, em função da transferência do pai, Rui Palmeira, então deputado federal pela UDN.

Começa a fazer política estudantil no colégio Mallet Soares, ao participar como delegado aos congressos da AMES – Associação Metropolitana dos Estudantes – no período de 1961 a 1963.

Nesta época, torna-se diretor da revista estudantil Seiva, além de fundar com outros colegas o grêmio da escola, Centro Cívico Olavo Bilac.

Em 1964, passa no vestibular para a Faculdade de Direito da UFRJ, participando das primeiras lutas estudantis da universidade.

No ano seguinte, está presente nas primeiras manifestações de rua contra a ditadura – um protesto em solidariedade aos estudantes dominicanos, diante da invasão americana a este país, e uma caminhada da faculdade até a Central do Brasil, onde se fez um comício contra o regime militar.

Participa ativamente em 1966 da reorganização da União Metropolitana dos Estudantes (UME), entidade estadual do antigo estado da Guanabara.

Em uma passeata, das inúmeras que os comensais do Calabouço realizavam para a conclusão das obras, em 28 de março de 1968, a polícia mata o estudante Edson Luiz, de 16 anos, causando revolta e comoção popular. No enterro, comparecem dezenas de milhares de estudantes além de padres, freiras, professores, sindicalistas, políticos, intelectuais.

Como presidente da UME, Vladimir lidera os estudantes nas diversas manifestações que seguiriam, como na passeata no 1º de abril, onde os estudantes denunciam a ditadura, sendo reprimidos com violência. Na missa de sétimo dia de Edson Luis, na Igreja da Candelária, a violência é ainda mais animalesca, apesar do esforço dos padres para defender o povo.

Foi sem dúvida uma das figuras centrais do movimento popular em geral e do estudantil em especial neste período. No dia 2 de agosto de 1968, Vladimir é preso. Os protestos dos estudantes são sufocados pelo exército. Ao longo do segundo semestre, a luta estudantil perde em força. Ainda se vêm manifestações de porte, reunindo mais de uma dezena de milhar de estudantes. Contudo, a repressão é cada vez mais intensa. Em setembro, Vladimir sai da cadeia, mas em outubro é preso de novo, quando a polícia desbarata o Congresso da UNE, em Ibiúna.

Em setembro de 1969 é trocado pelo embaixador americano, Charles Elbrick, com mais 14 presos políticos, que seguem banidos para o México, perdendo todos os direitos de cidadania.

No exterior, Vladimir passa por diversos países: México, Cuba, Argélia, Chile, México de novo, e finalmente na Bélgica, onde, depois de trabalhar como operário, forma-se em economia pela Universidade Livre de Bruxelas. A formatura coincide com a aprovação da anistia, no Brasil, para onde volta em outubro de 1979, depois de dez anos de exílio.

No Brasil, torna-se um dos fundadores do PT. É delegado ao primeiro encontro nacional do Partido dos Trabalhadores, onde defende e aprova a maior parte das teses do estado do Rio de Janeiro.

Em 1982 é candidato do PT ao senado federal. Na esteira da campanha para senador, companheiros o lançam candidato a deputado federal, enquanto Vladimir se torna dirigente do PT-RJ. Em 1985 é eleito presidente do PT-RJ e ganha a disputa interna que garante uma candidatura própria a prefeito do Rio.

Em 1986, Vladimir apóia a indicação de Fernando Gabeira para ser candidato a governador e é ele mesmo candidato a deputado federal.

Vladimir é eleito deputado federal constituinte. Desse modo, torna-se representante do PT na área econômica. A esquerda consegue aprovar o monopólio público da exploração mineral e uma série de medidas em defesa das empresas brasileiras, medidas que, todas elas, foram derrubadas no governo FHC.

Em 1990, é reeleito deputado federal, permanecendo como representante do PT na Comissão de Economia, com presença constante e atuante. Mas é na política onde Vladimir mais se destaca.

No primeiro Congresso do PT, em 1990, defende teses por um partido mais combativo. Participa do movimento pela deposição do presidente Collor através das lutas parlamentares e solidarizando-se com os cara-pintadas nas ruas.

Em 1993 é eleito líder da bancada do PT na Câmara, realizando uma enorme transformação na forma de atuação do partido, democratizando a liderança e organizando-a de forma mais coletiva.

Após dois mandatos consecutivos, decide não mais concorrer à Câmara dos Deputados. Em 1994, ganha as prévias para ser o candidato ao governo do Rio. Mas estas são anuladas e Vladimir perde a indicação na convenção.

Em 1998, disputa novamente e ganha a indicação na Convenção, mas uma intervenção nacional obriga o PT do Rio a se aliar a Garotinho, sob protestos da militância.

Durante este tempo, Vladimir volta à Universidade e trabalha como professor. Em 2005, torna-se doutor em História pela UFF – Universidade Federal Fluminense.

Sai candidato a governador, em 2006. Perde a disputa mas carrega uma bancada de oito deputados federais, sendo seis do PT, quando se falava em no máximo três. Isso se dá em função de uma campanha de opinião, politizada, sem esconder nenhum tema. Vladimir denuncia a política do caveirão e dá o mote: nem boca nem caveirão.

Durante o processo eleitoral, defende nova política de meio ambiente, assim como sustenta que o desenvolvimento econômico deve ser baseado em produtos de alta tecnologia e em serviços, além do turismo. Do mesmo modo, apóia a luta pelos direitos dos setores oprimidos da sociedade: negros, mulheres, homossexuais, portadores de deficiência. Propõe uma reorganização administrativa do Estado e denuncia as mentiras dos políticos tradicionais, inclusive do atual governador, que não realiza a maioria das promessas que fez.

Vladimir Palmeira deixa o PT no dia 28 de junho, terça-feira, em carta entregue ao presidente do Diretório Municipal do PT do Rio de Janeiro. O PT perde um quadro de grandiosa referência histórica, ética, política e de compromisso com as lutas populares pela transformação da sociedade.

Em sua carta de desfiliação ele cita a volta de Delúbio Soares – expulso em 2005 por envolvimento no escândalo do mensalão – como o motivo principal de sua saída. ” (…) a volta ao partido de Delúbio Soares, justamente expulso no ano de 2005, me impede de continuar nele. Pela questão moral, pela questão política, pela questão orgânica. Pela questão moral porque é evidente que houve corrupção: Não se pode acreditar que um empresário qualquer começasse a distribuir dinheiro grátis para o partido (…)”, diz trecho da carta.

Leia a íntegra da carta de desfiliação de Vladimir Palmeira:

“Ao Diretório Municipal do PT-R.J.

Meu caro Alberis,

Venho, por meio desta, me desfilar do PT. Não o faço por divergências políticas fundamentais, embora minha carreira minoritária seja de todos conhecida. Sempre me coloquei mais à esquerda da linha oficial, mas nada que, nas circunstâncias brasileiras, me levasse a deixar o partido. No entanto, a volta ao partido de Delúbio Soares, justamente expulso no ano de 2005, me impede de continuar nele. Pela questão moral, pela questão política, pela questão orgânica. Pela questão moral porque é evidente que houve corrupção: Não se pode acreditar que um empresário qualquer começasse a distribuir dinheiro grátis para o partido. Exigiria retribuição, em que esfera fosse. O procurador federal alega que são recursos oriundos de empresas públicas, sendo matéria agora do STF. Mas alguma retribuição seria, ou a ordem do sistema capitalista estaria virada pelo avesso.

Pela questão política porque o PT assumiu um compromisso com a sociedade, quando apareceram as denúncias: o compromisso de punir. E sustentamos que punimos. Punição limitada, na opinião dos petistas do Rio de Janeiro, que por seu DR pediram mais dureza, ao mesmo tempo que apontavam o caminho da Constituinte exclusiva para a reforma política imprescindível. Punição limitada, repito, mas efetiva.

Pela questão orgânica, porque o ex-tesoureiro não só agiu ilegalmente com relação à sociedade, mas violou todas as normas de convivência partidária, ao agir à revelia da Executiva Nacional e do Diretório Nacional.

A volta de Delúbio faz com que todos se pareçam iguais e que, absolvendo-o, o DN esteja, de fato, se absolvendo. Ou, mais propriamente, se condenando, ao deixar transparecer que são todos iguais.

Não creio que o sejam.

Já tinha definido que sairia caso o ex-tesoureiro voltasse. Mas, em primeiro lugar, tive que advertir amigos e companheiros mais próximos, sob pena de lhes causar embaraços. Por outro lado, o governo Dilma entrou em crise, em função das acusações contra Palocci. Sanada a crise, comunicados os companheiros, posso, afinal, lhe entregar esta carta.

Mando um abraço para você e para todos os que, dentro do PT, lutam por uma sociedade mais justa.

Rio de Janeiro, 27 de junho de 2011.

Vladimir Palmeira”

*Fonte: Sítio de Vladimir Palmeira

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