fbpx

Caos Aéreo: Quem são os verdadeiros responsáveis?

Entrevista com Raphael Sacco, pai do comandante do vôo 3054 da TAM e Lúcia da Silva, uma das organizadoras do Movimento das Esposas de Controladores de Tráfego Aéreo.

Os entrevistados estiveram em Porto Alegre e participaram, dia 10 de agosto, do Ato Contra a Corrupção, a impunidade e o Caos Aéreo, que contou com a presença de Heloísa Helena, presidente do PSOL. Não foi a primeira vez que eles atendem ao convite da Deputada Federal Luciana Genro.

Reproduzimos estratos da conversa deles com Renato Guimarães, vice-presidente do PSOL/RS, e Hugo Scotte.

Qual sua opinião sobre o caos aéreo?

Lúcia – Há pelo menos dez anos existem problemas no controle aéreo. Havia falhas de freqüência e queda de radar, mas o tráfego nunca esteve tão intenso como agora, como o próprio DAC reconhece. Os controladores fizeram uma série de relatórios sobre os problemas que tinham, sobre as demandas do tráfego aéreo que se multiplicava. Ao mesmo tempo, como não há incentivos, muitos pensam em buscar outra profissão e a evasão é muito grande. Bem antes de explodir o problema na mídia, os controladores já apontavam esses problemas no tráfego, mas ninguém tomava providências.

Raphael – O principal problema é a corrupção. A reforma do sistema de controle aéreo é urgente, ou o Brasil não será capaz de cumprir com o aumento da demanda. Mas essa reforma está paralisada, porque os únicos que tentaram alertar sobre as deficiências do sistema são os sargentos, os controladores, que foram presos. Uma das primeiras medidas deveria ser voltar a dar ao comandante o poder real de decidir sobre a aeronave, independente do que opina o departamento comercial da sua empresa. É um risco um avião sobrecarregado, e hoje o piloto é obrigado a decolar assim mesmo para não ser demitido. A segurança deve ser a prioridade na aviação.

Meu filho, o comandante Henrique Stefanini de Sacco estava escrevendo um livro: “Sem medo de voar”, que pretendo concluir. Ele mostrava que a aviação é bela… Os assassinos estão aqui, no chão. ANAC, DAC, é tudo um panelão corrompido. Porque a ligação com as empresas gera a corrupção.

Lúcia – Congonhas é uma amostra do descaso com o sistema aéreo como um todo. Hoje os controladores têm medo de se encontrar porque a Aeronáutica persegue e acha que é motim. Mas, quando se encontram, só falam dos problemas, das questões estruturais.

Quais as causas da tragédia de Congonhas?

Raphael – As causas do acidente estão relacionadas a vários problemas. O fato de estar usando um só reverso tornou o pouso menos efetivo. Pode ser também falha em um sistema da aeronave. A caixa preta vai dizer a verdade, mas será que eles vão revelar essa verdade? Está tudo tão corrompido que é preciso ter cuidado com isso. O que foi divulgado, que o piloto deixara a manete deslocada, é um total absurdo. Quando um avião está pousando, os pilotos põem as duas manetes pra trás, com uma só mão. Para separar as duas, ele teria que segurar uma com dois dedos e levar o resto para frente.

Também estão as condições da pista. O fato de ela estar escorregadia foi suficiente para interditá-la para refazer as ranhuras, o tal de groove. Elas ajudam a escoar a água e evitar a aquaplanagem. Eles tiraram a parte de cima da pista [com as ranhuras] para consertar o piso, e depois fazer de novo as ranhuras adequadas. Mas, liberaram a pista sem as ranhuras e ela ficou dez vezes pior do que estava antes. Quem fez isso, quem comandou isso é simplesmente um assassino. A pista foi reaberta, e com chuva ficou um desastre. Só com sujeira e um pouco de água a pista fica impraticável, e ela é curta para esse avião. Levando em conta a aquaplanagem, dá para entender o que aconteceu, outros dados só serão conhecidos com a divulgação do conteúdo da caixa-preta.

Lúcia: Eu soube que os controladores da torre pediram para checar a pista e fechá-la e que os pilotos reclamavam que ela estava escorregadia. Mas a Aeronáutica não quer nem ouvir sugestão de controlador, porque é um sargento. Embora sejam técnicos e suas decisões serem tomadas a partir deste embasamento técnico, eles são sargentos e não podem abrir a boca.

Por isso o Movimento das Esposas dos Controladores?

Lúcia: Nosso movimento começou no dia 30 de março, com a paralisação que os controladores fizeram por cinco horas. Não foi premeditado. Todos pensavam que se não paralisassem, ninguém iria ouvi-los. Mas todos tinham muito medo de fazer isso. Então pensaram em fazer uma greve de fome, trabalhando. Ocorre que aquele dia houve uma formatura militar, e todo controlador que não estivesse de serviço era obrigado a ir. Todos os controladores que não estavam de serviço foram, e não saíram mais, se auto-aquartelaram em Brasília, enquanto continuava a greve de fome em Manaus. A responsável pela paralisação é a Aeronáutica. Eles subestimaram os controladores. Os sargentos tiveram que sair para a rua e bloqueá-la. As esposas souberam pela imprensa e foram até o CINDACTA. Como sou civil, resolvi falar para a imprensa, e assim começamos a nos organizar. Principalmente depois que o Lula resolveu punir os controladores. Esse movimento surgiu para falar pelos controladores, já que eles não podem falar, e evitar a evasão, pois muitos não estão suportando a pressão e a humilhação. A Aeronáutica tem usado os controladores como escudo para se proteger de todas as coisas que ela deixa de fazer. Tentam passar para a sociedade que a culpa é dos controladores.

Por que vocês estão em Porto Alegre?

Lúcia: Viemos a convite da deputada Luciana Genro, para participar do Ato contra o caos aéreo e a corrupção, para falar, denunciar. Queremos continuar brigando pela democracia. E só vai haver democracia se houver desmilitarização, já que os controladores são obrigados a omitir problemas sob ameaças, com risco de prisão, de transgredir a segurança nacional, o que é uma mentira, pois os controladores civis não têm nada a ver com o controle de tráfego militar. Como vai haver transparência em um sistema como esse?

Raphael: Eu também estarei no ato, porque é preciso denunciar a corrupção, os interesses das grandes empresas como a Boeing.

Mas quero dizer uma coisa: meu filho não matou ninguém, ele também foi assassinado junto com todos os passageiros. Os responsáveis são a Aeronáutica, as empresas, o presidente…

Cadastre-se e recebe informações do PSOL

Relacionados

PSOL nas Redes

469,924FãsCurtir
362,000SeguidoresSeguir
26,600SeguidoresSeguir
515,202SeguidoresSeguir

Últimas