Fui uma única vez a Barcelona, acompanhado de minhas amadas filhas. Após o fascínio místico na catedral da Sagrada Família e a emoção artística no Parque Güell (viva Gaudí!), a vida frenética e jovial voltou, na nossa caminhada pelas Ramblas. É a Barcelona acolhedora da diversidade, dos mil sotaques, da cidade como espaço democrático. Agora, com a prefeita Ada Colau (do Podemos autêntico) liderando uma administração comprometida com o direito à moradia digna, e originária dessa luta, a capital catalã ficou mais fascinante ainda.
Como disse Chico Amaral (O Globo, 18/08/17), “a cidade é um caldeirão onde se cozinha a política do século XXI. Com ou sem partidos, vizinhos se organizam em assembleias – herança da militância anarquista da virada do século XIX – em coletivos ou em plataformas e, de fato, disputam as rédeas da política da cidade”.
Por tudo isso, ao ouvir a notícia do atentado covarde e ver as imagens das Ramblas com gente morta e ferida pelo chão, foi impossível não chorar. E não me indagar sobre que mundo é esse que estamos engendrando, marcado por ódio, terror e perigo letal ali onde o bom da vida deveria ser alegremente sorvido…
Nada do que os criminosos – ao que se sabe, muito jovens! – tenham sofrido em seu passado remoto ou recente justifica o ato desatinado de matar deliberadamente tantos inocentes. Além do mais, esse tipo de ação estúpida só tem um resultado: fortalece os que querem as respostas da islamofobia, do fechamento de fronteiras, dos muros do autoritarismo absoluto.
Não por acaso, Trump, o belicoso arrogante e irresponsável, citou o “castigo exemplar” dado pelo general Pershing nas Filipinas, controlada pelo imperialismo estadunidense no início do século passado: “o general pegou 50 terroristas que fizeram um tremendo estrago (…), pegou 50 balas e as mergulhou em sangue de porco (os muçulmanos consideravam o porco um animal impuro). Fuzilou 49 deles e disse ao que foi poupado: ‘volte para seu povo e diga o que aconteceu’. Por 25 anos não houve mais problema algum”. A “solução final” de Trump lembra Hitler.
Enquanto essas atrocidades físicas e verbais acontecem, não podemos nos vangloriar de aqui estarmos “em paz”. Há um ovo da serpente sendo chocado quando são mitificados os que elogiam a tortura, a censura, a truculência, pelo lado dos saudosistas da Ditadura. Com ou sem disfarce, crescem o racismo, os preconceitos, a intolerância irracional. E persiste o horror dos que ferem de morte nossa precária democracia com seus conluios corruptos, com sua política de retirada de direitos, com suas alterações no sistema político apenas para se manter como casta dominante e escapar às investigações. O poder (e os que a ele aspiram), entre nós, é como uma van desgovernada que vai atropelando, sem remorso, os que apostam na cidadania.
Em Barcelona e aqui só há um caminho: resistir. A estupidez não pode ter a última palavra.

