O desafio que o crime organizado lançou ao governo do Estado de São Paulo é resultado do colapso de uma política de segurança pública baseada apenas na repressão brutal. Ela não funciona, por ser, acima de tudo, ineficiente. Não ataca as causas do problema, não é preventiva e não investe em inteligência policial.
É necessária uma integração de diversas políticas públicas, que vai
além apenas do investimento na estruturação das forças de segurança. A
experiência concreta mostra que tão decisiva quanto a ação policial,
são investimentos em distribuição de renda, educação, lazer e
participação popular.
Se medidas como essas não forem implantadas imediatamente, não é
nenhum exagero dizer que a instalação de um estado de caos social,
muito maior do que o atual ataque do PCC em São Paulo, é apenas uma
questão de tempo.
Infelizmente, em vez de atentar para o risco que a sociedade
paulista está correndo, os partidos da classe dominante estão usando o
episódio para fazer politicagem. Acabam por travar uma guerra política
menor – um acusando o outro de imprevidência, falta de energia e outras
críticas do mesmo teor.
A estratégia correta para deter a escalada do crime organizado não
consiste apenas em dotar a policia de armas mais poderosas e em
aumentar as penas das infrações criminais, mas, principalmente, de
reestruturar de cima abaixo todo o aparelho repressivo do Estado,
substituindo primitivos métodos de coação adotados atualmente por
métodos baseados nos recursos modernos da psicologia e em experimentos
exitosos com a aplicação de penas mais humanas e mais eficazes. Essa
revisão não pode deixar de abranger uma verdadeira devassa na vida dos
integrantes dessas instituições, porque todos sabem que não há crime
organizado sem conexões com altas autoridades do aparelho repressivo do
Estado.
Mas nada disto terá efeito se a reestruturação do aparelho
repressivo não for acompanhada por uma verdadeira reforma urbana, pois,
como é conhecido de todos, a aglomeração de grande número de pessoas em
habitações precárias, em espaços reduzidos e de vias de circulação
estreitas, favorece a logística do crime e dificulta a vigilância
policial.
A classe dominante não tem condições de fazer esse diagnóstico e,
menos ainda, de tomar essas medidas porque isto implicaria cortar na
própria carne. Na verdade, ela só consegue pensar em mais truculência
contra a truculência dos bandidos quando, na verdade, o problema só
poderá ser resolvido quando a sua própria truculência contra a
população for detida.
São Paulo, 15 de maio de 2006

