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Entrevista – Multinacionais e latifúndio

Hugo Scotte entrevista  Mauro Zibulski, do MST/RS.

“Hoje as polícias estaduais têm uma força especial para cuidar das lavouras. No caso do Paraná, onde o Governador não tem essa política, as empresas contratam segurança privada. A Via Campesina e o MST ocuparam os terrenos da Syngenta para denunciar que a empresa fazia experimentos com transgênicos e estava descumprindo a lei, porque lá é proibido produzir transgênicos.

Os pistoleiros assassinaram o companheiro Keno e feriram mais seis, alguns deles estão ainda em estado grave, com a saúde comprometida para o resto da vida. As multinacionais utilizam agora essas “empresas de segurança” formadas por pistoleiros, como fachada, para reprimir os trabalhadores que lutam por terra e as outras organizações sociais, não só no Paraná, mas em todo o Brasil.

Aqui, no Rio Grande do Sul, temos o caso da fazenda Coqueiros, protegida pela Brigada Militar (polícia militar do Estado) há quatro anos.

Quando os fazendeiros atacam os trabalhadores, como ocorreu em vários lugares: Bagé, São Sepé…, a polícia do estado nada faz.

Na violência contra os trabalhadores, a Justiça é conivente, grande parte da mídia é cúmplice e o Estado protege os fazendeiros e as multinacionais”.

Mauro Zibulski

As multinacionais estão se instalando na Região Sul?

As três grandes empresas que estão impedindo que a reforma agrária avance no Estado do Rio Grande do Sul são: Aracruz Celulose, Votorantins e Stora Enso.

As multinacionais são donas de latifúndios que crescem cada vez mais. Há um projeto para plantar eucalipto em um milhão de hectares para produzir celulose até o ano de 2020. Nessa área daria para assentar 43 mil famílias. Cada planta consome por volta de 30 litros de água por dia; além disso, o eucalipto não deixa outra vegetação se criar no meio.

Nós iniciamos uma marcha no dia 11 de setembro, composta por três colunas de 500 pessoas cada uma. Durante os primeiros dias, fizemos o debate com a sociedade e a denúncia do que significa essa monocultura da celulose. Fizemos mobilizações em Porto Alegre, em frente ao palácio da Governadora Yeda Crusius. Ela simplesmente trocou a Secretária do Meio Ambiente, exonerou funcionários e não aceitou o relatório feito pelos técnicos e pelas universidades, que alertava sobre os danos ecológicos dessa produção. Liberou, inclusive, plantios de eucalipto em aéreas de fronteira. Por lei, as empresas multinacionais, estrangeiras, não poderiam se instalar a menos de 15 quilômetros das fronteiras, por uma questão de segurança nacional. A governadora autorizou isso e a Justiça é conivente. A Stora Enso, que é uma empresa da Finlândia, agora pode instalar-se em nossas fronteiras.

Lá, no país deles, o eucalipto leva quase trinta anos para crescer. Mas no Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, por causa do clima, do solo, da água, passados sete ou oito anos, já está pronto para o corte. A madeira é cortada, esmagada, branqueada com cloro – o que leva a toda uma destruição da água, da natureza – e, finalmente, é enviada ao exterior, onde é transformada verdadeiramente em matéria prima. Eles dizem que geram empregos, mas deve ser em outros países. Aqui só fica a destruição da natureza. É o grande negócio das empresas no Uruguai, na Argentina, no Sul do Brasil.

 

Há uma transformação do latifúndio?

As grandes empresas de celulose estão se instalando nos principais reservatórios de água doce: o Guaíba, o Rio Uruguai e o Aqüífero Guarani. Elas estão ali para lavar celulose. A água será, com certeza, o negócio do futuro.

O governo brasileiro é cúmplice porque financia as empresas que compram o latifúndio, em lugar de financiar assentamentos de trabalhadores sem terra.

Hoje, para um latifundiário, o melhor negócio é vender a terra para as multinacionais. A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul  (FARSUL), participa ativamente desses negócios.

Na área de São Gabriel, a Fazenda da família Southal possui uma dívida de 54 milhões de reais. Se vendesse toda a área de 13 mil hectares que ocupa, não conseguiria pagar o total dessa dívida, a maior parte contraída com bancos públicos (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banrisul) e com o INSS. A Justiça deveria executar essa fazenda por conta da dívida histórica não paga.

Hoje, a disputa está colocada e só há duas saídas: ou se assentam as famílias de sem terra ou a terra vai ser vendida para o plantio de eucalipto. A Aracruz já está comprando. Então, por que os fazendeiros deixam a Aracruz, comprar essa terra e não querem que os pobres se assentem aí, onde seriam gerados, imediatamente, 1.500 empregos?

O plantio de eucalipto gera, hoje, segundo dados das universidades, um emprego a cada 185 hectares. A agricultura familiar gera um emprego a cada cinco hectares, às vezes, mais.

A maioria dos governadores está comprometida com essas grandes empresas, até porque as suas campanhas eleitorais são financiadas por elas. Pouquíssimos candidatos a deputado ou ao governo não receberam doações para campanha dessas empresas.

E o Governo Federal não tem a coragem, a vontade, de enfrentar a bancada ruralista que historicamente mama nas tetas do Estado. Fica negociando com eles, que acabam sempre levando a melhor fatia. Assim, a reforma agrária não avança, como tantas outras questões sociais que já deveriam ter avançado no Governo Lula. O presidente deveria assumir uma posição diferente pela sua origem, pelo seu compromisso, pela sua história…

 

Por que não avança a reforma agrária?

No Rio Grande do Sul há em torno de 130 mil famílias sem terra – segundo dados do IBGE de três anos atrás – e 838 latifúndios com mais de 2 mil hectares. Desapropriadas essas terras, daria para assentar as 130 mil famílias. Isso praticamente resolveria o problema da terra no Estado.

Por exemplo, a Fazenda da família Guerra, em Coqueiros do Sul, tem 9 mil hectares, ali daria para assentar 450 famílias. Ela gera, hoje, 2 empregos diretos, com carteira assinada, e 20 indiretos, pessoas que, temporariamente, trabalham naquela fazenda. Ela abrange 28% do município e gera só 6% do imposto de todo o município. O prefeito de Coqueiros do Sul tem dito que quatro aviários de pequenos agricultores geram mais impostos que toda a Fazenda Guerra, uma vez que ela, produzindo soja para a exportação, beneficia-se da Lei Kandir, que insenta de impostos quem produz para exportar.

O Governo do Estado não tem nenhuma política a favor da reforma agrária e o Governo Federal apenas assenta, às vezes, um pequeno número de famílias, para amenizar a situação.

Para o primeiro plano de assentamentos do Governo Lula, nós, do MST, propúnhamos 1 milhão de famílias assentadas. O Governo aceitou mas, depois, baixou para 460 mil. E assentou apenas 105 mil famílias no país durante todos seus anos de mandato. No RS, somente 810 famílias foram assentadas.

O Governo Federal justifica-se dizendo que não há áreas improdutivas, que tem problemas, que há terras que não podem ser mexidas… Mas para encarar esse problema, deveria ter políticas. Por exemplo, os índices de produtividade vigentes não foram mexidos, eles têm mais de 35 anos. Os fazendeiros ganharam, nesse tempo, o cultivo de transgênicos, uma tecnologia avançadíssima, que gera uma produtividade maior. Se o Governo não atualizar esses índices, se não tomar novas determinações sobre o tamanho das propriedades, a reforma agrária não vai avançar.

É por isso que nós, não tendo mais saída, pois no Estado temos famílias que estão acampadas há mais de cinco anos, organizamos essa marcha de três colunas, 1.500 pessoas no total. E estabelecemos um debate com a sociedade: a denúncia qu
e a Reforma Agrária não avança e a transformação do latifúndio para a produção de celulose. As multinacionais estão desenvolvendo uma pesada propaganda na imprensa, nas escolas estão distribuindo cadernos, onde aparecem como os “salvadores da pátria”.

Os grandes meios de comunicação têm trabalhado criminalizando os movimentos sociais. Não mostram a luta pela reforma agrária, não mostram a realidade dos assentamentos do MST, apenas mostram o conflito.

 

Qual a avaliação da Marcha?

Acreditamos que esta marcha está sendo muito boa porque retoma o debate da importância da reforma agrária, do apoio social, dos movimentos populares, do movimento sindical, das associações de bairro… Trata-se de debater um projeto alternativo ao do agronegócio da celulose para exportação, que é colocado pela grande imprensa como a grande solução. Nós convidamos a população para visitar nossos assentamentos e comparar a nossa produtividade e utilidade social com a dos latifúndios, porque temos um projeto de desenvolvimento agrário, porque somos contra a produção de transgênicos. Somos contra a produção de celulose em grande escala para exportação. As multinacionais tentam arrendar terras das famílias assentadas para o cultivo de eucalipto, oferecendo financiamento para parcerias que visem a plantação de madeira para produzir celulose. Nós dizemos que é necessário produzir alimentos.

 

Que produzem os assentamentos do MST?

Nós temos produção agroecológica na região de Porto Alegre, onde há pouco mais de mil famílias assentadas. Este ano colhemos 55 mil sacas de arroz orgânico.

Temos uma vasta produção de hortigranjeiros que vendemos diretamente nas feiras, e produzimos sementes orgânicas certificadas.

Muitas das nossas experiências provam que é possível um outro projeto de agricultura. Mas os meios de comunicação, as grandes empresas, vendem o agronegócio como a solução para agricultura no Brasil, desde o adubo e os transgênicos até a celulose – um pacote completo que só beneficia as grandes empresas.

 

Os assentamentos estão recebendo ajuda do governo?

O crédito que hoje é repassado para os pequenos agricultores, para os assentados, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), é um crédito que não serve para a agricultura familiar. É um crédito que endivida. Toda a agricultura do mundo, não só a familiar – veja o exemplo da Europa -, é subsidiada pelos governos. E aqui, no Brasil, não é. A agricultura familiar não vai sobreviver sem apoio do governo.

O dinheiro repassado, em torno de 20 mil reais, deve começar a ser pago no terceiro ano. As famílias não conseguem, em três anos, estruturar a propriedade para produzir e pagar essa dívida.

É necessário criar outro tipo de programa, porque o agricultor não consegue pagar o financiamento. Esperamos, através da luta, alterá-lo para o próximo ano.

 

O Brasil necessita novas instituições?

A estrutura do Estado não serve para o povo brasileiro, nem o Judiciário, nem o Executivo, nem o Legislativo.

O antigo “revolucionário” Lula dizia que o Congresso era “um bando de picaretas”. O Parlamento é um grande balcão de negócios para votar projetos que só servem à articulação política dos poderosos e quem, historicamente, resta prejudicada é a classe trabalhadora. É um escândalo atrás do outro. Ou você luta para mudar o Estado Brasileiro, ou a situação não vai ser alterada.

O Governo Lula, pelas posições que tomou, cumpriu um papel de esfacelamento da esquerda brasileira e de desmobilização dos movimentos sociais, através da troca de favores para a votação de políticas que historicamente Lula combatia e hoje negocia para aprovar. A reforma da previdência e as outras reformas que vêm aí, com certeza, vão tirar direitos dos trabalhadores, mais uma vez.

Ainda não há reação suficiente do povo. O Governo Lula é um governo fraco, ele foi eleito num refluxo de massas muito grande e envolveu-se em tantos escândalos que esfacelou demais a esquerda e os movimentos.

Antes, o Partido dos Trabalhadores aglutinava outros partidos da esquerda nas suas lutas; hoje, surgem novos partidos, novas centrais sindicais, a tendência não é para somar.

A bandeira da reforma agrária ainda consegue unificar, mas com muita dificuldade. Para modificar isso, acho que é necessária uma grande mobilização social, que deverá demorar um pouco porque tudo está muito fragmentado. Não pode, cada movimento, brigar só pela sua bandeira. Ou se juntam os movimentos sociais do campo e da cidade para debater alguns pontos centrais que atingem todos, ou não iremos avançar. Há alguns sinais de que é possível começar a debater, porque a crise vai vir aí.

Penso que há uma bandeira importante: a luta contra a reforma da previdência, que vai tirar direitos de todos os trabalhadores, tanto urbanos como rurais. Hoje, há que lutar para defender direitos já conquistados. Esse é um ponto que poderia unificar as lutas da classe trabalhadora.

Nossa marcha tem muita importância para o debate; atingimos muitas escolas, igrejas, movimentos sociais. Ela cumpre o papel que seria da grande imprensa, quando atinge a pequena imprensa local. Muita gente nos viu marchando, falamos com muita gente e chamamos para que se juntassem a nós no enfrentamento ao grande Capital, a essas transnacionais que estão transformando o latifúndio em agronegócio que acreditam ser “de primeiro mundo”, mas que destrói o nosso.

 

Como vê a situação na América Latina?

Na luta contra o grande Capital, a América Latina dá sinais e parece que o processo mais avançado está na Venezuela. Nós temos uma relação muito boa com a Venezuela e com o Governo Chávez, com quem temos parcerias na área da educação. Com Cuba também, temos muitos alunos ali, alguns já formados, que estão voltando. Recentemente, foi aberta uma escola latino-americana de Agronomia na Venezuela. Muitos dos nossos filhos de acampados e assentados estão estudando lá, sustentados pelo Governo Chávez. Estamos nos preparando para exportar leite em pó. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão debatendo fazer parcerias para mandar leite em pó para a Venezuela. Nossa produção daria conta de 2% da demanda venezuelana. E temos muitos militantes trabalhando na Venezuela, ajudando os agricultores a plantar sementes – eles têm muitas dificuldades porque nunca havia sido dada antes importância à agricultura familiar.

Há tratativas bem avançadas para que o Governo venezuelano financie uma fábrica de suco no Rio Grande do Sul, com a idéia de também exportar para a Venezuela.

Agora Chávez está chamando a um plebiscito para mudar a Constituição, acho importante que a população se manifeste sobre os rumos do país.

A Venezuela está avançando a passos largos, isso talvez sirva como exemplo para outros países, principalmente ao Brasil.

Acredito que há uma revolução na Venezuela, ainda falta muito para criar a República Bolivariana, socialista, mas avança-se nesse sentido.

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