Do Pará para o Congresso Nacional sem escalas, a deputada federal mais jovem do PSOL põe o nome e o sobrenome na política institucional.
Por Mulheres do PSOL
Celebrando este #JulhoDasPretas entrevistamos a Deputada Federal Vivi Reis, a parlamentar paraense de 29 anos que já chegou na política institucional assumindo uma cadeira na Câmara Federal.
Mulher, negra, amazônida, feminista e LGBT, Vivi tem enfrentado a violência política dentro e fora dos espaços legislativos em defesa de suas pautas primordiais, a defesa da Amazônia, dos Direitos Humanos, da saúde pública e da educação.
Educadora, formada em fisioterapia, ex-servidora pública concursada no interior do Pará, trabalhadora da saúde, defensora dos direitos das mulheres, dos negros, dos povos indígenas e população LGBT. São diversas as pautas que atravessam a deputada mais jovem do PSOL na Câmara, e apesar da pouca idade Vivi é categórica: Não vou aceitar que me chamem de menina!
Você é hoje a deputada federal mais jovem do partido. Como e quando se deu o início a sua atuação na política?
Sempre fui muito engajada em diversas atividades coletivas, em atividades do bairro, na escola, sempre gostei muito de atividades culturais, mas naquela época não entendia que podia ser uma forma de fazer política.
Minha entrada na política partidária se deu a partir do movimento estudantil. Quando entrei na Universidade do Estado do Pará, fui do centro acadêmico de fisioterapia, depois atuei no diretório central dos estudantes da UEPA, onde fui coordenadora geral do DCE, e nesse contexto fui mantendo relação com os movimentos organizados e conheci o PSOL. Me filiei em 2011, mas só me tornei candidata em 2018. Antes disso, coordenei campanhas, liderei equipes na militância. Em 2018, me candidatei a partir da percepção de que havia uma necessidade de apresentar um programa voltado para as mulheres. Nosso mote inclusive foi “Pela Vida das Mulheres.” E a gente não tinha nenhuma perspectiva de se eleger, era uma candidatura para demarcar uma posição política, e não esperávamos que fossemos ter uma votação tão expressiva a ponto de me colocar na posição de primeira suplente. Em 2020, eu sabia que já existiam mais possibilidades por já ter tido um bom resultado em 2018, e fui a mulher mais votada em Belém. Com a eleição do Edmilson pude escolher se assumiria como vereadora ou se assumiria a cadeira de Deputada Federal.
Na sua construção política enquanto deputada, como traduz a realidade das mulheres negras ao propor projetos e iniciativas?
Não tive outras experiências parlamentares, já iniciei como Deputada Federal, então traçamos muito bem o que a gente ia querer do mandato. A gente tenta fazer essa relação entre as pautas políticas da legislatura com a autenticidade do que sou e represento. A gente também entende que as pessoas depositaram essa confiança para representá-las e com isso elas também enxergam esse projeto de luta antirracista, feminista, anti- LGBTfóbica e com a identidade do próprio PSOL. Hoje temos alguns eixos prioritários e eles têm muito a ver com o que eu sou. Hoje uma das nossas maiores prioridades é a defesa da Amazônia, e nisso abarcamos a luta dos povos indígenas, dos povos quilombolas. A própria forma como eu me apresento publicamente traz um pouco disso, sempre tento trazer elementos e símbolos que remetam a essa identidade cultural amazonense, é uma forma de me conectar com essas pautas. Nosso mandato é construído por pessoas assim.
Você tem sido alvo de constantes ataques enquanto Deputada Federal, como você percebe a crescente onda de violência política de gênero e raça, contra parlamentares?
Eu imaginava que seria difícil, mas quando a gente sente na pele toda essa prática de racismo, de machismo e LGBTfobia dentro da Câmara é muito doloroso. Não tem um dia que eu não sou barrada. Todos os dias em algum lugar alguém me pergunta onde está meu crachá de assessora. Todos os dias eu uso aquele broche de parlamentar, mas as pessoas que me barram sequer prestam atenção nele. Tenho certeza de que pensam duas vezes antes de abordar ou barrar qualquer homem branco de terno e gravata. Nenhum homem branco passa por isso.
Já aconteceu de me chamarem de menina. Eu parei e corrigi. Tenho nome, meu nome é Vivi Reis, não vou aceitar que me chamem de menina! É como se nós não merecêssemos nem ser nomeadas, como se não tivéssemos identidade. Uma deputada bolsonarista já ordenou que me tirassem da Câmara. Foram diversos episódios em que tive de lidar com deputados me interrompendo, me impedindo de falar. E se a gente for falar nos episódios fora da Câmara… Durante as eleições tive o pneu do meu carro furado, mostraram arma para a equipe de campanha, durante uma carreata disseram que não era para votarem em mim porque “sapatona não pode ser vereadora”. Em redes sociais é ainda pior, já recebi ameaças de estupro, já disseram que eu deveria ter o mesmo fim da Marielle [Franco]. Só saio de carro, hoje em dia já não círculo mais sozinha nos espaços públicos, nem de bicicleta. A violência pode vir de qualquer forma, então tento me preservar ao máximo.
Como as pautas de mulheres amazônidas se conectam com a luta feminista e antirracista de uma forma geral?
Primeiro de tudo, a gente precisa entender que a luta pela defesa da Amazônia é uma luta internacionalista. Não dá para falar da Amazônia e achar que essa discussão está limitada a uma região localizada ao norte do país, e esquecer que tem toda uma diversidade, ambiental, cultural e de povos. A Amazônia é necessária também para uma estabilidade climática, social e política. Precisamos entender como algo que não é específico. E eu digo isso porque hoje no lugar em que estou consigo enxergar com mais clareza que quando era convidada para falar a nível nacional, minhas pautas locais eram lidas como pautas muito específicas, e quando uma pessoa do Centro-Sul ia apresentar suas pautas locais não recebia essa mesma leitura. As pautas desse suposto eixo político são tratadas como pautas gerais. “Ah, lá vem a Vivi fazer o recorte sobre Amazônia!”. Quando a gente fala de feminismo, a gente fala de um feminismo plural também. Esse lugar do feminismo antirracista amazônida, é o lugar que me diz que esse problema não é só meu. Eu não quero estar sozinha falando de Amazônia a vida toda. Falar enquanto mulher negra amazônida é um local de fala importante, mas não quero ser taxada como aquela que reduziu a pauta a seu território. Esse é meu principal ensinamento como deputada federal, a minha luta como mulher negra amazônida não pode ser vista como uma luta secundária e limitada. é uma luta que serve, inclusive, para direcionar outras lutas.
Neste #JulhoDasPretas temos abordado a vida das mulheres negras em um contexto de mortes no país por “bala, fome e Covid”. O que você pensa sobre esta perspectiva?
Vivemos um momento desesperador, a gente percebe que não é só um problema de saúde, no início da pandemia diziam que a Covid-19 era uma doença democrática, que não haveria distinção entre pobres e ricos, e na realidade não é isso que temos visto. A gente sabe quem é que está em maior vulnerabilidade, quem está mais exposto. Tem gente que sequer tem água encanada, gente que não tem acesso ou condições para cuidar da própria saúde. A doença não teve nada de democrática, ela reforçou todos os problemas sociais que já existiam no país. Aumentou a fome, o desemprego, a violência doméstica, a violência contra grupos LGBTS e a gente sabe que as mulheres foram as maiores atingidas. Fizemos algumas atividades de solidariedade ativa para auxiliar minimamente, mas o que foi decisivo para muitas famílias conseguirem ter o alimento dentro de casa foi o auxílio emergencial que foi reduzido drasticamente. Além disso, precisamos falar das questões dos despejos. Quando a gente falava “Fica em casa!” para algumas pessoas era “mas que casa?”
Na condição de uma mulher tão jovem, qual horizonte você enxerga para as mulheres negras, lgbts e das periferias desse país.
A gente vem de um processo de ascensão das lutas, as marchas de mulheres negras sendo construídas, a primavera feminista que conquistou vários levantes, inclusive internacionalmente, e hoje conseguimos nos localizar muito mais politicamente. Elegemos várias mulheres negras, várias mulheres trans. A gente vem ressignificando a questão das lutas e das nossas dores, buscando uma atuação muito mais ampla, conectada com outras pautas também. E cada vez mais vemos a necessidade de um feminismo que seja antirracista. E ao mesmo tempo a gente está vivendo um Brasil sob o governo Bolsonaro, com tentativas de nos anular. A definição da nossa luta é a necessidade de estar em movimento constante. E vejo algo muito próprio de mulheres negras, e que tem sido uma alternativa para a nossa sobrevivência, que é a nossa rede apoio, nas próprias periferias isso está muito presente. E é muito importante para avançarmos em nossa luta. Eu e Taliria [Petrone] somos um exemplo disso, estamos o tempo todo ali dando suporte uma à outra. Se a gente não se fortalece, a gente em algum momento é derrubada. E eu acredito na inspiração que a Marielle traz para a gente. E nos mostra que a gente não pode deixar de estar nestes lugares. Logo após sua morte se criou muito o sentimento de que precisamos de mais Meirelles. Na época da eleição eu mesma fui citada como a Marielle da Amazônia, é essa a identidade que quero carregar comigo!



