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Morre Videla, a ferida ainda está aberta na Argentina

Às 08:25 hora local do dia 17 de maio de 2013, deixou de existir um dos ditadores mais sanguinários da história latino-americana, o ex-general Jorge Rafael Videla, cuja ditadura encheu a Argentina de luto.
 
Depois do golpe militar liderado por ele em 24 de março de 1976, Videla ocupou a presidência até 1981; durante esse período, desapareceram ou foram assassinados, executados, além de outras inumeráveis violações, ao redor de 30 mil argentinos de todas as idades.

Videla morreu por causas naturais em uma cela na qual cumpria várias penas perpétuas. Foi condenado no chamado ‘julgamento aos generais’ realizado durante o governo do presidente Raúl Alfonsín.

A Câmara Legal o considerou responsável por diversos homicídios qualificados, 504 privações ilegais de liberdade, torturas, roubos, extorsão e sequestros extorsionários.

O secretário argentino de Direitos Humanos, Martín Fresneda, afirmou que “não comemoro a morte de ninguém; mas felicito uma Argentina que soube fazer justiça”.

“Videla morreu julgado, condenado, preso em um cárcere comum e repudiado por todo o povo argentino”, escreveu o chefe de Gabinete, Juan Manuel Abal Medina, em sua conta pessoal de Twitter depois de publicada a notícia.

“Não vamos sentir alegria, porque nenhuma morte pode nem deve gerar alegria, mas vamos sim nos sentir mais aliviados”, expressou Estela de Carlotto, principal figura das Avós da Praça de Maio.

Videla nunca se arrependeu do que fez, e inclusive afirmou que se tivesse que fazer de novo, o faria, lembrou a lutadora pelos direitos humanos e pela busca de milhares cujo paradeiro ainda é desconhecido.

De Carlotto, como outros militantes dos direitos humanos, lamentou que o ex-general não tenha dado informação para que fosse descoberto o paradeiro dos desaparecidos durante a ditadura militar.

“A história avaliará o genocídio e a vergonha que foi a ditadura cívico-militar presidida por ele e da qual não se arrependeu”, afirmou De Carlotto.

Para o titular da Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual, Martín Sabbatella, “Videla morreu onde e como devem morrer os genocidas. Morreu no cárcere comum e com condenação séria pelos crimes que promoveu e foram cometidos”, afirmou.

Quando morreu, cumpria várias penas perpétuas e enfrentava um novo julgamento pelo chamado Plano Côndor, a coordenação internacional da repressão ilegal entre governos de facto latino-americanos e a CIA estadunidense.

Sua última presença na corte federal de Retiro, em Buenos Aires, foi na terça-feira 14 de maio, para responder a questionamento perante o Tribunal Oral Federal 1 pela Operação Côndor, pela qual era julgado junto a outros 24 acusados.

Ali se negou a declarar, mas leu um breve manifesto no qual assumiu “plenamente” as “responsabilidades militares” pelo acontecimento que chamou de “guerra contra o terrorismo”, tirando as culpas de seus subordinados.

Nora Cortiñas, integrante do grupo Mães da Praça de Maio-Linha Fundadora, lamentou que “morrem os genocidas, mas se vão sem abrir os arquivos”.

“Queremos que sejam abertos, que saia tudo à luz, que não morram levando consigo o segredo. Mas morreu em uma prisão comum, o que demonstra que pelo menos a impunidade está acabando”, considerou Cortiñas.

Citado pela agência de notícias Télam, Carlos Pisoni, membro do Grupo HIJOS (Filhos), considerou que “foi-se um dos personagens nefastos da história Argentina”, mas em câmbio se lamentou porque o genocida Videla levou “muitos segredos à tumba”.

“Sabia onde estão nossos familiares desaparecidos e nossos irmãos sequestrados”, no entanto não teve a compaixão de nos dizer.

Para o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, “não se fechou um ciclo, há que procurar mais verdade e justiça”.

‘Processo de Reordenação Nacional’ foi o nome dado pelos golpistas à ditadura cívico-militar que se apoderou da Argentina desde o golpe de Estado de 24 de março de 1976, com o derrocamento do governo constitucional da presidenta María Estela Martínez de Perón, até 10 de dezembro de 1983.

Nesse dia, Raúl Alfonsín do partido União Cívica Radical foi eleito em votação e assumiu o governo.

A direção dos golpistas era uma junta militar, encabeçada pelos comandantes das três Forças Armadas, escura etapa à qual os argentinos costumam se referir simplesmente como “o Processo”. Durante esses anos, Videla foi presidente de facto entre 1976 e 1981.

O período foi caracterizado pelo terrorismo de Estado, a constante violação dos direitos humanos, o desaparecimento e morte de milhares de pessoas, o roubo sistemático de recém nascidos e outros crimes de lesa humanidade.

Um longa batalha judicial e política permitiu que fosse condenada parte dos responsáveis em julgamentos que ainda estão em andamento. Atualmente, está em desenvolvimento uma dúzia deles em diferentes pontos do país.

Depois de ser condenado a prisão perpétua em 1985 na causa 13 do emblemático Julgamento às Juntas, Videla foi indiciado pelo então presidente Carlos Menem em 28 de dezembro de 1990 e esteve em liberdade até 1998.

Naquele ano, o juiz federal de San Isidro, Roberto Marquevich, deteve o ex-general em uma causa por sequestro de menores, o único delito que ficava fora do âmbito do indulto presidencial. Por esse motivo, foi processado com prisão preventiva.

Videla esteve por um breve período sob prisão domiciliar em sua casa na avenida Cabildo, no bairro de Colegiales em Buenos Aires, mas depois foi denunciado por violar as condições desse benefício e enviado à prisão.

Em 5 de julho de 2012, foi condenado a 50 anos de prisão pelo Tribunal Oral Federal 6 que o declarou culpado de implementar um plano sistemático de sequestro de menores em centros clandestinos de detenção.

Por isso foi sentenciado por 18 casos, entre eles de Guido, o neto da titular de Avós de Praça de Maio, Estela de Carlotto.

A pena de 50 anos se transformou em prisão perpétua depois de somada a duas condenações anteriores a cadeia perpétua, a da causa 13 e outra da província de Córdoba em dezembro de 2010 pelo assassinato de 31 presos políticos.

Além destas sentenças, Videla estava sendo processado pelo juri federal 4 de Rosario, em uma causa por “privação ilegal da liberdade, tormentos, homicídios, abuso sexual e associação ilícita” cometidos na última ditadura cívico-militar.

Também cumpria prisão preventiva pelo sequestro dos empresários têxteis Federico e Miguel Gutheim, no marco da qual a Corte Suprema de Justiça da Nação declarou o indulto que o tinha beneficiado nos anos 90 como inconstitucional.

Videla, o genocida, como é chamado por muitos argentinos, pelo menos morreu em uma cela, o que conforta muitos. Mas levou com ele os segredos que podem esclarecer os casos de desaparecidos, executados, filhos roubados, assassinados. As feridas ainda não curaram, os julgamentos continuam.

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