Cenas de violência por parte da PM do governo Agnelo marcaram as manifestações do último sábado, em Brasília. Repórteres fotográficos e de texto receberam spray de pimenta no rosto e foram intimidados por cães da corporação. Sindicato vai pedir, à Câmara Legislativa, CPI para apurar abusos
As manifestações realizadas no último sábado, 7 de setembro, reuniram, em várias capitais do país, milhares de pessoas que retomaram a pauta de reivindicações apresentadas nas ruas durante as jornadas de junho. No Distrito Federal, onde os protestos ocorreram como forma de se contrapor ao desfile cívico da “Independência” e ao amistoso da Copa do Mundo no estádio Mané Garrincha, a Polícia Militar, do GDF, mais uma vez usou da truculência para intimidar manifestantes e jornalistas que cobriam as manifestações.
O Sindicato dos Jornalistas do DF recebeu a denúncia de que os repórteres fotográficos Fábio Braga, da Folha de São Paulo, e Ueslei Marcelino, da agência Reuters, foram feridos no sábado (7) durante protesto perto do Estádio Nacional de Brasília, o Mané Garrincha. Segundo Braga, os fotógrafos faziam fotos de policiais jogando spray no rosto de jornalistas, mas a polícia tentava impedi-los e pedia para se afastarem. Os policiais, então, ameaçaram soltar os cachorros. “Eles falavam para os cachorros: ‘pega, pega'”, disse Braga. O fotógrafo afirmou não acreditar que a polícia realmente soltaria os cachorros. “Achava que eles segurariam o cachorro, mas foram soltando a guia, uma guia super longa, e o cachorro foi pra cima. A gente correu, mas o cachorro pegou o meu pé”, afirmou, ao G1.
O fotógrafo disse que o cachorro deu “abocanhadas”, mas não chegou a mordê-lo. Braga teve escoriações no cotovelo e leves marcas dos dentes do cachorro na perna, mas não chegou a ir para o hospital.
Luciano Nascimento, jornalista da Agência Brasil, acompanhava a manifestação, quando viu que policiais da Tropa de Choque agrediram as pessoas que passavam pelo local. Após a reclamação de um manifestante contra a postura adotada, um policial disparou uma bomba de gás lacrimogêneo contra a cabeça dele. Nascimento foi apurar o ocorrido e, mesmo se identificando, foi agredido.
Outra mostra de que como a PM do governo Agnelo tem agido, de forma deliberada, com truculência contra manifestações e profissionais da imprensa é o vídeo que circula na internet em que o comandante do Batalhão de Choque Bruno Rocha disse, de forma irônica, ter usado spray de pimenta contra algumas pessoas porque quis. E ainda falou às pessoas que estavam por perto que estes podiam denunciar. “Porque eu quis. Pode ir lá e denunciar”, afirmou, ao ser indagado por um manifestante que filmava a ação do Batalhão de Choque na manifestação do último sábado (07).
Manifestantes organizam pelas redes sociais um ato contra o capitão Bruno, na próxima quinta-feira (12), às 18h30, na sede do 1º Batalhão de Polícia Militar, no Setor de Áreas Isoladas 4, na Asa Sul.
Prisão de manifestantes
No dia anterior ao 7 de setembro, durante manifestação promovida por movimentos sociais e organizações populares para cobrar auditoria pública com participação social nas contas da Terracap; transporte gratuito de qualidade; fim da Agência de Fiscalização do Distrito Federal, acusada de repressão social; e habitação para 700 mil famílias do Morar Bem e fim da especulação imobiliária, cinco pessoas foram detidas, sendo três delas militantes do PSOL. Elas foram acusadas por danos ao patrimônio, devido à queima de pneus sobre o asfalto, bem como por crime de desobediência. Os manifestantes foram soltos depois de mais de dois dias na delegação.
Em carta aberta, o Sindicato dos Jornalistas do DF repudia a ação da Polícia Militar. “O sindicato e a sociedade exigem que seja realizada uma sindicância rigorosa sobre os episódios relatados por vários profissionais. É essencial que os responsáveis diretos pelas agressões sejam punidos, bem como seus superiores que autorizaram esse tipo de ação contra a imprensa e a população em geral”, ressalta a carta.
No texto, a entidade também cobra a responsabilidade do GDF em relação às atitudes dos policiais. “O governo do Distrito Federal também é responsável pelas cenas de violência ocorridas nas últimas manifestações e deve alterar com urgência sua política de segurança pública, não apenas no tratamento com a imprensa, mas com todos os cidadãos e cidadãs que exercem o direito de se manifestar”, questiona.
Leia abaixo a íntegra da carta, assinada pelo Sindicato dos Jornalistas do DF.
Carta aberta: Jornalistas repudiam truculência da Polícia Militar do Distrito Federal
A repressão a profissionais de imprensa ocorrida durante a cobertura do dia 7 de setembro remete aos piores momentos da ditadura militar no Brasil. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF, as entidades e os profissionais que lutam pela liberdade de expressão e de imprensa repudiam de forma veemente a ação da Política Militar do Distrito Federal. Nada justifica as agressões, a utilização de gás de pimenta e gás lacrimogênio ou mesmo o uso de cães para coibir diretamente a atividade de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas.
O sindicato e a sociedade exigem que seja realizada uma sindicância rigorosa sobre os episódios relatados por vários profissionais. É essencial que os responsáveis diretos pelas agressões sejam punidos, bem como seus superiores que autorizaram esse tipo de ação contra a imprensa e a população em geral.
A tentativa de coibir a atuação da imprensa por parte de policiais demonstra que esses agentes do Estado têm consciência dos abusos que estão cometendo. Parece claro que falta treinamento adequado e sobra sensação de impunidade.
O governo do Distrito Federal também é responsável pelas cenas de violência ocorridas nas últimas manifestações e deve alterar com urgência sua política de segurança pública, não apenas no tratamento com a imprensa, mas com todos os cidadãos e cidadãs que exercem o direito de se manifestar.
Esperamos que as empresas de comunicação do DF se manifestem contra as arbitrariedades cometidas pela Polícia Militar, além de oferecer condições adequadas para trabalho em situações de risco.
Aguardamos também um posicionamento da Câmara Legislativa, Ministério Público e demais instituições responsáveis por zelar pelos direitos humanos. Solicitamos à CLDF a abertura imediata de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar os abusos cometidos. A sociedade brasileira não aceita que a democracia seja manchada com atos de violência policial na capital do país.
Assista aqui o vídeo produzido por um repórter fotográfico de Brasília.

