Certa vez o historiador inglês Eric Hobsbawn disse que o liberalismo é a antessala do fascismo. Aparentemente exagerada, a afirmação encontra eco na história sempre que ocorre a combinação de alguns fatores, como crise econômica, ausência de saídas políticas nos marcos da democracia e avanço do reacionarismo ideológico. Esse cenário foi desenhado em vários países europeus no início do século XX. Na América Latina, regimes autoritários vieram à tona em consequência da combinação dos fatores acima expostos. É claro que há nuances em cada caso e o desenvolvimento histórico de cada país está condicionado a particularidades.
No início deste ano, ocorreu em quase todo o país movimentos pró-impeachment, não muito atentos às regras democráticas. Políticos de direita estimularam irresponsavelmente esses movimentos, com o fito de acumularem algum tipo de capital político, mesmo que às custas da estabilidade institucional do país. Pedidos de intervenção militar, o delírio anticomunista e a ignorância esbravejada davam a tônica ética e moral dos atos. A crise econômica, nesse sentido, conformou um componente a mais para acirrar os ânimos. Passada a euforia em favor do impedimento, o discurso do ódio se manteve. E, infelizmente, avança.
Há poucos dias, um anônimo pichou na frente da casa do apresentador Jô Soares mensagem de morte, pouco tempo depois de entrevista com a presidenta da República. Uma garota de onze anos foi apedrejada ao sair de centro religioso de matriz africana. Ameaças de morte foram desfechadas contra o jornalista Fernando Morais na internet. Por que reacionarismo está saindo do armário?
O racismo, assunto ainda longe de estar superado, continua pauta vigente na maioria dos lugares e acompanha, de maneira muito próxima, o discurso de direita. A violência contra a garota no Rio de Janeiro não deixa de ser expressão disso. O massacre de nove pessoas negras nos Estados Unidos também. A xenofobia, o nacionalismo exacerbado e o histórico de racismo explicam o que houve na Carolina do Sul.
Ao mesmo tempo, no Brasil, avança a intolerância religiosa, disseminada, principalmente, por igrejas neopentecostais. Em nome de Deus, justificam qualquer tipo de arbitrariedade, incluindo o enriquecimento ilícito e imoral de alguns pastores exploradores da fé alheia. Qual é a necessidade de haver soldados da fé? Contra quem estão montando uma cruzada em pleno século XXI? Ainda bem que existem muitos evangélicos que repudiam ações desse tipo.
A situação preocupa por não sabermos aonde pode chegar. A mídia sensacionalista e os jornalões têm grande responsabilidade no avanço da intolerância, na medida em que busca tirar proveitos de situações complicadas e que demandam cautela e parcimônia.
Sabemos que o ódio e a intolerância nunca conduziram país algum a um bom caminho.
Combinado a um contexto de crise econômica e política pode ser altamente perigoso. Toda a sociedade tem o dever de combater a irracionalidade política. A democracia agradece.

