Racismo, porque quase sempre, nascer negro (a) é conviver com uma cidadania em nada concreta, de papelão. Pisada, cuspida e surrada por uma impunidade palaciana, abençoada no beija-mão perene que renova o furor imundo e ambicioso do velho Cão cretino.
E, vejam bem, tal contexto não é, e não deve ser – refiro-me a todos nós – salvo conduto para aceitarmos o que está posto, ou para alegarmos que não temos com quem comungar, ao menos, de uma mesma causa rebelde. Afinal, assim como o nosso Chico “De Luta” Alencar, acreditamos que “só a luta muda à vida”. Na peleia pela causa socialista, a mão de um, leva a do outro.
Pra mudar o Racismo entranhado, dissimulado, que destrói o que é emulsificante*. O Racismo justificado à base de uma covardia sequestrante*. O Racismo da sordidez conservante* via sofistas caras-pálidas que minimizam as perdas de vidas ceifadas ao bel prazer dos empoderados.
Pra mudar o Racismo alimentado pelos detentores de mordaças e cordas vocais que sufocam não só por estrangulamento, mas também, por imposição, ameaças, desnutrição, politicagem, castração, conchavos e subtração.
Pra mudar o Racismo que grita aos seus berros de frios canos. Canaletas e valas que envenenam e amargam ainda mais os desgostos cotidianos de milhares de lábios negros, diante dos mandos e desmandos dos mais bem enfronhados. Os mesmos que assinam rasos discursos, nada raros. Laudas empoeiradas, viciadas, irresponsáveis e homicidas.
Pra mudar o Racismo solidificado, seco e endurecido por veículos* que delegam e definem as humilhações. E, que ao concederem caridosos bagaços, posso lhes jurar, confiscam almas. Até pra negociar a carcaça é alto o preço que se paga.
Pra mudar a composição do Racismo, que ao emular um bactericida, contamina quase tudo e todos, além de deformar destinos, o presente, o passado, mas não a gente, os intelectuais presunçosos, xingam eles. Nós, os pensadores vadios, eles insistem, em vão. A bula denuncia: O Racismo é bundão, tem medo, cagaço, e a lucidez coletiva é a sua mais devastadora contraindicação.
Pra mudar o Racismo que é sustentado pela cultura do ardor pornográfico. Racismo protagonizado, terceirizado e camuflado sob as peles dos variados meninos de recados, sonoros ou silenciosos, não importa, ambos, pra nos calar, guiados por magistrados, mecenas, delegados, algozes ou alienados ativos e passivos.
Pra mudar o Racismo que é mola propulsora da raiva, essa cabra canhota, coroné da peste. Que prolifera a sina e o ódio que apazigua, na marra, vidas pacatas ou anestesiadas, despreparadas para uma longa e justificada luta.
Pra lutarmos juntos contra uma cólera que provoca e prova que um resistir fugaz e aparente não a derrota como aqui, em nossa aorta, alimentada por um Sol que remove sombras, desnuda pragas, socializa sua luz e enriquece nossa resistência. Recado dado. Portanto, portadores, carcereiros e porta-vozes do Racismo, soltem o Rafael Braga.
Glossário – definição básica de três palavras usadas no texto, que também são os nomes de três elementos que compõem a fórmula do desinfetante Pinho Sol:
Emulsificante – Aditivo na forma líquida, responsável por facilitar a rápida mistura entre os ingredientes de uma receita. Permite produzir uma textura macia na confecção de massas leves, fofas.
Sequestrante – São responsáveis pela estabilidade de um sistema. No conservante, o sequestrante também exerce outro papel muito importante, que é o da potencialização.
Veículos – Sob a denominação de veículo encontramos agrupados: resinas, emulsões e óleo secativos, os veículos são responsáveis pela conversão do estado líquido da tinta ao estado sólido, formando o filme ou película de tinta.
*Renato Zanata é filiado ao PSOL Niterói, formado em História, músico, jornalista e escritor: autor da biografia “Adílio, Camisa 8 da Nação”; coautor de “Sarriá 82, o que faltou ao futebol-arte?”; coautor de “América, Terreirão do Galo”; e publicará, em 2017, a biografia “Carlinhos Violino, Um Maestro da meia cancha Rubro-Negra”.

