No enfrentamento dissimulado e em praça pública entre a presidente e o governador, a presidente não vacila em carimbar com força a estrela do PT aos aportes e obras do governo federal em Pernambuco, obrigando Eduardo Campos a dar um cavalo de pau em seu discurso antes bem montado e que lhe rendeu a sinergia política para atingir altos índices de aprovação. O governador, que antes afirmava que Lula tratava com carinho Pernambuco, agora fala apenas em relação federativa. O dinheiro do governo federal, antes “de Lula”, agora virou “dinheiro do povo”.
A relação pessoal do governador com Lula, usada e abusada à exaustão, de uma hora pra outra deu lugar a uma relação de lealdade com projetos e não com “pessoas”. O discurso fácil e oportunista de que o povo não quer saber de arenga, mas de trabalho, agora se volta contra o PSB, que se digladia pelos jornais. O porta-voz do governador para assuntos de canelada chama pelos jornais um deputado federal do PSB e filho de ministro também do PSB de “minino buchudo”. O detalhe cômico nesta arenga é que o referido porta-voz também tem o seu buchudinho.
Outro porta-voz a serviço do governador, presidente da AMUPE (Associação dos Municípios de Pernambuco), devidamente turbinado pela relação “federativa” que o governador estabeleceu diretamente com os prefeitos pernambucanos ao reuni-los e lhes prometer “dinheiro do povo”, martela a nota única da crítica à redução do IPI dos automóveis por parte do governo Dilma. Sem entrar no mérito destas questões, o governador não sustenta este discurso, assim como não sustentaria por mais que poucos minutos num debate franco sua defesa da redistribuição dos royalties do petróleo e a conversinha de novo pacto federativo, pois Eduardo Campos é talvez o maior protagonista da guerra fiscal neste país. Abre mão de tributos de forma irresponsável no estado para depois cobrar dos outros o rigor que não teve e não tem na sua gestão.
Mas o cavalo de pau no discurso do governador não se dá em solo seco. Tem óleo na pista e não rodopiar na conjuntura é quase impossível. O PIB de Pernambuco cresceu 2,3% em 2012, contra 3,1% da Bahia – governada pelo PT, e 3,6% do Ceará – governado pelos irmãos Gomes, do PSB, mas desafetos confessos de Eduardo Campos. Como chamar agora Pernambuco de locomotiva do Nordeste, a China brasileira? Ah, foi a seca! Sim, tem seca também no Ceará e na Bahia. Além do mais, os setores da economia atingidos pela seca não representam hoje mais que 6% do PIB do Estado. Quando os números eram favoráveis era porque o governador tinha projetos e os tirava do papel. E agora, Bahia e Ceará tinham projetos e os tiraram do papel e o governador Eduardo comeu mosca?
Com uma arca cheia de caciques e gente que desaprendeu a respirar fora do poder, e que tão pouco gosta de turbulência, um cavalo de pau desses vai arremessar gente pela janela – e alguns podem até se atirar, fingindo-se arremessados, e a nau pode mesmo capotar. Não há candidato competitivo, nas condições que se apresenta o governador, sem um discurso coerente, aliando prática e retórica, com início, meio e fim.
Parece que resta ao governador – e ele já está fazendo isto, aprumar um novo discurso para superar o mais novo suco de chuchu da praça, o senador Aécio Neves, do PSDB, e se credenciar frente à base eleitoral histórica desta turma. Dadas as desqualidades flagrantes do senador mineiro, não será difícil. Preparemo-nos então para a aparição de um novo discurso do governador candidato, um discurso atrasado, conservador, privatista, meritocrático-autoritário para transformar a gestão pública em gerenciamento privado, com um conteúdo central no antipetismo naquilo que o PT pode ter, ainda, visto em perspectiva, de mais progressivo: seu perfil popular e vinculado organicamente ao povão e aos movimentos sociais. É o coroamento daquilo que estamos alertando há anos: a reorganização de uma direita reciclada no Brasil.

