
Dando sequência à série de matérias com os candidatos do PSOL eleitos, o site do PSOL Nacional publica a entrevista realizada com o deputado federal Ivan Valente. Em suas falas, ele faz uma avaliação da campanha, agradece e reconhece a força da militância e considera uma grande vitória as conquistas do partido nessas eleições, “enfrentamos toda sorte de adversidade, uma conjuntura política complexa, caracterizada também por um afastamento da militância de esquerda do processo eleitoral, e a interferência brutal do poder econômico Brasil afora”, considera Ivan. Leia abaixo a entrevista completa.
Ivan discursa no dia da vitória
Como você avalia a campanha desse ano em relação às outras pelas quais já passou?
Mais uma vez, o processo eleitoral foi marcado por uma super polarização pelo alto, entre as candidaturas do PT e do PSDB. Apesar da votação expressiva obtida por Marina Silva, ficou claro que o projeto defendido pelo Partido Verde não era diferente em sua essência, particularmente na política econômica, dos demais. Nesta conjuntura difícil, o PSOL, através da candidatura do companheiro Plínio, soube apresentar um projeto diferenciado, de real transformação social, trabalhando com ética na política e acreditando na força dos movimentos sociais e da participação popular. Fizemos uma campanha que pautou no debate nacional a urgência da auditoria da dívida pública, sem a qual não é possível falar em prioridade social; da reforma agrária; da destinação de 10% do PIB para a educação; da redução da jornada de trabalho, entre outros temas fundamentais.
Em São Paulo, atingir o quociente eleitoral também foi uma tarefa gigantesca. Aqui também enfrentamos o poder econômico e suas campanhas milionárias. O que nos permitiu chegar até aqui, sem aceitar qualquer tipo de financiamento de empresas – o que nos dará liberdade para seguir atuando sempre em defesa do interesse público – foi o trabalho generoso, voluntário e consciente de todos que participaram da campanha. Eu fui apenas um entre tantos guerreiros e guerreiras que construíram esta vitória. E o tamanho do resultado que tivemos não seria possível se todos não estivéssemos juntos. Os 189.014 votos que nossa candidatura recebeu e os quase 320 mil votos recebidos pelo PSOL em todo o estado comprovaram que é possível seguir fazendo política de uma forma coerente, independente, corajosa e militante.
Na sua avaliação, qual impacto sua reeleição traz para a política brasileira?
Não apenas a reeleição do nosso mandato mas o resultado do PSOL em âmbito nacional neste processo eleitoral demonstra que há um espaço à esquerda para a defesa do socialismo enquanto um sistema onde todos tenham seus direitos garantidos, onde a brutal desigualdade do Brasil não seja vista como algo natural e onde o mercado não seja o ditador das regras do funcionamento do país. É papel do PSOL e dos mandatos de esquerda que conseguimos eleger manter o socialismo no horizonte. A luta socialista hoje é aquela que ataca as bases de sustentação do regime capitalista, empolga as massas trabalhadoras e coloca o povo em movimento. Dar continuidade a esta luta é uma contribuição fundamental do PSOL à política brasileira.
Caberá também ao PSOL a tarefa de lutar para que a Reforma Política, tão necessária ao país, finalmente saia do papel nesta legislatura. É um desafio enorme, sobretudo porque parte considerável dos partidos políticos, principalmente aqueles que detêm maiorias parlamentares, querem que tudo fique como está. A prova é que, nas eleições anteriores, todos assumiram o compromisso de votar a questão do teto para gastos em campanhas – que interfere diretamente no resultado eleitoral – e depois apenas o PSOL cobrou a votação, que nunca saiu do papel. O financiamento público exclusivo de campanha, que tanto defendemos, por exemplo, é a única forma de cortar a raiz da corrupção praticada por governantes e parlamentares. Não há empresas que financiem campanhas milionárias e não cobrem a fatura depois. Basta ver quem financiou quem no Congresso e como votam esses parlamentares. É por isso que nós não aceitamos doações de pessoas jurídicas. Toda a nossa campanha é feita com a contribuição voluntária e generosa dos nossos apoiadores.
No entanto, sabemos que uma verdadeira Reforma Política, com financiamento público exclusivo de campanha, lista e fidelidade partidária, democracia direta com plebiscitos e referendos, só virá com pressão popular organizada da sociedade civil. Partidos acostumados ao poder e ao fisiologismo não cortarão na própria carne.
Quais são as prioridades do seu próximo mandato?
No último período, nosso mandato atuou prioritariamente na luta pela mudança do atual modelo econômico, que privilegia interesses do capital financeiro, dos monopólios e das grandes corporações, em detrimento do social e das maiorias excluídas do país. Foi nossa a iniciativa de instalação da CPI da Dívida Pública, que investigou contratos que são lesivos aos interesses nacionais, que, só no ano passado, destinaram 380 bilhões de reais para pagamento de juros e amortizações dos serviços da dívida, correspondendo a 36% do orçamento da União, enquanto que para a saúde foram destinados menos de 5% e à educação nacional, menos de 3%, ou seja, uma nítida demonstração de que os bancos são os grandes beneficiários do atual modelo. Além disso, atuamos de forma destacada na Comissão de Relações Exteriores, na defesa da educação pública, dos direitos humanos e contra as propostas de rebaixamento da atual legislação ambiental, enfrentando o lobby da bancada ruralista na Comissão Especial que analisou as mudanças do Código Florestal Brasileiro.
Daremos continuidade a essas lutas, que estão longe de terminar, e a tantas outras reivindicações históricas dos movimentos populares, que podem esperar coerência e compromisso do nosso mandato com essas pautas: reforma agrária, democratização dos meios de comunicação, SUS 100% público, dignidade para servidores públicos e aposentados, e todas as bandeiras do movimento de direitos humanos interditadas pela reação conservadora ao PNDH-3 (Programa Nacional de Direitos Humanos), como a defesa do Estado laico, da luta anti-racista, anti-machista e anti-homofóbica, da responsabilização dos torturadores da ditadura militar e do controle social dos meios de comunicação. Nosso mandato continuará sendo, portanto, um espaço para aqueles que não se conformam com o discurso do possível, contra a concentração de terra, renda, riqueza e poder. Por um Brasil com liberdade e soberania. Em breve, convocaremos uma nova plenária, para continuar fazendo deste um mandato coletivo e participativo, onde construamos juntos nossa atuação no Parlamento. Continuaremos, assim, estimulando a participação de todos e recebendo propostas, minutas de projetos e sugestões de iniciativas de toda a nossa base social.
O PSOL alcançou ótimos resultados em alguns Estados, como no Rio e no Pará, por outro lado não conseguiu eleger nomes importantes, conhecidos e respeitados como Luciana Genro, Heloisa Helena e Raul Marcelo. Como você vê o futuro do PSOL e sua consolidação na política brasileira? Como você avalia esses resultados citados?
Os mandatos eleitos pelo PSOL em São Paulo, Rio de Janeiro, Pará e Amapá devem ser considerados verdadeiras vitórias da luta socialista em nosso país, porque enfrentaram toda sorte de adversidade, uma conjuntura política complexa, caracterizada também por um afastamento da militância de esquerda do processo eleitoral, e a interferência brutal do poder econômico Brasil afora. Eleger dois senadores, três deputados federais e quatro deputados estaduais neste contexto – aumentando, portanto, nossa representação no parlamento –, mostra que o PSOL consolida sua forma de fazer política e avança na adesão de seu programa pela população brasileira. Ficou claro nessas eleições que há uma parcela importante da nossa população que reconhece a importância de um partido à esquerda do PT, que há oito anos conduz a macro-política nacional.
Infelizmente, o poder econômico, alianças conservadoras e a força das oligarquias em Alagoas deixaram a companheira Heloísa Helena fora do Senado, assim como sofremos a perda dos mandatos de Luciana Genro, no Rio Grande do Sul, e Raul Marcelo aqui em São Paulo, sobretudo por conta das desigualdades geradas pelo atual sistema eleitoral, que não garante que os mais votados individualmente tenham direito a mandatos parlamentares – como aconteceu no caso da expressiva votação de Renato Roseno no Ceará e de outros companheiros e companheiras. Este é um obstáculo que precisamos enfrentar no debate sobre a Reforma Política, que está colocada para o país. De qualquer forma, o PSOL subiu degraus importantes nestas eleições, obtendo votações importantes também para cargos majoritários, como aconteceu com nosso candidato ao governo do DF, Toninho, que obteve quase 15% dos votos. Apesar do bloqueio da grande mídia, as propostas apresentadas pela candidatura Plínio também ganharam maior visibilidade nacional e, nos Estados, o PSOL mostrou que tem um programa concreto a oferecer para as próximas disputas eleitorais.
Acredito que saímos vitoriosos e consolidados enquanto partido na esfera nacional. Mas ainda temos um grande trabalho pela frente. Vivemos um período de declínio e uma baixa dos movimentos sociais – apesar de significativos momentos de resistência, seja na luta pela reforma agrária, contra a lógica do Estado mínimo, com greves e mobilizações, na luta por garantia de direitos e contra a discriminação, mas ainda insuficientes para uma arrancada rumo a transformações sociais mais profundas. Hoje paga-se um preço alto pela desmobilização da força social de mudança também patrocinada pelo governo Lula, e vemos nesta campanha o ressurgimento de um setor muito reacionário, preconceituoso e fundamentalista, sobre o qual temos que refletir e o qual temos que combater com rigor.
O fato de vivermos este momento de descenso aumenta nossa responsabilidade com a construção de um futuro que interessa a todo o povo brasileiro. É preciso levar em conta o nível de organização e consciência real dos trabalhadores, se engajar nas lutas que movimentam o povo em torno de direitos e, num processo pedagógico de luta, mobilização e organização, atingirmos um patamar de pressão social capaz de viabilizar mudanças sociais sempre prometidas e nunca realizadas em nosso país. É esta a tarefa que está colocada para o PSOL no próximo período.
PERFIL
Ivan Valente é engenheiro e professor, casado e tem dois filhos. Seus 45 anos de militância são marcados pela coerência e defesa das causas populares e do socialismo. Atuou na resistência à ditadura militar. Foi fundador e dirigente nacional do PT, deputado estadual e está em seu terceiro mandato federal. Em 2008, disputou a Prefeitura de SP pelo PSOL.
Tornou-se referência política e fez diferença no Congresso Nacional por sua defesa intransigente do interesse público e da soberania nacional. É considerado um dos 10 deputados mais atuantes. Seu mandato sempre esteve presente e apoiou a luta dos trabalhadores do campo e da cidade.
Como líder do PSOL na Câmara, foi protagonista na criação da Frente Parlamentar pelo Fim do Voto Secreto no Congresso. Combateu a política econômica neoliberal dos governos de FHC e Lula e defendeu os direitos dos trabalhadores e aposentados. Propôs a criação da CPI da dívida pública e defende sua auditoria integral. Foi às ruas pela aprovação do projeto Ficha Limpa. No debate do Código Florestal, combateu o agronegócio em nome da proteção do meio ambiente.
É também autor de projetos em defesa da educação pública de qualidade, como o Plano Nacional de Educação, da saúde, dos direitos do consumidor, ciência e tecnologia e da democratização dos meios de comunicação.

