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Luiz Arnaldo Campos: A COP em Belém

Depois de passar por Glasgow, Sharm el Sheik, Dubai e outros destinos luxuosos do mundo, a Conferência das Nações Unidas para o Clima, a COP de número 30, chegará finalmente à Amazônia, mais precisamente em Belém, em 2025. Já não era sem tempo, afinal de contas, o ataque contra as florestas tropicais é o segundo maior causador de gases de efeito estufa do mundo, superado apenas pela emissão de combustíveis fósseis, e a Amazônia, como se sabe, é a maior floresta tropical do planeta. Somos portanto o cenário adequado para uma conferência desta natureza. Mais do que isto, somos o cenário justo e necessário.

Até a penúltima COP, em Glasgow, a Amazônia era uma nota de rodapé, nestas reuniões dos governantes mundiais, onde mais se fala do que se age para deter as mudanças climáticas. Na cidade escocesa as coisas começaram a mudar. A presença de delegações expressivas das organizações indígenas dos países da Pan-Amazônia, incluindo aí fortes representações da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB e da Confederação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira-COIAB, foi uma das principais marcas da COP. Não por acaso, a gigantesca marcha, pelas ruas de Glasgow, de movimentos populares do mundo inteiro, foi encabeçada pelas lideranças indígenas da Amazônia.

Também nesta COP aconteceu o début do Consórcio Interestadual dos Governos da Amazônia, com uma palestra do governador Helder Barbalho, e a leitura da Carta de Belém, produzida pelo Encontro de Saberes da Amazônia e Mudanças Climáticas, que reuniu em Belém, um mês antes, expressivos cientistas latino-americanos e detentores da sabedoria ancestral dos povos da floresta para discutir os meios para se deter o fim da humanidade.

Assim, a marcação da COP 30 em 2025, em Belém, deve ser visto, em primeiro lugar como um resultado do expressivo avanço da luta dos povos amazônicos, que tem gerado lutas e rebeliões na Bolívia, Peru, Equador e que no Brasil, pode ser simbolizado pelos Acampamentos Terra Livre, em Brasília, onde os indígenas sustentaram uma das principais frentes de resistência contra o governo fascista. Não por acaso, a décima edição do Fórum Social Pan-amazônico, realizada em julho de 2022, em Belém, reuniu 15 mil participantes dos nove países que compartilham a bacia do rio Amazonas, com uma expressiva representação de indígenas, notadamente mulheres, destes países.

Foi este protagonismo, na luta, dos povos da floresta, o reconhecimento mundial do seu papel como preservadores dos biomas tropicais, somados ao vento de esperança que a eleição de Lula soprou no mundo, que trouxe a COP 30, em primeiro lugar para a Amazônia e depois para Belém, logo após a carta do prefeito Edmilson Rodrigues ao presidente eleito, solicitando para a nossa cidade a honra de sediar a Conferencia. E convenhamos, não existe uma cidade melhor na Amazônia para sediar uma COP do que Belém. Pelo simbolismo da Cabanagem, por ser a única prefeitura de capital amazônica a esquerda no quadro político e principalmente, por ser um centro de convergência dos movimentos indígenas, dos camponeses sem-terra, dos quilombolas, das mulheres, das periferias urbanas e da juventude. Porque esta COP não ocorrerá apenas nos salões onde se encontrarão os governantes, mas principalmente nas ruas, onde nossa gente irá dizer, em alto e bom som, que não existe possibilidade de se deter as mudanças climáticas se não se detém a destruição da Amazônia.

E não são apenas as florestas que estão sendo destruídas: nossas cidades também são vítimas deste modelo colonial, explorador e excludente que golpeia homens e mulheres da selva e da urbe. Por isso não existe lugar melhor para sediar a COP 30 do que Belém do Pará.

Sempre existirá quem diga que não estamos preparados para acolher um evento de tamanha magnitude e apontará para nossas deficiências em infraestrutura, transporte, esgotamento sanitário. Porém, eu penso exatamente o contrário. Já está na hora dos senhores do mundo pararem de discutir o futuro da humanidade nos poucos nichos de prosperidade que este planeta dispõe. É hora de ver, cara a cara, as consequências de um modelo perverso que destrói a natureza e a humanidade. E mais do que ver, ouvir e sentir a força dos despossuídos. E para isto não existe lugar melhor do que Belém, a capital das resistências, a trincheira dos povos.

Luiz Arnaldo Campos
Cineasta e Coordenador de Relações Internacionais da Prefeitura de Belém

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