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Pedro Amaral | Opinião, opiniães

“Pão ou pães, é questão de opiniães”
– Guimarães Rosa

O festejado juiz maringaense Sérgio Fernando Moro parece ter, senão apreço, grande interesse pela imprensa. Em artigo de 2004 sobre a operação italiana que serviu de modelo para a brasileira sob seu comando, ele registrava que “os responsáveis pela operação ‘mani pulite’ […] fizeram largo uso da imprensa” e lembrava que, “para o desgosto dos líderes do PSI [Partido Socialista Italiano]”, aquela investigação “vazava como uma peneira”; vício jurídico que, no entanto, enlevava-lhe o espírito: “os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva.” O magistrado pondera, ali, não haver sugestão de que “algum dos procuradores mais envolvidos com a investigação teria deliberadamente alimentado a imprensa com informações”, o que talvez seja um pequeno gracejo, pelo contraste com a afirmação anterior, qual seja, a de que os procuradores italianos “fizeram largo uso da imprensa”.

Mas, sigamos. Noutra oportunidade, o atento juiz escreveu à Folha de S. Paulo, irritado com a publicação de artigo do físico Rogério Cezar Cerqueira Leite, que o comparava a Girolamo Savonarola, impetuoso padre dominicano, “exemplo tardio do puritanismo medieval” (nas palavras de Leite), o qual, acreditando portar “a voz de Deus”, chocou-se violentamente com o Vaticano, coisa que acabou levando-o à excomunhão e ao enforcamento em praça pública. Abespinhado (atenção, rapazes de Curitiba: o uso deste adjetivo não contém ameaça à integridade física de quem seja; consultem o Houaiss), o juiz sulista lamentou que o jornal concedesse espaço para artigo com aquele teor, e ainda se disse surpreso com o fato de o autor possuir assento no Conselho Editorial da publicação. Por fim ensinou, com um uso peculiar da concordância nominal: “a publicação de opiniões panfletárias-partidárias e que veiculam somente preconceito e rancor, sem qualquer base factual, deveriam ser evitadas”.

Já em despacho da última quinta-feira, 23 de março, Fernando Moro declarou desistir de investigar Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania, que mandara coercitar no início da semana. Ainda no despacho, o genioso juiz se permitiu alfinetar Guimarães, por conduta “distante do profissional do jornalismo”, e ainda opinou: “um verdadeiro jornalista não revelaria jamais sua fonte”.

Não é mau que um juiz tenha opiniões e, respeitados os limites inerentes ao ofício, busque exprimi-las. Numa democracia digna do nome, aliás, todos devem poder opinar sobre tudo, sendo vedado o direito de exclusividade dos “especialistas”. Assim, um físico deve poder falar de política, e um juiz – por que não? – há de dar seus pitacos sobre jornalismo, se quiser.

Eu, por sinal, tenho opiniões sobre uma pá de coisas. Se interessam a alguém, são outros quinhentos – mas as tenho. Dou exemplos: acho que foi um erro a seleção canarinha de 2006 jogar com dois laterais relativamente idosos, pesados; um deles deveria ter caído para o meio, para ajudar a proteger a defesa e reduzir o isolamento dos Ronaldos lá na frente. Entendo que costela de porco não combina com barbecue, ou qualquer mistura de açúcar e tomate. E acho, embora não seja bacharel em Direito ou coisa que o valha, que um verdadeiro juiz não divulgaria conversa interceptada de presidente da República.

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