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Resposta ao artigo do Sr. Antônio Lassance aos leitores de Carta Maior

Diante de artigo produzido pelo Sr. Antônio Lassance, desprovido de cuidados elementares com a verdade e eivado de um conservadorismo caricato – tão comum em tempos de Olavos de Carvalho, Lobões, Sheherazades e Mainardis – e citando frases soltas de texto de opinião escrito por mim há alguns meses, quando analisei o fenômeno por detrás da tática black bloc, sinto-me na responsabilidade de tecer – em meu nome e não das instâncias do PSOL – alguns comentários e esclarecer algumas questões aos que se dispõem a debater política com um mínimo de equilíbrio e honestidade intelectual.
 
Primeiramente, é preciso esclarecer ao Sr. Lassance – e por tabela aos que lhe fazem companhia em sua postura, como o Sr. Emir Sader – que o PSOL é um partido que defende a participação popular, a ação popular, defende as manifestações populares para além do exercício do voto em eleição de representantes para as casas legislativas e para os poderes executivos. É um partido que acredita na força e na importância estratégica da atuação da sociedade civil nas lutas extra parlamentares como parte de uma verdadeira, necessária e inadiável reforma política, coisa que seu partido, o PT, abandonou em algum lugar do passado. O PSOL – milito por isso – pretende associar-se cada vez mais programática e socialmente às demandas das populações mais sofridas de nosso país e às suas lutas. O PSOL está, portanto, disputando legitimamente as urnas e os espaços institucionais, mas também está firme nas ruas, praças, nas periferias, com os sem teto, sem terras, sem transporte, sem saúde, sem educação, sem direito às cidades, sem cidadania, com as populações marginalizadas, oprimidas, ombro a ombro, lutando pelo respeito aos seus direitos. Não estamos, portanto, entre os que se encontram em gabinetes governamentais ou na folha de pagamento destes, em blogs, por exemplo, arquitetando artimanhas para retirar a população manifestante das ruas e bolando estratégias do tipo #VaiTerCopa, com uma farra de gastos que não trarão benefícios para a população. O PSOL está é questionando isto: #CopaPraQuem?
 
Esclarecido que o cientista político desavisado e mal intencionado não está a tratar com aliados do seu condomínio conservador que governa o país associado aos mais robustos interesses econômicos saliento que no PSOL temos várias sensibilidades internas, posicionamentos com matizes sobre vários temas, mas não há divergência interna acerca da necessária desaprovação política da utilização da depredação, da provocação e da violência como estética de manifestações de rua.
 
Tivesse o Sr. Lassance um mínimo de honestidade intelectual, teria destacado, no texto meu que utilizou como base para seus delírios, algumas passagens que atestam a falsidade de sua tese. O segundo e o terceiro parágrafo do texto – parágrafos cirurgicamente omitidos por ele -, logo na abertura, portanto, trazem estas caracterizações: ”Em tese, as táticas Black Bloc dispõem-se a proteger manifestações da sociedade civil contra ações truculentas das forças do Estado. Dispõe-se a gerar prejuízo material a quem causa prejuízo ao bem público mais precioso – as pessoas – e é fácil perceber um forte conteúdo anticapitalista nos seus alvos. Seu diferencial mais saliente, e porque não dizer sedutor (para as juventudes), é a coragem e o desprendimento com que se lançam diante da repressão estatal. Na prática, infelizmente, muitas ações têm se confundido com iniciativas pouco politizadas, de mera depredação ou de descarga de adrenalina, quando não utilizadas mesmo pelas forças policiais para dispersar geral algumas manifestações, quando estas ações misturam-se com outras que se pretendem pacíficas. Para quem atua nos movimentos, não é incomum achar militantes de partidos da ordem misturados na tática, como se estivessem num playground, ou como se aquilo fosse o seu lado B, sem trocadilho.”. Mais claro que isto só desenhando.
 
Mas o desonesto Lassance também “se esqueceu” desta passagem do meu texto: “(…) não parece o mais correto o aplauso fácil e irresponsável à tática (Black bloc), tratando as suas fragilidades e portas abertas a todo tipo de oportunismo e infiltrações fascistas e policiais como um mero efeito colateral. Não perceber e não buscar evitar estas fragilidades é permitir que um fenômeno progressivo seja capturado pelo regime político que em essência busca combater, dando matéria-prima para justificar a ampliação da repressão estatal ao conjunto das forças e movimentos que questionam a ordem.”
 
Num momento em que consegue conjugar sua desonestidade com doses generosas de desinteligência, Lassance tenta criar um não-lugar para o PSOL na política. Retirou palavras soltas desta sentença: ”A tática (black bloc) existe e veio pra ficar, gostem ou não a direita, a esquerda e quem mais quiser dar palpites. ‘Nada mais forte que uma ideia cujo tempo chegou’, como afirmava Victor Hugo. É tempo de democracia participativa, de ação direta, de transparência, de atritos diretos entre o poder real e os despossuídos, sem as escaramuças de falsos representantes em uma esfarelada democracia de faz de conta. Quem mais deve estar preocupado com isto são os governos que já estavam acostumados com conflitos de resultados previsíveis.”. Explico que esta passagem tem a ver com um debate interno a toda a esquerda, em que importantes dirigentes – os com honestidade de propósitos ao menos – estavam e ainda estão divergindo sobre a caracterização deste fenômeno de uma juventude disposta a ir às ruas enfrentar a repressão estatal em defesa de seus sonhos, mesmo sob forte influência anarquista. O que eu digo em meu texto é que, gostemos ou não, esta era e é uma realidade inescapável. Inexorável, como sugeriu Lassance.
 
O último parágrafo do meu texto traz a seguinte passagem: “Para quem pretende mudar o mundo de verdade, não deve parecer utópico ou ingênuo demais querer ver os movimentos e partidos da esquerda coerentes, como o PSOL, dialogando com a tática black bloc, respeitando todas as táticas e o máximo possível as sensibilidades mais positivas da opinião pública e da consciência das massas (…)”. O que afirmávamos e continuamos afirmando é que, apesar das imensas dificuldades de se conseguir separar esta energia social, vista nesta juventude disposta a ir às ruas lutar por seus direitos e com disposição para enfrentar a repressão estatal, daquelas manifestações equivocadas e irresponsáveis dos que se infiltram provocando a polícia e quebrando tudo que veem à sua frente, não devemos julgar impossível trazer esta juventude e sua disposição para o lado certo das manifestações, ganhando a opinião pública para o apoio às reivindicações latentes nas ruas.
 
O Sr. Lassance, como de resto os demais conservadores e veículos remunerados pelo governismo, certamente não se agradam desta realidade e já perceberam que o PSOL é um partido que está em sinergia com os anseios populares mais legítimos desta conjuntura, daí os ataques patéticos ao PSOL e particularmente à figura política mais relevante deste partido no Rio de Janeiro, o deputado Marcelo Freixo. Assim, de forma covarde, fazem de um episódio lamentável – a morte trágica do cinegrafista Santiago – um palanque para seus interesses mesquinhos. O pano de fundo desta inquietação de Lassance e dos que reverberam suas inverdades, é que sentem saudade dos tempos recentes em que a juventude brasileira era vista amarrada a entidades estudantis tão estéreis quanto a mais podre e velha política, ou estava acorrentada a estratégias individualistas liberais atrás de um emprego cada vez mais improvável, ou correndo atrás da próxima balada, ou sendo arrastada para o narcotráfico, ou balançando docilmente em transportes públicos lentos, lotados, desconfortáveis e caros. Uma parcela desta juventude descobriu que tem força, que pode reagir, que pode reivindicar. Trema a vontade cientista Lassance, pois o senhor está diante de uma força realmente assustadora e transformadora: a juventude mobilizada. Esta força não me assusta e de certo não assusta ao PSOL. Pelo contrário, é nesta força que está a nossa certeza de que neste mundo nada deve parecer impossível de mudar.

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