Contra o FMI
Pela manhã, cerca de 60 mil pessoas marcharam no centro de Atenas portando faixas e gritando palavras de ordem contra o governo e o FMI. Em mais de uma ocasião, a polícia reprimiu o povo com gás lacrimogêneo e cassetetes. Alguns manifestantes revidaram e houve confrontos.
A greve envolveu trabalhadores e trabalhadoras de setores públicos e privados, evidenciou o poder da classe unida (nenhum país funciona e nada se produz sem a força de trabalho) e foi mais um vigoroso pronunciamento popular em defesa de direitos e conquistas arrancados com muita luta no passado, assim como contra as falsas soluções para a crise que o governo quer impor por determinação do FMI e da cúpula da União Europeia.
Partido Comunista
O Partido Comunista da Grécia (KKE) esteve à frente dos protestos e fez um apelo ao conjunto dos trabalhadores europeus para unificar forças com os gregos e enfrentar a ofensiva reacionária das classes dominantes no contexto da crise fiscal provocada pela dívida externa.
A mensagem rebelde dos grevistas transpareceu nas faixas e cartazes exibidos nas ruas de Atenas: “taxem os ricos”, “não pagaremos pela crise dos ricos”, “não toquem nas nossas pensões”, entre outras do mesmo gênero.
As razões dos trabalhadores e trabalhadoras, apoiados por mais de 50% da nação, segundo pesquisas recentes, são fortes. O pacote sugerido pelo FMI e acatado pelo governo social-democrata prevê redução e congelamento de salários, corte de benefícios e direitos como 13º e 14º salários, flexibilização da legislação trabalhista, elevação da idade mínima para aposentadoria e aumento de impostos. Tais medidas devem ser analisadas nesta quinta-feira (6) pelo Parlamento, onde o governo tem maioria.
O pensamento das classes dominantes, transmitido pelo FMI, pelos analistas e porta-vozes dos mercados e reiterado ad nauseam pela mídia, sustenta que não há outra saída, mas isto não é verdade, ou melhor, é a verdade do capitalismo neoliberal. O pronunciamento do social-democrata Papandreou pedindo o “sacrifício” do povo, por sinal, soa patético no eco da greve.
Filme antigo
Para a oligarquia financeira, fração hegemônica da classe capitalista na economia moderna, certamente o pacote do FMI é a melhor e quem sabe a única solução possível. Afinal, todo o “plano de austeridade” foi bolado precisamente para impedir a moratória e garantir o pagamento dos juros, embora seja cinicamente apresentado como a “salvação da pátria”.
O povo brasileiro já viu este filme. A intervenção intermitente do FMI na política econômica a partir de janeiro de 1983 até o último governo FHC viabilizou o pagamento dos juros da dívida externa contraída pelo regime militar, mas resultou em mais de duas décadas perdidas, redução substancial da participação dos salários no PIB, precarização das condições e relações de trabalho, desemprego em massa, desnacionalização, privatização e outras misérias.
Dois pesos e duas medidas
A perspectiva para a Grécia não é diferente, talvez seja pior. Estima-se que o país não retomará os níveis nominais do seu PIB antes de 2017. Como todas as amargas receitas do FMI, a que está sendo sugerida aos gregos tem um nítido caráter recessivo e um sentido oposto ao que foi e ainda vem sendo feito pelas potências capitalistas para reverter a crise irradiada pelos EUA.
Obama incorreu num déficit público superior a 1,6 trilhão de dólares em 2009, a dívida pública americana se aproxima de 15 trilhões de dólares, Tio Sam vive muito além dos seus meios e isto cria sérios desequilíbrios para a economia mundial. Mas o FMI não ousa dar palpites, ninguém recomenda aos norte-americanos gastar menos e poupar mais para pagar a dívida.
Crise do capitalismo
A Grécia não é um caso isolado, constitui um elo frágil do imperialismo europeu, a exemplo de Portugal e Espanha. A crise no país helênico é sintoma de uma patologia mais profunda cuja raiz remete ao processo de reprodução do capital no interior da ordem imperialista e de valorização do capital na esfera financeira.
É uma crise do capitalismo neoliberal e da atual ordem imperialista. Uma solução justa e progressista não será alcançada nos marcos deste sistema. Esta é a mensagem de fundo que deve ser percebida na greve geral que paralisou a Grécia nesta quarta-feira. O protesto que abalou o euro e a Europa é um grito indignado contra aqueles que dizem que não há outra solução fora da racionalidade irracional do capital financeiro. A luta da classe trabalhadora e dos povos há de abrir novos caminhos para a sociedade humana e não só na Europa.

