Do PSOL Nacional, Leonor Costa
Mais do que um simples feriado, o Dia Nacional da Consciência Negra em São Paulo, celebrado nesta quinta-feira, 20 de novembro, foi um dia de ir para as ruas apresentar as reivindicações dos movimentos sociais que debatem a pauta racial e que lutam por mais direitos para a população negra. Centenas de pessoas participaram na tarde de hoje da XI Marcha da Consciência Negra, na capital paulista. Com faixas e cartazes, os ativistas saíram por volta das 15h do Vão do Masp, desceram a Avenida Paulista, passaram pela Consolação e seguiram até o Theatro Municipal, onde se encerrou a manifestação.
Após mais de 126 anos da abolição, negros no Brasil ainda enfrentam muitos obstáculos para a plena igualdade. O racismo continua impregnado na sociedade brasileira, apesar das conquistas advindas com políticas públicas de inclusão e igualdade racial.
Com essa preocupação, a XI Marcha denunciou o genocídio da juventude negra por forças policiais, as intervenções urbanas que isolam as periferias das grandes cidades e a pouca presença de negros nos espaços institucionais do Estado. Entre os pontos defendidos pelos militantes da causa racial, se destacaram, ainda, a reforma política, a democratização dos meios de comunicação, a desmilitarização da polícia, a destinação de mais recursos para políticas de inclusão racial, a implantação de leis antirracismo, o direito de expressão das religiões de matriz africana, o combate ao machismo e o fim da violência contra a mulher negra.
Entre as várias organizações que construíram a XI Marcha da Consciência Negra este ano, vale pontuar o Círculo Palmarino, Uneafro, Educafro, MNU, Unegro, além de outros coletivos, o que deu o caráter unificado da manifestação, com a participação de militantes de várias frentes de esquerda e movimentos sociais.
Violência contra negros
Segundo Luciete Silva, integrante da Executiva Nacional do PSOL e militante do Círculo Palmarino, o tema que mais apareceu durante toda a caminhada da XI Marcha foi o extermínio da população negra, em especial dos jovens das periferias do país. “Essa pauta esteve presente o tempo e em todos os núcleos que compuseram a marcha. Isso mostra que esse, no momento, é um tema central para o movimento negro”, explicou Luciete.
A preocupação das organizações tem sentido de ter um peso cada vez maior considerando os números apresentados por várias pesquisas, em que apontam os negros como as principais vítimas de assassinatos, em especial pelas forças de segurança do Estado. O Brasil, em cinco anos, matou mais pessoas do que a polícia dos Estados Unidos em 30 anos, segundo recente levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) que compõe o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. É o mesmo documento que aponta que, em 2013, 68% das vítimas fatais foram negras. A maioria delas homens (93,8%) e com idade entre 15 e 29 anos (53,3%).
Já o Mapa da Violência 2014 aponta que das 56.337 pessoas vítimas de homicídio no país em 2012, 30.072 eram jovens. Desse total, 23.160 eram negros. Entre os 12 e 21 anos, enquanto a taxa de jovens brancos mortos é 37,3 em cada 100 mil, a de negros chega a 89,6, segundo o documento.
Infelizmente, casos como o do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza, em junho de 2013, durante uma operação policial na Rocinha (RJ); a morte do menino Douglas Rodrigues, vítima de um tiro disparado por um policial militar, na Vila Medeiros, zona Norte de São Paulo, cuja última frase pronunciada deu nome a campanha “Porque o senhor atirou em mim?”; o assassinato do dançarino DG na comunidade do Pavão-Pavãozinho (RJ); e ainda a morte de Cláudia, empregada doméstica arrastada por uma viatura da PM, também no Rio de Janeiro, estão cada vez mais distantes de se tornarem isolados e apenas uma mera coincidência.
Conforme explicou Luciete, a marcha de hoje teve a preocupação de exigir a mudança desse cenário de violência e de reivindicar igualdade de direitos e de oportunidade para a juventude e trabalhadores negros. “Cumpriu o papel de colocar essas questões na rua. E vimos um grande número de pessoas que não são de grupos organizados se incorporarem à marcha, colorindo a nossa atividade”, ressaltou.

