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Bolívia: A vitória da marcha indígena em defesa do TIPNIS

*Por Neide Solimões e Eduardo Magno – Unidos para Lutar/Sintsep Pará

Somos trabalhadores do Serviço Público Federal e dirigentes sindicais. Estivemos em La Paz-Bolívia, de 17 a 21 de outubro, representando a Unidos para Lutar e o SINTSEP/PA, na recepção aos indígenas de TIPNIS que marcharam mais de 600 km, durante 67 dias para dizer a Evo Morales que não deixariam que uma estrada fosse construída cortando a reserva.  Quando desembarcamos em El Alto, no dia 17 de outubro à noite, já ficamos sabendo que nossa nota de solidariedade havia sido divulgada pela Rádio Erbol, no programa de Amália Pando, muito difundido em todo o país. Fomos entrevistados nesse programa no dia 18 pela manhã, nos sendo dado um amplo espaço para falarmos da nossa discordância com a política sub-imperialista do governo brasileiro e de que não aceitamos que o Brasil financie a construção de obras que destruam o meio ambiente e as reservas indígenas, como no caso de TIPNIS. Fomos, ainda, entrevistados pelas redes de TV UNITEL e RED UNO, tendo oportunidade de dizer para toda a Bolívia que o acordo de Lula com Evo, para a construção da estrada em TIPNIS faz parte de um projeto muito maior, que pretende construir hidrelétricas como Belo Monte, em rios que cortam terras indígenas, para atender os interesses dos grande capital e das transnacionais como a OAS, que financiam as campanha eleitorais do PT, no Brasil. Essas entrevistas nos deram grande visibilidade, a ponto de sermos cumprimentados por pessoas do povo, que foram às ruas para receber a Marcha.

A marcha chegou à La Paz no dia 19 de outubro, quarta-feira. Nós os encontramos em Urujara, nos arredores de La Paz, nos incorporamos e marchamos com eles por 24 km, durante mais ou menos 8 horas, até a Praça São Francisco, onde aconteceu um ato público.  Participamos da coluna dos companheiros da organização La Protesta, que protagonizaram a Guerra do Gás, em 2003, em El Alto. Fomos convidados e participamos do debate A AGENDA PENDENTE DE OUTUBRO, que fez balanço e homenagem aos 8 anos da Guerra do Gás.

A população de La Paz recepcionou a marcha por todas as ruas por onde passou, chamando  palavras de ordem de incentivo: “Fuerza, fuerza, fuerza, fuerza compañeros, que la lucha es dura, pero venceremos!”,  de solidariedade: “Somos todos TIPNIS” ou “ El TIPNIS no se toca” e ainda, de repúdio à traição de Evo Morales: “Evo, dizias que tudo cambiaria; mentira, mentira, es la mesma porqueria” ou “Si esto es el cambio, el cambio es una mierda” ou ainda “TIPNIS si, Evo no”  entre tantas outras e em uma só voz. Eram trabalhadores que deixaram seus locais de trabalho, crianças que saíram das escolas com seus professores, pais e mães com seus filhos de todas as idades, jovens e idosos. Todos tinham faixas, cartazes, bandeiras da Bolívia, cartolinas com frases escritas à mão ou bandeirolas com a frase impressa “Bienvenidos a La Paz”, demonstrando solidariedade e apoio à luta em defesa de TIPNIS.

Evo  avisou que não deixaria os marchistas  entrarem na Praça Murillo, onde fica o Palácio do Governo, reeditando uma ordem dos tempos da ditadura, de que nenhum manifestante poderia entrar e acampar  naquele local. Um grupo de cerca de 200 manifestantes entrou  e acampou na praça. Evo enviou a tropa de choque da polícia para bloquear todas as passagens que davam acesso ao local. Fazia frio de 2° C e os indígenas, homens, mulheres, crianças, idosos, tinham fome. Mas não saíram da praça. A população de La Paz, principalmente a juventude, passou a pressionar para que fossem retirados os bloqueios, para que os outros participantes da marcha pudessem entrar e para que se pudesse fazer chegar aos indígenas acampados, alimentos, mantas, cobertores e roupas para protegê-los do frio.  Mas, Evo Morales não se dignou a negociar nada. Não deu nenhuma resposta às reivindicações da marcha, não retirou a polícia e os outros marchistas ficaram fora da praça. As pessoas, através de algumas organizações, conseguiram enviar roupas, cobertas e alimentos para o acampamento que, no entanto não eram suficientes para aplacar o frio e a fome dos acampados. Nós, que estávamos hospedados próximos à praça, conseguimos ir até lá e conversamos com os manifestantes.

Eles, que tinham enfrentado a repressão de Evo no dia 25 de setembro, diziam que não sairiam dali sem que o presidente suspendesse a construção da estrada e que era preferível morrer ali naquela praça a voltar para TIPNIS, cortada por uma estrada que iria acabar com seu povo.

Ao saber que éramos brasileiros, nos perguntavam o motivo que levava o Brasil a financiar aquela estrada que só atenderia aos interesses do agronegócio brasileiro e dos cocaleiros bolivianos. Nós aproveitamos para repetir o que dissemos nas entrevistas de rádio e TV, que não concordávamos com o papel sub-imperialista do Brasil, que utilizava dinheiro público do BNDES para financiar uma obra que seria realizada por uma construtora transnacional, que financiou as campanhas do PT e  que, também, explora os trabalhadores brasileiros.

Só no dia 21 de outubro, à tarde, Evo recebeu algumas lideranças, as quais disseram que só negociariam com o governo depois que o restante da marcha pudesse entrar na praça. No final da tarde do dia 21, Evo anunciou em pronunciamento na TV que a estrada não passaria em TIPNIS e à noite o restante dos marchistas  adentraram a Praça Murillo.

Na madrugada do dia 22 de outubro embarcamos de volta ao Brasil, ainda emocionados com o que vimos e ouvimos e com a certeza de que não seremos mais os mesmos depois dessa experiência fabulosa, de luta e resistência de um povo. Os marchistas retornaram às suas comunidades com duas vitórias importantes: entraram e acamparam na Praça Murillo e nenhuma estrada será construída em TIPNIS. Tal como Evo Morales, Dilma Roussef não respeita os indígenas brasileiros e quer construir hidrelétricas nos rios que cortam suas terras. Falta aos brasileiros uma rebelião como a de TIPNIS.

*Fonte: PSOL Internacional

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