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Movimentos sociais reagem à indicação de Kátia Abreu e apontam cenário de retrocesso

Do PSOL Nacional, Leonor Costa

Antes mesmo de assumir o seu próximo mandato à frente do Palácio do Planalto, a presidente Dilma já anunciou medidas que apontam como será o tratamento do seu segundo governo em relação às pautas dos movimentos sociais. A sinalização, feita na semana passada, de que quer a principal porta-voz do setor agropecuário no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento causou indignação e fortes reações em lideranças das diversas organizações que atuam na defesa dos direitos dos trabalhadores rurais, das comunidades quilombolas e indígenas, dos povos da floresta e ribeirinhas e do meio ambiente. Kátia Abreu, senadora reeleita pelo PMDB-TO e presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura) – entidade máxima que defende aos interesses dos ruralistas – pode estar com os dois pés quase dentro da equipe ministerial do quarto mandato do PT na Presidência da República. No entanto, certamente enfrentará a sistemática oposição de setores da esquerda, inclusive daqueles que declararam o voto crítico em Dilma, visando barrar o retorno do PSDB ao governo federal.
 
O histórico da senadora, que está há seis anos à frente da CNA, contra as pautas dos movimentos sociais do campo é vasto e acumula uma série de medidas, destacando a forte pressão feita no Congresso Nacional na tentativa de impedir a aprovação da PEC do Trabalho Escravo e suas constantes investidas contra o avanço da reforma agrária e da demarcação de terras indígenas. A ofensiva como representante do agronegócio rendeu a ela o prêmio “motosserra de ouro”, dado pelo Greenpeace, ONG que atua na área do meio ambiente.
 
O líder do PSOL na Câmara, deputado Ivan Valente, lembra que a senadora sempre esteve alinhada contra as lutas do MST, dos camponeses e dos ambientalistas. “É uma péssima sinalização do governo. Oligarca sediada no Tocantins, fará todas as pontes com a Frente Parlamentar do Agronegócio e no reforço de um modelo agroexportador que reprimariza o país e é liderado pelos setores mais reacionários do Congresso Nacional. É uma imensa demonstração de fraqueza de um governo, que na política econômica já sinaliza para acalmar o mercado financeiro”, avaliou Valente, na mesma semana em que Dilma acenou querer Kátia Abreu no seu primeiro escalão.
 
Em nota publicada no site da CPT (Comissão Pastoral da Terra), Flávio Lazzarin, da coordenação nacional da entidade, considera que a possibilidade de a presidente da CNA assumir o Ministério da Agricultura mostra uma continuidade da política de aproximação do governo com o setor do agronegócio e da pressão da burguesia nacional. “É inaceitável! Isso mostra que os políticos não passam de balconistas do mercado mundial, como bem reforçava o subcomandante Marcos (líder dos Zapatistas, no México). O mercado está nervoso desde a campanha e isso impõe essas decisões antipopulares”, criticou.
 
O coordenador da CPT afirma que os movimentos sociais precisam se colocar como alternativa a esse avanço da pauta burguesa no governo e ele afirma ver espaços para uma forte reação. “O cenário que se apresenta agora é de mobilização permanente e de maior atuação dos movimentos sociais no campo das lutas e ocupações”, finalizou.
 
Mais retrocesso
O Secretário de Ecossocialismo e Cultura do PSOL-MG e membro do MTL (Movimento Terra, Trabalho e Liberdade), Paulo Fonseca, critica o resultado final do primeiro governo Dilma Roussef com relação às pautas dos trabalhadores rurais. Para ele, a presidente reeleita chega ao final do seu primeiro mandato com uma enorme dívida com os trabalhadores sem-terras, já que nos últimos quatro anos o número de famílias assentadas no campo é inferior ao dos governos anteriores. A gestão Dilma assentou uma média de apenas 25 mil famílias por ano.  Em média, o governo FHC assentou 67 mil famílias/ano e o governo Lula 76 mil.
 
E ele também avalia que a indicação de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura representa um aceno claro de que o segundo mandato da presidente Dilma será ainda mais conservador que o primeiro. “Este governo estará fazendo uma explícita opção pelo agronegócio, em detrimento da agricultura familiar”. De acordo com Fonseca, o MTL de Minas vê essa sinalização como uma declaração de guerra do governo aos trabalhadores rurais e aos movimentos de luta pela terra. “Fica evidente que reforma agrária só com muita luta e resistência. Benefícios de mão-beijada, somente ao agronegócio”, alfinetou.
 
Em protesto, MST faz ocupação
Mesmo a indicação de Kátia Abreu ainda não tenha sido feita oficialmente, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) ocupou, no último sábado (22), uma fazenda de cultivo de milho no interior do Rio Grande do Sul em protesto contra a sinalização de Dilma. Cerca de 2 mil membros do MST e outros movimentos camponeses ocuparam a Fazendo Pompilho, à beira da BR 158, que liga a cidade de Palmeira das Missões, no Rio Grande do Sul, à região oeste de Santa Cantarina.
 
O protesto na propriedade que, segundo o MST, mantém 2 mil hectares de cultivo de milho transgênico, foi a primeira manifestação por parte do movimento depois da informação sobre a possível escolha da senadora como futura ministra da Agricultura.
 
“É certo que existe um simbolismo nessa possível indicação, mas o problema é a linha política que será adotada. É importante aguardar se isso vai se confirmar, mas na especulação o que parece é que ela (Dilma) foi eleita com o voto popular para implementar o programa da direita”, avalia Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST. Segundo ele, a entidade aposta na construção de uma frente popular, com vários outros setores dos movimentos sociais, partidos de esquerda e movimento sindical, para barrar as medidas de retrocesso. “Estamos nos programando para 2015 e pretendemos unificar a nossa luta com outras organizações”, finalizou.

 

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